O sucesso é um péssimo professor

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A frase do título da coluna desse mês é de ninguém mais, ninguém menos, que Bill Gates em seu livro “A Estrada do Futuro”. Gates se refere a como a Microsoft perdeu ao longo da história inúmeras oportunidades de exploração de novos mercados. Tudo em decorrência de todo conforto e acomodação que a liderança proporciona.

A Avis afirmava na década de 70 “we try harder” justamente por serem o segundo lugar. “O primeiro lugar não precisa se esforçar para mudar ou melhorar; precisa apenas não errar”, diziam os anúncios.

E Gates ainda completa no livro: “o sucesso induz gente brilhante a pensar que eles jamais vão perdê-lo. Não é um guia confiável para o futuro”.

Essa questão pode ser comprovada na imensa lista de empresas que lideravam seus segmentos mas que deixaram-se cegar pelo seu próprio sucesso.

Isso porque o muro que essas empresas erguem para proteger seu patrimônio não permite que elas enxerguem o horizonte de novas possibilidades se desenhando à sua frente, bem diante de seus olhos.

Tem vezes que essas empresas até conseguem escalar o muro para tentar enxergar algo a frente. Mas, das duas uma: ou desdenham do que veem por subjugar o futuro e ignorar os early adopters — como disse Henry Jenkins, se você quer saber como será o futuro basta observar os usuários pioneiros — ou não detém da agilidade e da coragem para ajustarem as velas a tempo de pegar o curso do vento certo para mudar o rumo das coisas, na direção que os hábitos de consumo estão indo.

Vejamos o exemplo sempre tão citado da Kodak. Em 1976, um jovem cientista chamado Steve Sasson, produziu para a empresa um relatório intitulado “a câmera do futuro”. Ela teria cartões de memória, armazenamento de imagens e um processo de envio de imagens por linhas de telefone, pasmem. Sasson chegou a construir um protótipo que corporificava essa visão de futuro.

Acredito que você possa adivinhar o que aconteceu, não é mesmo?

Os gestores da Kodak disseram não!

Cegos pelo enorme sucesso da empresa, que nadava de braçada no segmento de fotografia, oferecendo uma ampla linha de produtos e serviços voltada para a captura e impressão de fotos com altíssima qualidade. A Kodak e seus gestores orgulhavam-se tanto de serem obcecados pela fotografia perfeita que menosprezaram aquela alternativa de menor qualidade. Era uma questão tão forte e cultural enraizada na estrutura da empresa que eles ficaram embriagados pelo próprio sucesso. Sasson mesmo constatou posteriormente:

“Toda cultura forte contém a semente de sua própria destruição. A cultura é um conjunto definido de comportamentos que se desenvolve com o passar do tempo. Mas quando novas oportunidades surgem, a cultura detem você”.

A Kodak — e tantas outras empresas — veem como ameaça o que deveriam enxergar como oportunidade.

Estamos falando de empresas que enxergam como risco para o negócio o que deveria ser visto como a sobrevivência dele no futuro.

O autor e pensador Mike Walsh afirma em seu livro “Futuretainment” que se você quer ter ideias novas para o seu negócio, o primeiro lugar que você deve olhar é a pilha de pessoas que você está querendo processar.

“Mas por que o deserto contaria isso a um estranho quando sabe que estamos aqui há várias gerações?

Porque meus olhos ainda não se acostumaram com o deserto — respondeu o rapaz — e eu posso ver coisas que os olhos habituados demais não conseguem mais ver”

O Alquimista, Paulo Coelho

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