“Não é sobre fazer posts engraçadinhos ou esporádicos”

É praticamente impossível “morar na internet” e não conhecer a Bia Granja, cofundadora e curadora do YouPIX, plataforma de eventos, educação, análise e informação de tendências digitais. Daquelas que chegaram na web “quando tudo era mato”, Bia ajudou a descobrir, debater e disseminar a cultura de internet no Brasil, um território que poucos dominam com tanta habilidade e conhecimento como ela.

Desde 2006, quando criou a PIX Magazine, uma revista impressa que juntava as coisas mais legais que rolavam na internet, ela vive de sua capacidade de produzir conteúdo e gerar conexões. O folhetim foi o embrião para o nascimento em 2009 do YouPIX, o maior hub de comportamento digital brasileiro, seja através dos festivais realizados anualmente ou do site propriamente.

Amadurecendo ao longo do tempo a sua mentalidade de empresária, passou a ser convidada para diversos projetos envolvendo conteúdos, estratégias e marcas. Em 2015 deu descanso ao já tradicional YouPIX Festival para dar vida ao que chama de “evento de adulto”, o YouPIXcon, hoje consolidado como um dos encontros nacionais mais relevantes para quem quer entender e discutir o mercado de comunicação.

Com toda essa bagagem e o olhar sensível e apurado para o que de mais novo tem sido produzido em termos de conteúdo para marcas no mundo, Bia Granja trocou ideias com a gente para compartilhar algumas de suas opiniões sobre o content como ferramenta e mindset para as empresas. Confira:

Qual é o balanço que você faz hoje sobre a relação das marcas com a produção de conteúdo?

As marcas estão começando a enxergar que conteúdo não é uma estratégia de vendas, um post ou uma mensagem que passamos quando queremos promover algo. Fazer conteúdo exige uma marca com voz e valores bem definidos, que guiarão uma estratégia de storytelling perene. Não é sobre fazer posts engraçadinhos ou esporádicos, é sobre ter uma estratégia de conteúdo sólida. É sobre se ver como um creator, um publisher de verdade.

Aparentemente o Youpix sempre enxergou muito bem esse movimento de creators ... Por quê?

Porque nunca tivemos preconceito. Porque sempre vimos com muita curiosidade e encantamento essa democratização dos meios de criação e distribuição de conteúdo que a web trouxe. Antes da web, pra que a gente tivesse um meio de expressão com audiência, sempre foi necessário ter muito dinheiro (pra rodar jornal, pra distribuir revista, comprar equipamentos e montar estúdio, ter o canal de TV ou a rádio). A internet revolucionou a comunicação e a informação ao derrubar essa vantagem competitiva financeira. Quando qualquer pessoa pode criar seu conteúdo, nós vemos o quanto de diversidade e pluralidade existe no nosso país. E isso é foda. O que sempre nos motivou, de maneira pessoal mesmo, na pessoa física, foi esse entendimento da internet como ferramenta de autoexpressão. Começamos a reportar sobre o assunto de modo natural, sem julgamentos, apenas tentando entender e dar palco para que esse novo mercado, essa nova cultura e essa nova profissão fosse discutida.

Conteúdo tem que ser verdadeiro para ser relevante e entregar algo além do conteúdo em si para ter valor.

Relevância e contexto são as armas do conteúdo para transformar a comunicação? Por quê?

Eu diria que as grandes armas são: verdade e valor. Inclusive essas são as armas para transformar não só a comunicação, mas o próprio conteúdo. Conteudo hoje é commoditie, é algo banal que qualquer um pode fazer e quase todo mundo que está online produz em algum nível. Produzir conteúdo não é mais exclusividade de publishers, de produtoras, de veículos... O que faz com quem o conteúdo em si esteja passando por uma quebra de paradigma, uma busca pelo seu valor.
Conteúdo tem que ser verdadeiro para ser relevante e entregar algo além do conteúdo em si para ter valor.

Quando se fala de conteúdo para as marcas... Quais são as principais tendências em sua opinião?

Marcas com planos editoriais bem definidos, com visão de publisher e não de marqueteiro. Marcas internalizando suas áreas de conteúdo e transformando suas áreas de conteúdo em unidades de negócio em si.

E as principais oportunidades?

Engajar audiências de modo profundo e entregando valor no longo prazo. Quanto mais fazem isso, mas influentes se tornam e maior o ROI.

As redes sociais e seu poder de alcance aceleraram esse processo de criação de conteúdo pelas marcas, de alguma maneira?

O bom e o ruim das redes sociais é que para você existir nelas precisa criar conteúdo em algum nível. Se você não faz isso, sua página, seu perfil, seu canal ficam em branco. As plataformas digitais aceleraram a migração das marcas para uma comunicação mais perene, com mais propósito e também trouxe essa mudança estrutural na maneira de se comunicar e criar mensagens.

Temos também muitas marcas fazendo conteúdo bobinho, baseado em tiradinhas e datas comemorativas, trazendo pouco diferencial.

Qual é o nível de maturidade do mercado brasileiro em termos de branded content?

Creio que estamos em um nível interessante, de transição. Temos muitas marcas que já entenderam que branded content não é só qualquer conteúdo feito pela marca, mas que é um conteúdo que traduz a marca e o valor que ela gera pra sociedade. Mas temos também muitas marcas fazendo conteúdo bobinho, baseado em tiradinhas e datas comemorativas, trazendo pouco diferencial. Temos visto discussões interessantes sobre o papel do conteúdo na construção da marca e do negocio em si.

O que te inspira para produzir conteúdo e/ou ter insights?

Pessoas, ideias, diversidade e coisinhas nonsense.

Renato Rogenski

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