O texto opinativo dá ao autor, jornalista ou não, a liberdade de manifestar os seus pontos de vista e até mesmo de dar vazão às premissas ideológicas que orientam o seu pensamento. Respeitados os fatos, isso é louvável. Em um espaço de opinião, cabe ao autor, ao analisar e aprofundar o noticiário, expressar exatamente o que pensa a respeito de determinado assunto, concorde-se com ele ou não. E é natural que os argumentos contidos no texto sejam construídos em cima de fatos e de um determinado conjunto de ideias, valores. No caso, o filtro é realizado pelo público. Se o leitor não gosta, por exemplo, da análise política feita por determinado pensador tido como conservador, ao passo que admira o texto de um pensador intitulado progressista, ele fará a sua escolha. A divergência de opiniões é legítima e necessária.

 
É diferente de um texto jornalístico de uma reportagem, como já abordado neste Observatório da Imprensa(ver “A importância da independência do repórter”) Reportagem trabalha com fatos, não com ideias do que sejam os fatos, e ali não cabem voos ousados sob qualquer campo da ideologia. Quem assim o faz, sim, incorre em erro. No entanto, enganam-se os que pensam que um artigo de opinião dá ao autor a liberdade de manipular os fatos e os dados para subsidiar determinada ideia ou causa. Até mesmo os articulistas, especializados ou não no tema abordado no texto, precisam tomar cuidado para que a defesa expressa de suas ideias não seja feita em detrimento da realidade, da verdade.
 
Se o autor for um especialista, o cuidado é o ponto de partida porque um especialista em determinado tema está acostumado ao rigor do texto acadêmico. Se for jornalista, então, além do cuidado, ele tem a obrigação, o dever ético de apurar e checar os dados e/ou os fatos que sustentam sua argumentação, respeitando-os, no artigo. Neste caso, independe o fato de a informação apurada contrariar sua corrente ideológica. Se contrariar, ele deve fazer o texto discordando do mérito, mas nunca o modificando. O compromisso da imprensa é com o público, e não com grupos ou correntes doutrinárias. E isso também vale para o colunismo.
 
Independência e ética
 
Nas últimas semanas, sobretudo na internet, jornalistas de correntes políticas díspares têm travado um árduo embate em torno de alguns assuntos. Para citar dois exemplos, o Código Florestal e a recém-instalada CPMI, nos quais, em muitos momentos, a verdade tem saído chamuscada. Sem juízo de valor em cima do que anda sendo discutido na rede: a verdade é derrotada sempre que fatos e dados são manipulados ao bel-prazer do autor, seja ele quem for, pouco importando o veículo para o qual trabalhe, com o objetivo de dar sustentação a uma ideia, a uma corrente ou a uma causa. Se isso em reportagem é criminoso, em artigo, é pobreza intelectual em estado bruto.
 
Assim, se um dado lógico obtido de uma mesma fonte é objeto de artigo em dois veículos, e em um é tratado como verdadeiro, noutro como falso, algum problema há em algum dos tratamentos, é fato. Se um dado é lógico [um inciso do supracitado Código, para exemplificar], não há subjetividade e ele só admite duas possibilidades: verdadeiro ou falso. Pode-se até buscar outro dado [seguindo no exemplo acima, o que diz outro inciso], sob outro ângulo, mas mudar o sentido daquele, nunca. Se o jornalismo opta pelo falso para sustentar uma posição, perde a credibilidade e desrespeita a sua razão de existir: o público.
 
Logo, cabe ao articulista buscar os dados que melhor subsidiem às suas análises. Cabe fazer contrapontos e, inclusive, contestar os dados publicados por terceiros e discordar da interpretação dada a eles. Cabe, até mesmo, discordar deles no mérito. Mas o autor não pode, não deve, e fere a ética quando, em nome de uma causa, distorce fatos. Só existe uma forma de a ideologia não contaminar o trabalho jornalístico, em qualquer área do jornalismo: agir com independência e ética.
 
Manipulação e totalitarismo
 
Se um determinado veículo tem certa orientação política e acha por bem exercê-la em artigos e editoriais, ou até mesmo na escolha sobre o que não fará parte da cobertura, que o faça, mas sempre respeitando a veracidade dos fatos. Ressalte-se que, em tempos de internet, com um pouquinho de trabalho e muita boa vontade, dados são facilmente checados. Entretanto, embora o acesso a informação tenha melhorado, o peso de quem dá a notícia ou faz um comentário ainda é imenso, o que constitui uma imensa irresponsabilidade à defesa aética e acrítica de pontos de vista, segundo certos interesses, distorcendo a realidade e subjugando o interesse público.
 
Que fique claro o seguinte: este artigo não é uma defesa do “em cima do murismo”, com perdão da expressão. É, antes de tudo, uma defesa da ética jornalística. Não há mal algum em dizer que algo está certo ou errado, segundo certa óptica, quando amparado em argumentos sólidos. Só que não existe bom argumento que se sustente em cima de informações distorcidas e inexiste, no mundo, a mentira em nome da “causa do bem”. A coexistência de jornais liberais, conservadores, de direita, de esquerda e até mesmo os fajutos faz parte do jogo democrático, no qual a pluralidade de ideias deve sempre ser um objetivo comum, afinal não há jornalismo sem liberdade de expressão. Leituras divergentes de mundo, política ou qualquer outro assunto propiciam o desenvolvimento de toda a sociedade.
 
Esta crítica é dirigida tão somente à imprensa que, para defender um ideal, uma linha editorial, digamos, o faz sem limites, sem ética e dando valor verdadeiro a uma informação sabidamente falsa, e vice-versa, para que assim sua posição prevaleça. Na democracia, as ideias circulam livres e a defesa de uma posição não precisa ser feita sufocando-se as opiniões contrárias, ainda mais com o uso dos mais lastimáveis subterfúgios.
 
A história da imprensa brasileira está repleta de exemplos do quão maléfico é para um país o binômio manipulação-totalitarismo.
 
Por Marcelo Feitoza é jornalista para o Observatório da Imprensa
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