Estudante cria aplicativo para empoderar mulheres na denúncia de assédio nos transportes públicos

nina

Em maio de 2016, Simony César, estudante de Design Gráfico do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), tinha o intuito de “como desginer, [criar] alguma coisa para empoderar mulheres”. Durante um Hackaton em sua cidade, Recife, a estudante teve a oportunidade de unir um medo que teve a vida inteira e solucionar uma problemática local: a da violência. De lá pra cá Simony contou com o apoio da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) para tirar do papel seu aplicativo Nina, que permite mapear casos de assédio sexual em cidades. Além disso, a ferramenta também sugere outras rotas, mostrando seus graus de periculosidade.

Conversamos com Simony Cesar para saber mais sobre a iniciativa, suas motivações e objetivos com o Nina, que será lançado hoje, 09 logo mais às 16h no anfiteatro do Centro de Informática (CIn) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Confira o bate-bola exclusivo:

Pode contar de onde surgiu a ideia para fazer o Nina?

Minha mãe durante minha infância e adolescência era cobradora de ônibus em Recife. Sempre a vi saindo para trabalhar ainda quando estava escuro. Na época, eu não sabia externar o que sentia, mas hoje eu enxergo como medo. Medo de crescer e não tê-la mais por perto. Na mesma rua tinha outro cobrador de ônibus que sofreu assalto e ficou paraplégico. Isso ficou guardado na minha mente.  

Além desse ambiente, meu primeiro estágio foi em uma empresa de ônibus, em que trabalhava no departamento de marketing. Por isso, tinha consciência das denúncias, mas as que mais me interessavam não era as que mais interessavam para a empresa, que eram aquelas que tratavam de violência dentro do transporte público.

Então ocorreu um estupro dentro do campus da minha faculdade. Mais uma vez meu medo foi potencializado. Começaram reuniões dentro da própria universidade, algumas meninas começaram a andar com canivete. Entre esse momento e a criação do aplicativo foram dois anos.

Em maio de 2016 teve o caso  da menina estuprada por 30 homens no Rio de Janeiro. Ler os comentários me fez ficar ainda mais revoltada. Neste mesmo mês teve o “HackaCity”, hackaton que visa estimular o uso de big data e dados abertos no desenvolvimento de soluções para a cidade, neste evento eu tive oportunidade de pensar nas possibilidades para solucionar problemáticas locais.

Um dos dados disponibilizados no Hackathon era sobre transporte público de Recife, referente a geolocalização de ônibus. Foi aí que os assuntos [violência e ônibus] se uniram. O problema da vez foi provar que o assunto era uma problemática, já que não existiam dados oficiais. Decidi fazer um clipping de notícias. Ao fazer a busca os resultados mais recorrentes eram relativos a abusos em coletivos. Assim como os temas que mais repercutiam. Com os dados em mãos, consegui garantir o prêmio e dar o pontapé de continuidade no projeto.

Como funciona o Nina?

Funciona dentro da lógica da sororidade, mais especificamente a sororidade tecnológica. A intenção é “ampliar a vista”, funciona quase como um apito: quando uma usuária (que pode ser quem sofre ou presencia o assédio) faz a denúncia todas as “ninas” – usuárias do app que estão em um raio próximo recebem a notificação. Ou seja, ele age tanto emergencialmente quanto preventivamente com o mapeamento do ocorrido, horário, trechos e registros fotográficos dos criminosos, por exemplo.

A ideia é fazer uma panela de pressão. Chamar atenção para as áreas de risco. No Nina, a usuária é a extensão do sistema. Conforme ela usa o app, ela o alimenta com suas denúncias.  Com base nas denúncias fazemos o mapeamento das zonas de risco e não aconselhamos nenhuma usuária a ir por aquela rota.

Dá pra mensurar a resposta do público?

Nas redes sociais vimosa aceitação das pessoas antes mesmo do lançamento. É uma mistura de  carência, um revolta, clamor por justiça. Estamos trabalhando bastante para uma melhor desenvoltura do sistema e efetividade da proposta.

O que pode nos contar sobre a ideia para o nome?

O nome foi escolhido em homenagem a uma mulher, negra, feminista que lutou pelos direitos civis norte-americanos, a cantora Nina Simone. Nina Simone sofreu durante sua vida violências desde o racismo a violências de gênero. Seu marido e empresário além de agredi-la também a obrigava a cumprir agendas de shows.

Já cansada da relação, Nina Simone deu uma entrevista dizendo que: “Liberdade, para mim é isto, não ter medo”. A frase ficou marcada em mim e agora é nosso slogan.

Quais próximos passos?

A fase de testes aconteceu nas linhas de transporte coletivo que circulam na Cidade Universitário da UFPE. Estamos pegando este recorte universitário, mas ainda só de quem se inscreveu demonstrando vontade de participar desta iniciativa. O segundo passo é abrir para dois outros campos: Universidade Federal Rural de Pernambuco e Instituto Federal de Pernambuco. A terceira fase é ampliar para a região metropolitana de Recife e um passo mais à frente passará pelo Hack Brazil, em que estamos classificados para a primeira fase.

 

Deixe seu comentário: