Os youtubers estão indo para a TV. O que isso significa?

No mundo cada vez mais multitela, multicanal, hiperconectado e integrado, é natural que surjam intersecções e intercâmbios de linguagens, personagens, estilos e modelos entre os meios. Os youtubers brasileiros estão indo para a televisão, por exemplo. O contrário também acontece. Sem espaço na televisão, alguns comunicadores e artistas tentam seus 15 minutos de fama (ou seriam likes?) no Youtube. O que isso significa? Conversamos com dois especialistas no tema: Vitor Knijnik, sócio fundador da Snack e Adrianne Elias, CEO da CoCreators. Confira:  

Os youtubers estão indo também para a TV... Isso é uma boa notícia?

Vitor Knijnik: Acho que não é boa, nem ruim. É o que é. Acontece que a televisão está indo para o Youtube, então é normal que esse caminho tenha dupla via. Acho que estamos vendo que cada vez mais o jogo é multiplataforma. A nossa vida é multiplataforma, você não está consumindo vídeo num meio só, você tem o celular na mão, a televisão e o computador em casa. Portanto, é normal que esses personagens que ficam famosos também viajem de um meio para outro. Vemos muitos movimentos de lá pra cá e de cá pra lá.

Adrianne Elias: Assim como temos muita gente da televisão indo para a internet, o movimento contrário também está acontecendo. E quem realmente tem conteúdo não precisa se limitar ao ambiente digital. É muito bom para o mercado como um todo: os youtubers podem alcançar um público diferente e ainda maior, ampliando também sua relação com as marcas que ainda trabalham com um mix de meios mais focado na TV. É um comportamento natural da audiência. As pessoas não estão apenas na internet, elas são multitelas: comentam na internet o que viram foram dela. Além disso, os youtubers estão aprimorando cada vez mais seu conteúdo - conversando com diferentes audiências - e as marcas começam a enxergar que o poder do marketing de influência não precisa se limitar ao ambiente digital. 

Qual a adesão da televisão para a linguagem dos youtubers?

Vitor Knijnik: Bom, essa é uma pergunta que não tem uma resposta só. Você vai ter personagens do Youtube que terão mais afinidade com a televisão e outros que não vão ter a mínima afinidade. Eu vejo, por exemplo, um Whindersson muito bem na televisão porque ele tem um humor popular, a gente até chama ele de Renato Aragão do século XXI. Inclusive, acho que ele já frequenta vários programas do Multishow com grande desenvoltura e tudo mais. Agora você vai ter outros que por terem começado dentro da plataforma do Youtube, com uma  característica muito específica de linguagem “youtubística”, digamos assim, vão ter muito mais dificuldade de ser adaptarem na televisão.

"Eu vejo, por exemplo, um Whindersson muito bem na televisão porque ele tem um humor popular."

Adrianne Elias: Enquanto meio mais tradicional que a internet – a televisão ajuda os youtubers a se preocuparem mais com seu conteúdo e, consequentemente, a se tornarem mais brand friendly. Mas, a linguagem em si, não deve se perder. Afinal, a autenticidade e originalidade são alguns dos principais pilares que ajudaram o youtuber a construir sua audiência. 

Todos eles (youtubers) conseguem transitar nos dois meios de uma maneira totalmente natural ou a tendência é que alguns tenham dificuldade?

Vitor Knijnik: Cada caso é um caso. A linguagem do Youtube é uma linguagem de intimidade. Muitos se gravam sozinhos e é natural que aja uma timidez em relação a TV não pelo aparato todo, mas pela forma de se comunicar com quem está do outro lado, que é muito mais pessoal. Praticamente no Youtube parece que você está falando de uma pessoa para outra. E até o consumo é assim, se você pensar o celular é algo que está nas mãos das pessoas, tem toda uma relação maior de intimidade, então é natural que alguns desses personagens, quando migrem para a televisão não se adaptem tão bem. 

Adrianne Elias: É claro que alguns farão esse movimento com mais facilidade que outros. Não só pelo conteúdo, mas também pela capacidade de cada um de ser versátil. Além disso, os youtubers que são apenas "polêmicos" vão ter mais dificuldade de irem para  a TV, já que é um ambiente onde não terão tanta liberdade quanto em seus canais.  

"Os youtubers que são apenas "polêmicos" vão ter mais dificuldade de irem para  a TV."

Como explicar esse fenômeno de que muitos youtubers estreiam as suas imagens na TV através de propagandas?

Vitor Knijnik: Olha, me parece simples: os youtubers que ficam famosos no Youtube já tem um significado e uma representação para muitas pessoas e muitas comunidades. Então é natural que a propaganda, que está sempre procurando ídolos e personagens para representar suas marcas, seus produtos e seus serviços, vá atrás dessas pessoas. É natural que o mercado publicitário reconheça isso antes até do que as emissoras, por um aspecto comercial.

Adrianne Elias: Eles já fazem propaganda no ambiente digital e sua audiência sabe disso: seja num vídeo, num post, ou no stories as pessoas sabem que o produto não está aparecendo ali por nada. O marketing de influência também está sempre se recriando, mas a credibilidade dos youtubers se mantém, pois sua audiência sabe que eles não fariam um vídeo sobre um produto que não usam, não gostam ou não acreditam. Assim, o caminho mais fácil e rápido para outros meios - como a TV - é através da propaganda. 

Na TV, esses youtubers conversam com o seu público e outras pessoas? Quem?

Vitor Knijnik: A natureza do youtube é a fragmentação, os youtubers falam com públicos diversos, são mais de 480 mil produtores regulares com conteúdos muito diferentes entre si. Com o amadurecimento do mercado os youtubers vão atuar em diferentes plataformas, inclusive a TV, como já vêm fazendo alguns expoentes desse mercado, como PC Siqueira, Dani Noce e Poladoful. Cada programa seja na TV ou no Youtube atende a um público específico.

Adrianne Elias: Na TV, os youtubers têm a oportunidade de conversar não só com seu público, mas também outras audiências que não são tão digitalmente ativas. Ou que estão sim no ambiente digital, mas, simplesmente, não conhecem seu conteúdo. Na TV, por exemplo, ele vai poder falar com o adolescente que já assina seu canal e com o pai, que talvez nunca o tenha visto na vida. De novo, é uma super oportunidade para as marcas e os influencers atingirem novos públicos. 

Renato Rogenski

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