Será que existe um psicopata corporativo em sua agência?

Psicopata

Eles são impulsivos, agressivos e manipuladores. Além disso, são destemidos, o que é visto como algo positivo para vencer os desafios dentro das empresas. Estão entre nós, bem perto, na mesa ao lado. E destroem vidas. Já ouviu falar de psicopatas corporativos? Este é o tema do mais novo livro escrito pela empresária e escritora Amalia Sina. Com a visão aguçada de quem construiu uma sólida jornada profissional, passando pela presidência da Philips Morris do Brasil, da Walita, entre outras coisas, incluindo uma pós-graduação em gestão no Triton College, nos Estados Unidos, Amalia traça um perfil deste profissional em "Psicopata Corporativo: identifique-o e lide com ele" (Editora Évora). Na entrevista a seguir, ela conta de que forma a maneira como as agências de propaganda trabalham pode ser um campo fértil para a proliferação deste sujeito. Confira:

O que é o psicopata corporativo?

São seres com alto poder de sedução e grande capacidade para manipular. Podem parecer pessoas comuns e até encantadoras, mas são doentes, de corpo e alma. Pessoas sem piedade, sem respeito e misericórdia pelos demais. Não conseguem se colocar no lugar do outro e, portanto, não se arrependem do mal que sempre causam dentro das empresas. Assim são descritas algumas das inúmeras características do psicopata, que pode estar (e, em geral, está) entre as pessoas de nosso convívio.  Este tipo de gente é vista como capaz de superar desafios e atender com maestria às necessidades dos clientes. Mas trata-se de pura encenação. O que querem na verdade é seu próprio benefício às custas do outro. Não raramente, sua atitude prejudica não somente as pessoas, mas também os negócios. É uma doença, um cancro dentro das organizações, e no segmento de comunicação não é diferente.

Por meio da sua experiência, o que é possível dizer sobre a sua atuação e presença de psicopatas corporativos no mercado de comunicação, sobretudo nas agências, que apesar de muitas vezes refletirem ambientes bonitos e confortáveis, contam com profissionais que todos os dias sofrem as mais pesadas pressões por prazos e produção?

O mercado publicitário, de comunicação em geral, é uma área na qual se lida com questões práticas, mas principalmente intangíveis. Ou seja, onde existe o conceito de criatividade, arte e interpretação destes conceitos, sempre haverá muita discordância. Em adição, dentro do organograma formal ou informal de uma agência há costumeiramente aquela área que se sobrepõe a outra e que abusa de seu destaque. Por exemplo, a área de criação sobre a de atendimento ao cliente. Isto é assim, sempre foi e não creio que irá mudar.  Sendo assim, na minha visão, este segmento é regado a ego. As pessoas parecem se sentir artistas e não pessoas de negócios que erram e acertam. Nem tudo que é arte se aplica aos negócios e vice-versa. Trabalhar dentro de uma agência é um grande desafio, não apenas por conta do excesso de demanda, necessidade de inovar e criar a cada instante, mas principalmente pelo ambiente predador e competitivo. Não que outros ambientes não sejam, mas as agências são extremamente marcantes neste quesito. Há casos clássicos e públicos de profissionais de criação que, aos berros, adentram os departamentos, em fúria insana, deixando todos assustados e paralisados. Difícil não viver com medo destes psicopatas.

Então o ambiente das agências contribui para o surgimento deste ser inóspito?

Uma agência depende basicamente de gente, a maior parte de seu custo vem de remuneração, e, portanto, o profissional muita vezes é execrado quando não entrega resultados. Veja, não estou dizendo que em outros segmentos de negócios os resultados não sejam o foco, mas a forma como se expõe as feridas é diferente. Temos visto programas de TV como reality shows de culinária que se orgulham de mostrar o assédio e o desrespeito pelos profissionais pelo simples fato de que não estão dentro dos padrões de exigência e percepção do chef. E o povo aplaude como se ver a humilhação do outro fosse um espetáculo. Eu vejo como uma ação meio bárbara. Esse é o novo mundo que está em voga.

