Há 13 anos, a Trip, na forma do movimento Trip Transformadores, criou um antídoto contra a onda de desânimo e a falta de esperança que assola o Brasil. O movimento, que realizou sua segunda edição em outubro de 2018, foi desenvolvido para discutir os melhores caminhos para encarar o desafio de um trabalho corajoso, encurtar distâncias e revelar o que de fato nos une: o nosso denominador comum.

Paulo Lima, fundador da Trip, topou esclarecer para o Adnews sobre todas as ativações, estratégias e funcionamentos do projeto. Confira na íntegra entrevista exclusiva:

Qual é o principal objetivo do Trip Transformadores?

Bom, essa iniciativa surgiu quando a gente estava pensando em como comemorar os 20 anos da Trip, portanto, já faz 13 anos. E aí a gente pensou em várias ideias, coisas que a gente já tinha feito várias vezes: festas, eventos, shows, trazer artistas para fazer show de música e tudo mais, mas achamos que aquilo tudo era muito sem graça e muito aquém do que a comemoração de 20 anos de uma empresa de economia criativa, de cultura, de jornalismo independente merecia.

Então a gente começou a tentar pensar em coisas diferentes. E aí veio essa ideia, que não era exatamente original, já que prêmio ligado à revista existe há séculos. Mas acho que a grande sacada foi olhar pra fora, sabe? Em vez de olhar para o próprio umbigo, de olhar para a gente mesmo e premiar, sei lá, as pessoas mais bacanas, os melhores clientes, os melhores artistas e as pessoas que venderam mais discos, ou que fizeram mais shows, a gente resolveu olhar para dentro da gente e olhar para as nossas causas, para os nossos princípios e valores e olhar para aquilo e tentar enxergar fora da Trip quem eram as pessoas que já tinham enxergado e que defendiam esses mesmo valores muito antes da gente, inclusive.

Então desde 2005 que a Trip publica uma espécie de lista de princípios dela, na própria revista Trip, todo mês. Então a gente olhou pra isso e falou assim: “Bom, deixa eu ver quem entendeu que a melhor coisa do mundo é conseguir diminuir o sofrimento do outro”. E aí a gente logo pensou em um outro valor que é muito importante para a Trip, que é a diversidade.

A diversidade é muito importante e está presente na Trip desde antes de ela existir, no grupo. Esse interesse mesmo, genuíno, pelo diferente, pelo outro. Então a gente procurou gente de todos os tipos, de todos as idades e procedências e ramos de atuação, mas que tivessem em comum isso: essa ideia de enxergar o outro. Que entende que o outro é um pedaço de você e que se não tiver bom para o outro, não vai estar bom para ninguém. E aí a gente foi atrás desde banqueiros que descobriram a importância e o prazer de se investir em educação, até gente que literalmente morava debaixo da ponte, mas que tinha um projeto para ajudar dependente químico – o caso do Garrido, que foi um dos premiados ao longo desses anos.

Então, essa que é a gênese, essa é a ideia: mostrar para o mundo quais são os nossos valores, em que a gente acredita, mas não valorizando a gente mesmo, e sim homenageando essas pessoas que em geral têm muito pouca visibilidade, muito pouco espaço na mídia. Na época em que a gente começou, isso era quase inexistente. Hoje já tem vários espaços dedicados a esses “altruístas”, digamos. Hoje a mídia já entendeu e já tem aberto espaços, mas ainda é muito pouco. Eu acho que essas pessoas ainda ficam debaixo de camadas e camadas de celebridades, de influenciadores, de Neymares e etc., enquanto esses trabalhos fundamentais acabam sendo pouco vistos.

Então a intenção do Trip Transformadores é honrar, homenagear e entregar o que a gente tem de melhor, que é a capacidade de dar visibilidade, de dar aval. De avalizar, de assinar embaixo o trabalho o trabalho desses caras, o que chama atenção da mídia, chama atenção de patrocinadores, de empresários e tal, e muitas vezes muda a história do premiado. Tem muitos homenageados lá cuja a história mudou depois do prêmio. A gente fica muito honrado com isso.

Como foi a modificação desse projeto nos últimos anos?

