Como ela mesma diz, Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo. Hoje ela fala sobre o que acontece de mais importante nas telinhas através de seu site TelePadi e também no programa Todo Seu, apresentado por Ronnie Von, na TV Gazeta. Pouquíssimos jornalistas brasileiros acompanharam tão de perto a transformação da televisão aberta no país nos últimos anos. Para entender o real potencial de produção do meio mais poderoso do Brasil, assim como suas principais tendências, nada mais natural que ouvir o que a Padi tem a dizer. Foi o que fizemos. Confira:

Quais são as principais dificuldades para se produzir conteúdo para a TV aberta hoje em dia no Brasil?

A dificuldade, a princípio, é financeira. É claro que você pode ter excelentes produtos com custo baixo, mas, em geral, pensados por profissionais que se ainda não são, logo serão disputados pelo mercado. A MTV Brasil, ainda como canal aberto, tinha ótimas produções de custo baixo, mas, assim que o cara ia ganhando fama com aquilo, logo era levado para outro canal. E aquilo também era um canal aberto mais nichado, não tão feito para a massa, como manda o canal aberto tradicional, mas segmentado na faixa etária mais jovem.

Como é sua visão sobre o modo como os canais têm produzido conteúdo ultimamente?

Acho que estão todos com medo e sem condições de arriscar. Mas isso não é tão diferente do período em que a economia estava muito bem. A TV nasceu bebendo do rádio, usando seus talentos, suas obras e ideias. Depois passou a absorver profissionais de outros campos, inclusive do cinema (autores e atores, principalmente). Nos últimos 15 anos, temos um evidente protagonismo da internet na arte de fornecer ideias e profissionais para a TV. Às vezes funciona, mas nem sempre.

Quais são as principais tendências? Existe um direcionamento claro sobre o que funciona? Qual?

É difícil, mas é preciso ser menos imediatista. As TVs lançam algo hoje esperando que um fenômeno se consume no dia seguinte. Há que se ter paciência para fazer uma ideia e alguém vingar de fato. Ninguém nasceu pronto, nem a própria TV, cujos profissionais foram servindo de cobaias no ar, até começarem a acertar o passo. É preciso ser criativo, a baixo custo, rifar os gastos que não trazem audiência nem agregam valor. A questão é: como chegar a isso? Mas, por exemplo: a Globo gastou muito dinheiro levando equipes imensas para viajar para fora do país para gravar capítulos iniciais de novela, por anos a fio, sem que isso, hoje sabemos, reverta qualquer atrativo extra para a audiência. Aquilo mostrou-se um gasto inútil e tem sido dispensado nas novelas da casa há pelo menos três anos. Em vez de buscar cenários internacionais, é preferível gastar com mais apuro no texto e na direção, na preparação de atores, na criação da história e até em conteúdo extra para a internet, um recurso que tem se mostrado eficiente na captura de um público que vem desistindo de ligar a TV. 

Hoje se fala muito em conteúdo multiplataforma… Como funciona essa divisão do que serve para a TV ou o que serve para outra mídia?

É válido produzir conteúdo para nichos diferentes, mas é preciso notar que boa parte do conteúdo feito para a TV aberta pode ser contemplado pela audiência da TV paga e da web. A mão contrária não existe, ou seja: boa parte do conteúdo feito para web e TV paga não vale para a TV aberta, já que são conteúdos nichados, segmentados, menos destinados a massas. Daí o valor do que é produzido para a TV aberta. 

Como os canais enxergam as novas gerações e as possibilidades de se trabalhar com elas?

Os canais começam a perceber a necessidade de buscar telespectadores em outras telas. As gerações com acesso à banda larga já têm na TV sua segunda ou terceira tela, jamais a primeira. Mas é preciso entregar boas histórias, em qualquer tela. É isso que alimenta e atrai a plateia, muito antes de tecnologia e interatividade. Os canais também têm buscado abrir canais de comunicação com esse público por meios das redes sociais. Mas, de novo, rede social só funciona quando a atração e a história valem a pena.

Em que nível a produção de conteúdo brasileira se encontra atualmente?

Penso que tem um bom nível, ainda com muita inveja da produção americana, inglesa e dinamarquesa. Mas, em termos de América Latina, a produção brasileira para a TV é obra de excelência.

Como enxerga o futuro da produção de conteúdo?

Acho que todos os conteúdos terão ligeiras adaptações para outras plataformas. O que não se pode perder de vista é que contar uma boa história continua sendo a premissa de tudo, do cinema à TV, passando por rádio, web e aplicativos de toda ordem.

 

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