Tanta austeridade contrasta com o ambiente das agências? 

Sim, os ambientes das agências são bonitos, agradáveis de se ver, mas escondem de maneira hipócrita uma arrogância ímpar. Que as agências não se enganem: o cliente, e também o mercado geral, percebem isso. Existe exceção? É óbvio que tem. Em todo segmento tem, mas não é o foco desta entrevista. Aqui falo da psicopatia, do profissional, que porque é doente e do mal, usa o outro em benefício próprio. Muitas vezes comete assédio moral de maneira grotesca. Há profissionais incríveis e seres humanos cheios de benevolência e competência, mas, de novo, não são o foco neste texto. Outras áreas dentro da agência também vivem conflitos, mas escolhi detalhar como exemplo, a mais clássica, criação e atendimento.  

A pressão por prazos e produção é o grande argumento para as ações de um psicopata corporativo?

Não é só pressão por prazos e produção que levam as pessoas das agências a se sentirem oprimidas e amedrontadas. É, principalmente, o fato de que são julgadas pelo seu trabalho dia e noite e, muitas vezes, em questões abstratas: “não gostei”, “não é por aí” “não está no briefing”. Em adição, não raro o diretor de criação tem “over reaction” porque o cliente mudou um detalhe de sua campanha e neste momento, a culpa é do atendimento que não soube “vender”. Esta é a conclusão dentro da agência. Mais uma vez, nem todas são assim, mas esta é a visão que se tem de dentro e de fora de uma agência. Já vivi em uma delas, e depois disso me tornei talvez mais humana por não querer ver e viver histórias de horror novamente.

No mundo da propaganda... Este é um mal que pode ser ainda mais devastador, já que a pressão e a insegurança podem bloquear a criatividade?

Este é um excelente ponto! Algumas matérias dão conta de que não é porque o ambiente é descontraído, que o sujeito pode ir de tênis e calça jeans rasgada e se sentar em puffs jogados no chão, que ele será mais criativo. Muita criação vem de muitas horas de trabalho em situação mais formal e tradicional. Surgiu, então, uma nova tendência que apresenta o novo modelo de empresa na qual as pessoas são remuneradas para superar o outro como predadores. Para mostrarem seu trabalho, em geral, é de forma individual e não em equipe. Não dá ainda para julgar se isto é um progresso. Na minha opinião trata-se de  um pêndulo, que vai, mas volta. E, por fim, o processo criativo baseado na tortura e no medo de não conseguir a própria superação e a do outro gera doenças psicológicas e um ambiente hostil. Um ambiente com estes ares é onde se prolifera o aparecimento do psicopata. Ele, como tem facilidade para trafegar entre os escombros, irá se destacar e continuar a opressão. Isso não tem fim. A não ser que se identifique o psicopata e se aprenda a lidar com ele, desmascarando-o. É disto que se trata meu livro. Considero minha obra, O Psicopata Corporativo, uma prestação de serviço a todo aquele que vive sob a sombra destes seres.

Quais as outras observações que você tem a respeito do tema e que guardem alguma sinergia com o mercado de comunicação?

O tempo vem trazendo à tona estas questões e o discurso de governança corporativa dentro das empresas de comunicação. Não porque é realmente algo genuíno, mas porque é exigência das leis e do mercado. Transparência é o nome do novo jogo. Em adição, as pessoas, agora mais bem informadas, não estão dispostas a se acostumar com as dores da opressão. O caminho que se vê é que, por conta da nova geração e da “juniorização” das agências em detrimento a senioridade dos altos salários, o tempo de permanência das pessoas dentro das agências diminuiu. Os jovens querem movimentos rápidos em suas carreiras e não tem paciência e nem perfil para “aguentar desaforo”. Se por um lado isso é bom, por outro se perde continuidade de trabalho e história, dentro da agência e do cliente. Espero que venham novos tempos, pois a pressão do mercado exige gente do bem que saiba dirigir negócios e liderar e inspirar pessoas.

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