Simba: A joint-venture que ruge para as operadoras

São Paulo acordou surpresa naquela quarta-feira (29 de março). Após comunicados da Record, Rede TV! e SBT de que seus sinais seriam cortados, as operadoras de TV paga pela primeira vez na história não transmitiram seus programas a partir daquele dia. O que causou espanto para milhões de espectadores na Grande São Paulo já havia ocorrido segunda (27) em Brasília e era a demonstração mais clara de um embate que se arrastava por anos.

O início do enfrentamento data do começo da implantação da TV digital no Brasil. Ocorrida em 2007, a primeira transmissão deste tipo no país aconteceu na Sala São Paulo e teve participação de figuras importantes, entre elas, a do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A partir daí, começaram exibições públicas, anúncios das vantagens e adesão das emissoras, até que em 2012 todas as capitais do território nacional já tinham pontos digitais abertos e a previsão de que até 2017 todo brasileiro veria televisão digitalmente.

Além dessas mudanças na maior mídia do país, em 2011 a Lei Nº 12.485 autorizou a venda de sinais digitais para as operadoras e a corrida para fechar acordos com as TVs por assinatura se acirrou. Neste cenário, Globo, Band e outras emissoras fecharam acordos com as empresas do ramo e passaram a receber quantias fixas por assinante. 

Diante deste imbróglio, o ambiente para que uma união entre RedeTV!, Record e SBT fosse propício estava criado. Já que das grandes elas eram as únicas que ainda não haviam fechado nenhum acordo e o futuro corte nacional do sinal analógico possibilitava a cobrança dos seus serviços, as três se uniram e criaram em 2014 uma joint-venture para ganhar mais força nas conversas com as operadoras.

Primeiros passos

Anteriormente chamada de “Newco” (abreviação de new company), a parceria obteve aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão que analisa fusões entre empresas concorrentes e adotou o nome de Simba Content. Baseado no protagonista do clássico Rei Leão, a união desde sua gênese teve como principal finalidade lutar para que os direitos que seus idealizadores julgam justos sejam conquistados.

Desconhecido para a maioria, a Simba se manteve fora dos holofotes durante três anos, até que em 13 de março deste ano foi contratado Marco Gonçalves – ex-sócio do BTG Pactual. Com a proposta de negociar com as programadoras, o executivo começou a conversar com NET, Claro TV,  Vivo TV, Oi TV e Sky cinco dias antes do corte nacional.

Enquanto eram travadas conversas internas, comunicados eram transmitidos na telinha pelas personalidades de cada emissora. Na RedeTV!, Marcelo Carvalho, sócio e vice-presidente do canal, gravou um depoimento explicando o que ocorreria e o que a Simba faria para que os telespectadores não ficassem sem “O Sílvio Santos de cada domingo”.

Na casa do icônico animador, o apresentador Ratinho fez um programa especial com artistas do SBT e Marcelo Carvalho para comentar sobre o que estava acontecendo.

Na Record não foi diferente e para explicar o que ocorria, Celso Russomano foi ao Cidade Alerta conversar com os consumidores.

Além disso, as emissoras veicularam um comunicado conjunto:

Defesa das operadoras

Após a investida da Simba, não tardou para que os conglomerados de TV por assinatura se posicionassem. O primeiro a se comunicar foi a NET, pertencente à Claro, que informou que seus assinantes perderiam os canais e reafirmou a distribuição de outras emissoras como Globo, Gazeta, TV Cultura e Band.

A SKY também veio a público em nota oficial dizer que “Apesar de ter uma concessão gratuita, a Record, o SBT e a Rede TV! desejam cobrar dos clientes pelo mesmo conteúdo de programação. Essa foi uma decisão unilateral da Simba, empresa que reúne as emissoras em questão. A SKY discorda da cobrança e segue aberta às negociações, tendo como objetivo sempre preservar os direitos e interesses de seus assinantes”.

Neste primeiro momento de corte da grade, OI e a Vivo iniciaram negociações, mas preferiram não se pronunciar. Diante da questão, a Associação Brasileira de TVs por Assinatura (ABTA) defendeu que “Após o desligamento do sinal analógico, a lei determina a livre negociação entre as partes. As empresas de TV por assinatura já têm acordo com a maioria dos canais de TV aberta sem qualquer ônus para seus assinantes. Em relação aos canais Record, RedeTV! e SBT, ainda não há um acordo estabelecido. Em razão disso, essas emissoras solicitaram que os sinais de seus canais fossem suspensos nas TVs por assinatura. Nossas associadas, operadoras de TV por assinatura, desejam restabelecer a transmissão desses canais e seguem buscando um acordo com essas emissoras de forma a não onerar os seus assinantes. Nosso compromisso é com você, assinante! As empresas de TV por assinatura seguirão negociando para que você continue com todos os canais da TV aberta”.

O embate

E as negociações prosseguiram sem desfecho. A cada semana novos status eram publicados. Primeiro, a Vivo era a única favorável às exigências da joint-venture; NET e OI seguiam com as conversas e a SKY sempre se mostrou irredutível em pagar pela transmissão do sinal das emissoras.

A Simba procurou então novas propostas, criar canais com conteúdos de seus programas mais queridos como Chaves e Chapolin, por exemplo, e outros formatos que seriam passados 24 horas. Além disso, para agregar valor de troca com as operadoras, ela também buscou aumentar seus serviços de streaming , oferecimentos on demand e ampliação de espaço publicitário para as redes de TV por assinatura.

Até final de abril, os acordos pareciam surtir efeitos. Em material divulgado para a imprensa era dito que “A Simba decide manter o conteúdo disponível aos assinantes da operadora (Vivo) pelos próximos dias, enquanto as negociações ocorrem. Esperamos que as outras operadoras, Net, Claro, Embratel, Oi e Sky tenham a mesma sensibilidade da Vivo, para não prejudicar o assinante de televisão paga no Brasil.”

Últimos movimentos

Depois de algumas quedas de braço, a Simba sofreu os primeiros golpes de sua investida. Em comunicado, a única TV por assinatura que ainda veicula a programação das três emissoras também jogou a toalha. “A Vivo mantinha negociações com os canais Record, SBT e RedeTV, porém não chegou a um acordo comercial. Por esse motivo, a distribuição desses canais será suspensa a partir de 10/06/2017”

Ao ver a audiência cair e em mais de um mês as negociações retrocederem, a direção resolve contratar um novo nome para comandar os acordos. De acordo com Ricardo Feltrin, do UOL, o novo executivo é quem será o elo direto com as operadoras e o antigo interface Marco Gonçalves deverá ser remanejado. O nome do novo executivo provavelmente será anunciado nos próximos dias.

Enquanto a criação que ruge contra as operadoras perde vez mais espaço nesta batalha, o rei do entretenimento, Silvio Santos, aparece em vídeo no Instagram publicado pela filha alegando que não há necessidade de TV por assinatura para ver o SBT, basta comprar “uma anteninha na Santa Efigênia... E você nunca mais precisará pagar cabo”.

"Vale a pena você comprar a antena". #ficadica #bomconselho

Uma publicação compartilhada por Patricia Abravanel (@patriciaabravanel) em

A publicação da Patricia Abravanel pode remeter a uma frase do desenho do Leão da Disney: “Quando o mundo vira as costas para você, você vira as costas para o mundo”. Resta saber se tal como no clássico infantil, Simba dará a volta por cima e reconquistará seu espaço ou verá seu território ser engolido pelos outros players.

Procuradas pela equipe do Adnews, as operadoras e a Simba alegaram ainda estar em negociações, o que impossibilitaria entrevistas, compartilhamento de informações e posicionamentos.

 

 

 

Gabriel Grunewald

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