Olha, eu acho que a essência dele não se alterou. A gente continua procurando a diversidade e procurando essas pessoas que entenderam que quanto mais você puder colocar sua energia em favor do todo, do grupo, olhar o mundo visto do alto, enxergar essa coisa da interdependência entre todos nós, todos os seres vivos, até a natureza e tudo mais, isso continua lá.  Claro que a gente foi aperfeiçoando muito, desde as técnicas de produção, de pesquisa desses nomes…

Hoje a gente tem um núcleo incrível de pesquisa, um arquivo inclusive, desses tipos de profissionais, de pessoas, de figuras. E volta e meia é consultado  por outras empresas. A gente hoje em dia tem feito até trabalhos nessa área. A gente está trabalhando agora, por exemplo, com o Instituto Bem Maior, que é aquela organização do Elie Horn e outros empresários, voltada para fomentar pequenas iniciativas filantrópicas, altruístas e tudo mais. A gente tem feito trabalhos nessa área porque a gente se tornou mesmo uma referência, modéstia à parte, de gente que sabe fazer essa curadoria de figuras especiais que estão aí, mudando o país, mudando a sociedade, as suas comunidades e mudando o mundo.

Então, acho que o que mudou basicamente foi a parte de produção, de processos. A gente aprendeu muito a fazer esse evento, que na verdade não é um evento. A cerimônia de premiação propriamente dita é só uma parte. Uma parte importantíssima, lógico, é como se fosse o clímax do projeto, mas ela é só uma parte. A gente começa com muito trabalho nas redes sociais, divulgando os vencedores, o que eles fazem. A gente faz um documentário sobre cada um deles, são dez mini documentários feitos todo ano. E esse material muitas vezes é o único material que esses caras têm para divulgar. A gente faz outros dois eventos que antecedem a noite de premiação. Um geralmente mais popular, aberto, que tem sido, nos últimos anos, grandes shows de música em parques. Chegamos a fazer show para 20 mil pessoas. Sempre usando esse apelo da música para falar desses valores e para falar dos homenageados, principalmente. Para mostrá-los e exibi-los e apresentá-los. E tem um outro evento também, que costuma ser o primeiro da série, que é com um objetivo de refletir sobre essas causas e sobre essas ações, para que através da reflexão, do conteúdo que depois é espalhado pelo digital, pelo impresso, programa de rádio, por todos os meios que a gente tem. E assim a gente possa gerar reflexão sobre o que vale a pena mesmo na vida, repensar as coisas que a gente considera importantes. Essa é a intenção também de todo o projeto do Trip Transformadores.

Qual é a importância para as marcas em participar da ação?

Eu sou suspeito, né? Mas acho que as marcas conseguem não só ter as suas imagens atreladas a gente muito incrível (é quase impossível você assistir uma cerimônia do Trip Transformadores e não sair totalmente tocado; muitas vezes até abalado). Então as marcas que estão lá ganham uma nobreza; de certa maneira, elas transferem para si mesmas uma parte da nobreza desses homenageados. Mas mais do que isso, elas ganham cultura sobre esse assunto. A gente já viu coisas incríveis acontecerem com os patrocinadores. Os patrocinadores começarem a interagir com os homenageados e criarem projetos novos. Isso aconteceu várias vezes. Por exemplo, o presidente de empresa de montadora de automóvel ir visitar um dos homenageados numa favela no Rio de Janeiro. Sabe, as coisas são mágicas ali. Então as marcas ganham não só na parte mais evidente, que é essa exposição num ambiente muito bacana, muito nobre, muito prestigiado, mas também, e principalmente, elas aprendem a rever seus valores, suas crenças e tudo mais, torná-las mais contemporâneas, inclusive. Tem muita empresa que não está entendendo as mudanças do mundo, não está conseguindo pescar o que está acontecendo. Eu acho que esse evento dá uma chacoalhada em todo mundo, em nós mesmos, nos homenageados e também nos patrocinadores, o que é muito saudável. Costumamos ter patrocinadores que ficam por muitos anos conosco. O Boticário deve estar há mais de nove anos, por exemplo. Além de vários outros, como a AlmapBBDO. Eu acho que a Almap está desde o segundo ano com a gente. As pessoas pensam que é uma permuta, que eles dão anúncio, mas não é nada disso. Eles pagam todo ano um valor para estar lá com a gente, para apoiar a iniciativa para que ela continue acontecendo. A GOL Linhas Aéreas Inteligentes também é um dos vários patrocinadores que estão com a gente há muitos anos. É muito legal, as marcas gostam, tem benefícios, e elas se tornam mais contemporâneas, como eu falei. Conseguem entender melhor as mudanças do mundo e o que as pessoas estão pensando de verdade.

