Saia da sua bolha (principalmente se você trabalha com conteúdo)

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Imagem: Pixabay

Uma das coisas que mais ouço nos últimos meses é que todos nós vivemos em uma bolha. Dentro dela, só existem coisas que nos interessam: posição política, time do coração, música preferida, pessoas que temos mais afinidade e tantas outras coisas que, com simples interações como likes, comentários e compartilhamentos revelamos para o Facebook e Google todos os dias.

Com isso, se criou o que muitas pessoas chamam de ‘conteúdo relevante’. Mas será?

Questiono, pois eu que trabalho ativamente com comunicação me pego por vezes caindo em armadilhas de achar que as pessoas em geral irão gostar do que eu gosto ou conhecer o que eu conheço. Vou dar um exemplo:

Ano passado, estava levando minha irmã para a aula de prótese dentária dela. Em nossa conversa, disse que talvez levaria a Kéfera em um evento do Share. Percebi que ela não deu a mínima para o que eu, com muito entusiasmo e acreditando que seria incrível, havia acabado de falar. Então, perguntei:

“Tu sabe quem é ela né?”

“Nunca ouvi falar.” Disse ela.

“Ora, mas como não, em que mundo tu vive?”

“Vivo no meu mundo e nunca ouvi falar de Kéfera.”

Isso me fez pensar muito. Pois, de verdade, vivemos em nosso mundo - ela no mundo dela, de prótese dentária e eu no meu, de comunicação. Até aí tudo bem.

O risco aqui, para quem trabalha criando coisas para as pessoas consumirem, é não entender o contexto delas, não saber quais são suas motivações, seus problemas e sua forma de ver o mundo. Podemos achar que pensamos da mesma forma que vemos e fazemos as coisas, mas acredite, não é bem assim.

Comecei a buscar entender e conhecer outros mercados, pessoas e realidades para tentar sair da minha bolha. Semanas atrás dei uma palestra em uma feira do turismo e percebi o quanto o digital é novo e o quanto achamos que tudo pode parecer óbvio. Mas, para muitos mercados não é. Falando com eles, dei meia dúzia de ideias na hora das perguntas e percebi o quanto os ajudei, com ideias simples pra mim, mas que eles não tinham vivenciado ou não sabiam que poderia ser feito.

A base da criatividade é o repertório - por isso, buscar o diferente e o que não está diretamente relacionado ao que ‘gostamos’, não é apenas algo que tem a ver com empatia, mas também com produtividade.

Conheci há pouco tempo este site, que basicamente mostra uma realidade incrível, comparando salários com outras profissões. Coloquei, como exemplo, um salário médio de 2 mil reais. Veja o resultado:

É impressionante saber, caso você já não saiba, que, por exemplo, com um salário de 2 mil reais você ganhará mais que 79% da população do RS.

Avançando na minha busca para sair da bolha, aconteceu algo inusitado. Fui buscar uma pessoa no aeroporto e enquanto aguardava por ela, percebi que havia muitas pessoas, sendo elas jovens, gritando, desesperadas, esperando alguém. Quando vejo, sai um jovem, no melhor estilo popstar. O aeroporto veio abaixo, com choros, gritos de ‘eu te amo’ e muita admiração, pedidos de fotos, pessoas querendo ao menos encostar nesse moço. Falei com o segurança, para saber quem era ele, e o segurança me disse: “O senhor nunca ouviu falar do MC Kevinho?”. Prontamente eu disse que não, mas logo fui pesquisar.

Uma das matérias que achei sobre ele era essa:

Não contente com essa matéria, fui fazer um comparativo e percebi algo bem legal. Fiz essa pesquisa no dia 3 de maio sobre uma música do Mc Kevinho e uma da Ivete Sangalo.

Podemos analisar isso de várias formas. Você dizer que os jovens que ouvem o MC Kevinho não são os mesmos que ouvem a Ivete, porque aqueles usam mais a internet. OK pode ser. Você pode dizer também que é assustador, porque a Ivete deveria ter mais visualizações, pois, “está na mídia, apresenta o The Voice na Globo, aos domingos!”

Poderíamos fazer uma matéria, uma longa discussão e uma análise toda só sobre este fato do MC Kevinho ter 175 milhões de views a mais que a Ivete. Só que a ideia aqui não é fazer essa análise mais profunda e sim perceber o quanto nossa bolha pode nos cegar para muitas coisas que estão acontecendo e são muito maiores que imaginamos.

Veja os movimentos feministas, de gênero e tantas outras coisas que deveríamos, como comunicadores, estar de alguma forma olhando e estudando. Não o fazemos, porque estamos presos na zona de conforto do algoritmo que dita o que devemos ou não ver. Busquei mais referências sobre isso e cheguei no TED do Eli Pariser - que é incrível.

Veja abaixo:

https://www.ted.com/playlists/470/how_to_pop_our_filter_bubbles

Mas dá pra sair um pouco da sua bolha sim! Existe uma playlist para você estudar e ampliar suas ideias aqui, neste link.

No que se diz respeito a conhecer mercados e o seu principalmente, aí sim é uma tarefa obrigatória. Todos os grandes mercados vêm se perguntando algo como qual será “O Uber do seu mercado”; logo, olhar pra isso diariamente é praticamente uma questão de sobrevivência e necessidade de inovação, além de claro, do fato de tentar sair da bolha. Para te ajudar, veja este artigo que diz muito sobre essa questão.

Compilei aqui diversas coisas que venho lendo, estudando e aprofundando para tentar ao máximo sair da minha bolha, porque isso me fez e continua me fazendo mais produtivo, empático e criativo. Recomendo a quem desejar olhar do lado de fora da bolha.

Rafael Martins é Co Fundador e CEO do Share. Presidente do Grupo Digital do RS. Professor, palestrante e consultor. Já atendeu marcas locais, nacionais e globais e é considerado um dos grandes nomes do mercado digital nacional.

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