O que Marcelo Tas pensa sobre o seu admirável mundo novo no Youtube

Tas
Marcelo Tas (Foto: Gabriel Rinaldi)

Conhecido pelo público mais jovem como o “cara” do CQC, programa que fez história na Band, ou pela geração anterior como o capcioso e genial Ernesto Varela, repórter de mentira que entrevistava gente de verdade, botando terror nos políticos nos anos 80, Marcelo Tas é jornalista, autor, diretor de TV, apresentador, influenciador e, agora, Youtuber.

Mas como conciliar e equilibrar todas essas funções, profissões e atividades e conseguir manter seu poder de enjamento com os mais diversos públicos? A resposta poderia ser complexa, mas na verdade é bem mais simples: Tas é craque em conteúdo. E não é só isso. Por trás de suas habilidades como comunicador há quase que uma devoção pelo verbo que mais pratica em sua vida: “ouvir, ouvir e ouvir”, segundo suas próprias palavras nesta entrevista.

O canal do jornalista no Youtube estreou no final de março e promete abordar assuntos complicados com uma linguagem fácil e divertida. “Percebi que eu sempre fui uma espécie de Youtuber à lenha, mas agora a brincadeira é para valer”, explicou. No papo abaixo ele fala não apenas sobre o novo projeto como as diferenças entre produzir para TV e internet, além de sua visão sobre o cenário atual da comunição.

Você acredita que já tem o domínio da linguagem youtuber ou como comunicador experiente tem expertise para trabalhar com qualquer formato?

O Youtube é um laboratório vivo. Não há regra ou receita pronta para se comunicar na plataforma. E isso é muito estimulante. Nas várias mídias onde atuo, sempre gostei de explorar os limites da linguagem. Agora, a brincadeira é bem diferente da época da TV sem internet quando o público não era facilmente rastreável por pesquisas que sabiam o que ele tinha assistido na TV ou lido nos jornais.

Hoje, podemos saber melhor se o consumidor recebe o conteúdo no carro, na aula, enquanto aguarda o prato ser servido no restaurante... Pelas novas métricas, podemos até rastrear seu comportamento, se ele está com pressa ou com todo o tempo do mundo. Temos também uma única certeza: a concorrência pela atenção é cruel. Falo dos algoritmos de machine learning que sugerem conteúdo o tempo todo competindo com a notificação de comentário da crush no Facebook ou o alerta que o seu ídolo da música está transmitindo um ensaio direto da casa dele ao vivo.

A linguagem para redes está em constante evolução e reavaliação. Para cada canal no Youtube, há um comportamento do usuário, um perfil sócio demográfico, um padrão de consumo da informação diferente. Por isso, a própria rede, pela leitura dos dados e dos engajamentos vão nos ensinando a linguagem que melhor comunica com o público. Para entender tudo isso, conto com a parceria da Endemol, que me ajuda a interpretar todos esses dados.

Ou seja, vivemos uma era muito estimulante para quem trabalha com comunicação. E o melhor de tudo é que nada adianta tudo isso se eu não souber contar bem a história. Isso eu pratico há trinta anos e espero continuar aprendendo nesta nova fase.

 

Tem acompanhado de perto esse universo dos youtubers? Qual youtuber brasileiro mais te impressiona pela capacidade de engajamento?

Os Youtubers chegaram primeiro a mim através dos meus filhos. Em casa, Jovem Nerd, Joutjout, LubaTV, Cellbit, Leon e Nilce... Essa turma passou a fazer parte do assunto no café da manhã. Tento diversificar meu consumo de vídeos e canais. De blogueiras de moda a fazendeiros que explicam como plantar abacate, a diversidade de tópicos é encantadora, apesar de beirar o caos pelo excesso. Meu desafio diário é equilibrar o consumo de conteúdos sugeridos pelos algoritmos e ao mesmo tempo fugir da minha própria bolha. Atualmente, estou interessado em canais que têm conteúdo educativo na veia, como o Nerdologia e Manual do Mundo. Admiro a forma como o Átila e o Iberê geram engajamento mais pelo conteúdo que pela persona virtual deles. Impressiona-me a diversidade de youtubers e como eles são segmentados por clusters específicos que influenciam grupos super nichados. É fascinante ver legiões virtuais guiadas mais por interesses comuns que pelo influenciador propriamente dito. A descentralização de uma voz única é algo fascinante nessa nova era.

Qual é a maior dificuldade de sair da televisão e ir para o Youtube? Quais são as diferenças?

A comunicação em rede produz uma renovação constante a cada publicação. A diferença principal em relação à TV é que posso ouvir e ser influenciado pelo meu espectador o tempo todo. Há uma tremenda liberdade para puxar o freio de mão e mudar o rumo sempre que necessário.

Qual público você pretende atingir? Qual a estratégia para engajar esse público?

Estou buscando o sentido contrário. Em vez de definir o público, estou descobrindo quem é o meu público. Minha jornada neste início é de ouvir e observar muito mais do que ser arbitrário. Mas há um fator comum que espero da minha audiência: interesse por conteúdo de qualidade na mistura Educação + Diversão. Percebo um vácuo nesse tipo de conteúdo e um imenso interesse.

Como você acompanhou toda essa transição da comunicação dos meios tradicionais para os meios digitais?

Tive contato precoce com a revolução digital. Era bolsista de TV e cinema em Nova York, no final dos anos 80, e acabei participando de uma das primeiras turmas do curso de multimídia da NYU- New York University.  

Procuro acompanhar a evolução das coisas vivendo intensamente o agora. Sem temer projeções futuristas, nem me apegando ao passado. É importante me manter aberto para o aprendizado e ouvir. Este é o verbo que mais pratico: ouvir, ouvir e ouvir.

De que maneira o canal pensa em desenvolver projetos de conteúdo junto com possíveis marcas anunciantes?

Quero estar na companhia de marcas que desejam levar informação de qualidade sem ter medo do consumidor consciente e ativo do outro lado. O público bem informado sabe avaliar critérios de compra e também tem a capacidade de espalhamento de sua decisão. Empresas que confiam em seus produtos são mais abertas em apoiar conteúdos com qualidade de apuração e narrativa. A publicidade já está se movimentando nessa direção. E vai precisar ainda se transformar com agilidade porque o consumidor do outro lado sofreu uma transformação total. Pode parecer utópico dizer que conteúdo de qualidade é a alma do negócio. Mas já é uma realidade, inclusive entre os meus primeiros parceiros: a Udacity- Universidade do Vale do Silício que acaba de chegar ao Brasil; e a SEMESP- o Sindicato das Mantenedoras do Ensino Superior. 

Deixe seu comentário: