O mito de 'vestir a camisa da empresa' e a arte de engajar colaboradores

camisa

Em muitas reuniões e até depois de palestras que dou é comum as pessoas me perguntarem como eu faço ou fiz para engajar pessoas nos trabalhos em que eu liderei, seja em projetos variados ou hoje, no Share. Trabalhamos todos em modelo home office, pois nosso formato permite isso. Mas, refletindo um pouco mais sobre o tema ‘engajar pessoas no trabalho’, vejo que alguns pontos são vitais, como:

Transparência na relação

Em todas as equipes que eu montei e quando ia contratar alguém eu sempre fui muito transparente quanto às minhas expectativas, quanto ao trabalho desta pessoa e tentava ao máximo entender quais eram as suas expectativas com relação à empresa. E isso deve ter uma manutenção constante. Convenhamos que as pessoas em geral mudam de ideia, mudam suas vidas, suas escolhas e isso impacta fatalmente no trabalho. Por isso, papos quinzenais e mensais sobre a vida ou sobre o que esperamos um do outro são fundamentais. E quanto mais sem filtro forem essas conversas, mas ambos os lados estarão tranquilos no que um espera do outro. As entregas ficam mais dentro do esperado e o fluxo roda bem.

Se importar de verdade

A relação de trabalho, pra mim, sempre foi além do trabalho. Não existe separação na verdade, pois muitas pessoas passam muito mais tempo no trabalho do que na sua vida pessoal. Por isso é muito importante se importar de verdade, conhecer bem o que essa pessoa gosta, o que a motiva, o que desmotiva, o que ela curte fazer nas horas de folga e o que não curte. Com isso você terá insumos para fazer coisas legais para a pessoa que trabalha com você. Como em qualquer relação, é necessário conquistar o coração. Não vestimos mais a camiseta da empresa... A menos que ela vista a nossa também. Ou seja, a relação de trabalho é uma via de mão dupla. Você se importa comigo? Faz coisas pra mim? Me deixa feliz? Beleza. Farei o mesmo pela empresa. Isso se chama reciprocidade.

Desafiar para desbloquear

Muita gente quer protagonizar coisas, mesmo sem aparecer. Por isso, para uma boa relação de trabalho, é muito importante jogar desafios de criar coisas novas e diferentes para que essa pessoa entenda que o trabalho dela não é apenas sobre ‘executar coisas’, mas sim executar coisas que possam deixar um legado dentro da empresa e para os clientes. Ideia todo mundo tem, alguns mais, outros menos, mas abrir um espaço para que ela aconteça e desafiar para que elas possam nascer é vital para que as pessoas se sintam parte do todo e não apenas achem que o trabalho que fazem, qualquer um pode fazer. Uma coisa que eu sempre digo é que todas as pessoas têm o que chamo de “diferencial natural”. É comum perguntarem: “Qual seu diferencial?” ou “Qual o diferencial da sua empresa?”. Quando eu vejo alguém perguntando isso, eu lembro do “diferencial natural”, que nada mais é que responder essa pergunta com um “o maior diferencial sou eu”. Pois somos todos diferentes, e essa diferença, por si só, já gera um diferencial natural. Vai de cada um fazer ele ser algo de fato produtivo. Mas uma coisa é certa: nascemos com esse diferencial, ele vem de fábrica.

Reconhecer

Eu li uma pesquisa feita no ano passado, onde perguntavam para as pessoas o que em geral elas mais valorizam no trabalho. O campeão foi reconhecimento. E é uma resposta lógica e um processo de dominó. Isto é, as empresas querem ser reconhecidas no mercado, querem que seus clientes reconheçam seus produtos e serviços como os melhores, mas estas mesmas nem sempre fazem isso da porta pra dentro. Reconhecer é valorizar, reconhecer é empoderar, reconhecer engaja, reconhecer alegra e deixa as pessoas se sentindo parte de algo maior. Não necessariamente se reconhece com dinheiro. É possível reconhecer com um presentinho, um abraço, um “muito obrigado”, um “você fez um trabalho incrível”, “parabéns”. Tudo isso é reconhecer e sem dúvida é um dos fatores que levam as pessoas a se engajarem.

Comprometimento de entrega

Trabalhar no modelo home office traz muitas liberdades, gera menos custo e muita gente me pergunta como eu faço para saber se as pessoas estão realmente trabalhando, pois eu não estou vendo-as, não tenho uma câmera filmando o que elas estão fazendo, não tenho software no computador delas para bloquear o uso de redes sociais ou para medir se estão realmente trabalhando. E então: como eu faço para saber se estão sendo produtivas? E eu normalmente respondo que eu não sei se elas estão agora, por exemplo, trabalhando, mas eu tenho certeza que elas vão entregar o que pedi na data que combinamos. Ou seja, nós temos um comprometimento de entrega e não um contrato de ‘minha vida é sua’ e isso faz total diferença. Nós somos muito diferentes, porque ainda precisamos ter ‘horário comercial’? Porque o banco tem, ok, mas não é sobre isso. É sobre eu, por exemplo, que sou mais produtivo cedão e uma pessoa que trabalha comigo que é mais produtiva depois das 23h. É sobre produtividade, comprometimento de entrega e menos sobre regras.

"Trocaram minha empresa por um outro emprego para ganhar 100 reais a mais". Já ouvi muito coisas assim, trocas de emprego por pequenos aumentos de salário ou mais benefícios, sempre contados com tom de raiva. E eu sempre pensei: “poxa vida, se o cara trocou o trabalho dele atual para ganhar 100 reais a mais, que bosta de relação que vocês tinham”. Por isso eu foco tanto na relação. Sem ela, tudo fica superficial, trocável e substituível, sem ao menos um aviso formal.

Crie momento inesquecíveis

Levar para almoçar, ter grupos no whatsapp para falar besteira e não sobre trabalho. E por que não comprar camisetas para sua equipe, como fiz na foto abaixo?

Ajudar sem apenas pensar em si mesmo

Uma vez um diretor de criação que trabalhava comigo veio me falar: “Poxa rafa, eu adoro trabalhar contigo na empresa, mas preciso de mais grana”. Eu falei: “Poxa velho, eu queria te pagar mais, mas não posso. Mas posso te ajudar a conseguir um emprego legal. Ele ficou mega surpreso, pois imaginou que eu ia soltar um mega ‘se vira’. Mas não. Eu me importo com ele e a relação que temos não é de trabalho apenas, é de amizade. E como um bom amigo, eu preciso ajudar. Ajudei. Ele foi pra outra agência, ganhando mais e feliz. Perdi um baita cara? Não. Mantive a relação de cumplicidade que sempre tivemos. Talvez um dia a gente vá trabalhar junto novamente. Acredito e espero que sim, inclusive. Até lá, estou aqui, torcendo por ele.

E o resultado qual é?

Além de uma produtividade gigante, coisas incríveis podem acontecer, como aconteceu quando sai de uma agência que trabalhei. No último dia, eles fizeram máscaras minhas dizendo “Somos todos Rafa”. Isso é emocionante, mas só vai acontecer se existir uma relação transparente de ajuda mútua, com reconhecimento e parceria mútua. 

Rafael Martins é co fundador e CEO do Share, presidente do Grupo Digital do RS e professor, palestrante e consultor. Já atendeu marcas locais, nacionais e globais, é considerado um dos grandes nomes do mercado digital nacional.

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