Violência contra a mulher é tema de aplicativo? Para o "Mete a Colher" é sim

mete a colher

De acordo com o Relógios da Violência, feito pelo Instituto Maria da Penha, a cada 2 segundos uma mulher é vítima de violência verbal ou física no Brasil. Além disso, enquanto no recorte de mulheres brancas este número caiu nas últimas décadas, a quantidade de mulheres negras mortas por crimes de feminicídio aumentou mais de 50% em dez anos. Este ambiente demanda que o tema deva ser trabalhado, esclarecido e combatido o ano inteiro, não só em períodos específicos e esta matéria é exatamente sobre isso.

Em 2016, Renata Albertim participou de uma edição do Startup Weekend, workshop de empreendedorismo digital em Recife. O evento foi o ponto de princípio para que Renata criasse uma página no Facebook. O intuito? Escutar relatos de vítimas de algum tipo de abuso.

Este primeiro passo gerou muitas respostas na internet, tanto que as mensagens deixadas mostraram a importância em discutir o assunto e a necessidade de dar apoio àquelas que precisam. Foi assim que surgiu o “Mete a Colher”, uma rede de apoio o que ajuda mulheres a sair de relacionamentos abusivos e enfrentar a violência doméstica.  O app, que é acessível apenas a mulheres, funciona atualmente em duas frentes: uma rede colaborativa, onde as vítimas podem contar seus relatos, trocarem informações e experiências, e outra que garante suporte legal e psicológico ofertado por mulheres voluntárias.

Por sua vez, a interface oferece três opções para mulheres que se cadastrarem, voluntariamente, para colaborar: apoio emocional, ajuda jurídica e oportunidades de trabalho. Além disso, a página do Facebook é recheada de conteúdos que permeiam o tema, como providências políciais diante deste tipo de violência, esclarecimento de leis, etc.

Conversamos com Renata para conhecer melhor o aplicativo. O material completo está abaixo, veja só:

- Depois da criação do app, quais foram os resultados enxergados em curto prazo?

O início foi super importante para a gente começar entender algumas características do relacionamento abusivo, qual a melhor forma de criar uma diálogo online com a mulher que precisa de ajuda, como incentivar outras mulheres a ajudar. Enfim, foi um processo de reconhecimento de território somado a um processo de tentar traduzir essa interação e separar por categorias os pedidos de ajuda para incluir tudo em um app. Como ficamos mais de um ano atuando sem app funcionando, apenas nas redes sociais, o resultado não foi diferente do que esperávamos. 

- Encontraram dificuldade em alguma parte do processo?

Sim, sempre há dificuldades. Primeiro a gente queria ser um app de denúncia, mas como o sistema de denúncia de violência contra a mulher falha algumas vezes, ficamos com receio de frustrar nossa usuária do app. E, por outro lado, passamos a compreender que criar uma rede de apoio é tão importante quanto o processo de uma denúncia, que por ser difícil e doloroso, exige que a mulher em situação de vítima esteja forte para seguir em frente. Esse apoio de outra mulher é fundamental, a vítima passa a ter mais força porque sabe que não está sozinha. 

- Não achei o app disponível para iOS, pq? Tem previsão?

Até então só disponibilizamos o app para Android. Mas no segundo semestre esperamos lançar a plataforma iOS.

- Já viram outros projetos do tipo?

Sim, claro. Tem o Mapa do Acolhimento, da rede Nossas, que ajuda mulheres vítimas de violência, tem também o Tamo Juntas, rede de advogadas que criaram um canal no WhatsApp para orientar mulheres vítimas de violência. Outro que indicamos muitas vezes é o Instituto Mana. Enfim, a internet hoje está se apresentando como um terreno que contribui para esse tipo de projetos ganharem espaço estimulando sempre a ideia de sororidade, união e empatia entre mulheres.

- Falando sobre futuro, quais os próximos passos?

No segundo semestre está nos nossos planos lançar a versão 2.0 do app nas plataformas Android e iOS. Nessa nova versão a categoria que vai sofrer mais ajustes é a "oportunidades de trabalho". Queremos estimular empresas a oferecer vagas de emprego para as mulheres que estão ou foram vítimas de violência doméstica.

Isso é bom para a mulher que precisa buscar sua independência financeira e se livrar da dependência econômica do companheiro, além de estimular a inserção de mulheres no mercado de trabalho, visto que é mais que necessário as empresas implantarem ou ao menos refletirem sobre políticas de equidade de gênero no seu corpo de colaboradores e colaboradoras. 

Desde fevereiro de 2017, o projeto está embarcado no Porto Digital, pólo de tecnologia e inovação em Recife - PE, como startup incubada. O time é todo formado por mulheres com conhecimentos complementares (2 designers, 2 desenvolvedoras, 1 jornalista e 1 publicitária - Aline Silveira, Carolina Cani, Lhaís Rodrigues, Mariana Albuquerque, Renata Albertim e Thaísa Queiroz) e tem como principal objetivo utilizar a estrutura e as amplas oportunidades de mentorias e networking para impulsionar o projeto e transformá-lo em um negócio financeiramente sustentável.

E aí, quem mesmo disse que em briga de marido e mulher não se mete a colher?

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