O uso de hashtags provoca uma transformação sem precedentes no jornalismo. No início dos anos 90, a Rádio Eldorado despertou polêmica com a criação do chamado ouvinte-repórter. Muita gente se manifestou contra, alegando que era questionável entregar ao ouvinte o “direito” da construção de um relato que não foi checado e que ninguém teria como aferir quão verdadeiro era. Parecia um elixir, uma metáfora do que estava por vir com fake news e participação maciça de quem recebe informação nos processos editoriais. Os caminhos da notícia também mudariam, com as empresas revendo aquele conceito que algumas faculdades ainda trabalham de “indústria da informação”. No mundo de hoje, agenda setting, teoria do espelho e indústria da informação são conceitos de aplicação restrita.

Poucos anos depois, fui “repórter aéreo” na Rádio Bandeirantes. Entrava com flashes do trânsito do Pulo do Gato ao final da primeira hora do jornal Bandeirantes Gente. Em casos especiais, passava o dia no helicóptero – quando a Ponte dos Remédios trincou, por exemplo, e as marginais foram interditadas naquele trecho. Um dia, um ouvinte entra no ar, desmente o que eu via, dá uma informação equivocada e ainda me chama de idiota. A minha impressão foi a de que ele não estava naquele lugar e fez um boletim de trânsito de algum local bem distante dali. Isso também incomodava bastante porque a busca pela precisão – e não pela verdade –é um valor essencial no jornalismo.

Continua óbvio entender que toda a dinâmica de uma redação muda com a queda de um avião; muitas pautas caem (com elas, todo o planejamento do dia anterior desmorona também) e boa parte das equipes irão se dedicar exclusivamente a isso, assunto do momento que traz grande comoção, preocupação humana mesmo. Ninguém torceu, em nenhum instante, por uma queda de avião. Nele, há pessoas, histórias, famílias que vão mudar para sempre de um jeito irreversível. Nenhum jornalista quer ver o “circo pegar fogo” a partir de uma tragédia. Mas é preciso admitir que, em meio a uma fatalidade, a informação parece ter mais importância e o radar do interesse público se volta para o trabalho que se faz.

Neste sentido, relembro algumas conversas com o criador do Adnews, Toninho Rosa. O uso de hashtags quebra em parte a lógica do agenda setting. Sim, a imprensa ainda pauta parcialmente as nossas conversas. Mas não mais apenas ela. Quanto uma empresa usa uma hashtag simples como #diadasmaes ou #maeemae, ela propõe e se engaja numa série de debates que já ocorriam com esse tema. E quando uma organização “patrocina” uma hashtag, ela agrega à estratégia de marketing o enredo de um debate que se amplifica e a envolve.

Mas por que a teoria do “espelho” e o agenda setting já não dizem muito sobre o jornalismo de hoje? As respostas são incertas, como os argumentos e a visão que se tem do processo em si, mas perpassam pelo fato de que nós, numa redação qualquer, somos mais pautados pelo público do que pautamos o que é notícia.

Há 10 anos, Rosa era categórico: “você vai ver a televisão perder prestígio, audiência e os celulares vão transformar a nossa vida”, dizia. “Você vai escolher o que assistir, como assistir, quando assistir”, sentenciava. Diante da imensa experiência que ele traz, eu respeitava mas via uma dimensão utópica na “profecia” apresentada – a televisão perder prestígio?, Perder audiência?, As pessoas escolherão o que assistir?. Tudo parecia muito distante, mas hoje é parte da nossa vida. Naquela época, tv aberta e tv a cabo batiam de 67% a 72% das verbas publicitárias. Hoje é difícil ter uma estimativa, já que o Google e o Facebook não informam suas receitas aqui no Brasil – o que também colaborou para a extinção do Projeto Inter-Meios.

Ainda na linha de repensarmos os debates e os conteúdos que levamos para uma sala de aula, chega um momento em que os jornalistas e professores precisam se reinventar. E poderiam começar pela estratégia do presidente eleito em fazer campanha nas redes sociais, com vídeos notadamente amadores, com sombra, etc, tendo menos de 10 segundos no horário eleitoral. Precisamos saber mais sobre métricas, SEO, tendências para saborear o jornalismo desse novo tempo.

Wagner Belmonte é jornalista e professor universitário na Fapcom e na UMC.

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