A arte de manter-se como um eterno outsider

Tem uma coisa que me deixa intrigado: por que diabos marcas que dominam um setor, que vivenciam diariamente todos os desafios e oportunidades de um mercado e que vivem rodeadas de pilhas e mais pilhas de relatórios, pesquisas, análises e mapeamentos de cenário não conseguem pensar antes que hippies da Califórnia?

Pense comigo: será que o Youtube não poderia ter sido criado dentro de uma grande rede de televisão que, até onde sabemos, sempre conviveu justamente com o desafio de produzir e distribuir conteúdos audiovisuais? Estamos falando de grandes empresas que se especializaram em acumular e vender eyeballs. Será que ninguém percebeu que essas mesmas eyeballs estavam - e estão - migrando para outros lugares? Será que ninguém se deu conta dessa oportunidade surgindo no horizonte distante? Vejamos o caso do Waze. Será que ele não poderia ter sido criado por uma empresa do setor automotivo ou uma rede de postos de gasolina? E o que dizer do Candy Crush, o Angry Birds e tantos outros jogos que varrem os hábitos de consumo no mundo: não poderiam ter sido criados por uma gigante do setor de games? Ou mesmo o Instagram, não poderia ter sido criado pelo marketing da Canon ou da Nikon? Seria uma excepcional ferramenta de relacionamento e branding, não?

Por que o mindset e modelo de negócio do Netflix não nasceu dentro do marketing da Blockbuster? Por que diabos foi preciso o Vevo existir e varrer o planeta, tornando-se o canal mais assistido do mundo, para gigantes como a MTV perceberem o que estava acontecendo? "Opa, peraí preciso explorar melhor esse negócio aí de música na internet" Helo! O seu público-alvo já está lá há séculos, curtindo música, assistindo clipes e shows, revolucionando seus hábitos. O próprio modelo do iTunes, e agora, o modelo de assinatura musical via streaming: por que as próprias gravadoras, especializadas seculares no negócio de produzir e distribuir música, não anteciparam o mercado e elas mesmos se uniram para criar algo semelhante? Por que não olharam ao redor - e à frente - e não se mexeram antes de todos? Pelo amor de Deus, esses caras não tem filhos adolescentes em casa?

Se pararmos para pensar que não foi sequer uma grande fabricante de celular que criou o celular mais inovador e vendido no mundo constataremos que esse fenômeno é generalizado.

Mas por que será que nenhuma dessas ideias surgiu dentro de uma gigante do setor ou de suas agências de publicidade? Será que é justamente pelo fato delas estarem imersas e untadas naquele negócio? Você não acha curioso perceber que nenhuma das gigantes, de nenhum desses setores, criou nada parecido com o que outsiders o fizeram com maestria, inclusive revolucionando esses mesmos setores que teoricamente deveriam ser dominados por essas gigantes?

É o tal negócio: se você quiser saber tudo sobre água, jamais poderá se basear apenas na opinião de um peixe. É o que Mcluhan costumava chamar de "zona de ignorância" ou "zona de imersão ambiente" afirmando que, no caso do peixe dentro d’água, é justamente a água aquilo que ele desconhece completamente. Exatamente por estar imerso nela, ele não consegue percebê-la como um todo, em sua plenitude e complexidade.

Portanto, amigo leitor, tudo isso acaba servindo como uma tremenda de uma lição para todos nós, gestores de marcas, comunicólogos, publicitários e simpatizantes. Precisamos, cada vez mais, exercitar constantemente o nosso olhar e atitude de outsider. Talvez seja isso que o lema de Steve Jobs queria dizer também: "mantenha-se faminto, mantenha-se ignorante". Sempre que um problema ou desafio de comunicação se apresentar, temos que pensar: como eu resolveria essa situação se eu não tivesse absolutamente nada a perder? Como eu agiria se eu fosse um adolescente desprendido que simplesmente deseja tornar a vida das pessoas mais simples e melhor?

Nota do Autor: agora que percebi que esse artigo ficou com mais perguntas do que respostas. Mas concluo que isso é bom, muito bom, já que são elas, as perguntas, que nos impulsionam para frente.

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