Quais ativações foram realizadas para promover o projeto? Existem métodos específicos para atingir empresas específicas?

Olha, temos sim uma série de coisas. Por exemplo, anunciamos em rádios que são ouvidas por decisores , como a Eldorado, que é uma rádio parceira nossa. Fazemos o trabalho de divulgação do prêmio com ela. Temos um trabalho de corpo a corpo muito sério, vamos pessoalmente em algumas empresas e agências para explicar o projeto. Temos o digital, nossas redes sociais são muito fortes, o próprio Trip Transformadores tem suas redes, inclusive. A Trip e a Tpm têm hoje milhões de pessoas conectadas a elas. Então tem uma série de coisas que fazemos. Mas eu acho que o mais forte mesmo é que as pessoas vão ao evento e sentem uma vibração que é muito diferente de qualquer evento que você vá, de lançamento de produtos, de ações de marketing, sabe. Ele não tem nada a ver com essa coisa de compra e venda, está totalmente fora dessa coisa de consumo, tem a ver com outros departamentos da nossa existência. Acho que é isso que comove e move as pessoas, inclusive os patrocinadores. É bem frequente que um empresário ou algum decisor  vá um evento e saia de lá e procure a gente, querendo estar junto. Isso é muito legal. Acho que a melhor estratégia é essa.

Como uma marca pode participar do Trip Transformadores?

Ela pode participar de várias maneiras. O interessante é que a gente cria trabalhos. Uma das coisas mais legais desse projeto é que ele cria um ambiente em que faz sentido as marcas falarem das suas ações. Tem muita marca que faz um monte de coisas bacanas, sob o ponto de vista social e ambiental, mas tem um pouco de vergonha de falar, não encontra o lugar em que isso não pareça uma autopromoção. E esse ambiente do Trip Transformadores é completamente perfeito para isso.  Uma marca dizer: “Olha, eu estou fazendo isso, eu acredito nessas causas, eu quero estar nesse clube, eu faço parte disso aqui. Olha o que eu estou fazendo, olha como eu trato meus clientes e meus colaboradores, as pessoas que estão em volta da minha empresa”. É um ambiente muito legal. Não vendemos placas no evento, vendemos a interação dessas marcas no evento, o que é muito forte. Criamos conteúdos para elas, vídeos, as ajudamos a contar histórias e expressar como enxergam o mundo de uma perspectiva que não seja só mercantil, do tipo “veja o que eu tenho para vender”, mas de uma perspectiva de estar junto, de fazer parte desse barco e de levá-lo para um lugar melhor. Assim, as marcas que pensam e sentem isso encontram um ambiente muito legal, e não só pelo acolhimento, mas também pelo fato de que a gente sabe fazer conteúdo para marcas, né? A gente faz isso há muito tempo, e as ajudamos a participar desse projeto da forma mais encaixada e pertinente possível. Vira uma relação legal e que muitas vezes dura décadas, como já mencionei alguns exemplos. Teria até outros para citar, aliás, que estão com a gente desde o começo e não abrem mão . O presidente fundador d’O Boticário disse uma vez no palco, que enquanto ele estiver à frente da empresa, ela vai continuar nesse projeto. Felizmente, isso acontece e tem acontecido. Ele falou isso há muitos anos, e eles continuam lá. E é uma honra para nós ter O Boticário com a gente.  

A Trip planeja outros projetos com o mesmo objetivo?

Sim, temos alguns projetos, uns que eu não posso contar, que são sacadas ligadas ao mundo coorporativo. Outras que já estão aí, como a Casa Tpm, que de alguma maneira tem o mesmo tronco; ela é um outro braço do mesmo tronco. A Casa Tpm tem como objetivo pensar, melhorar o mundo e juntar as pessoas que pensam dessa forma, mas com um ângulo direcionado para a relação do mundo, do Brasil, em especial com as mulheres; a forma que a sociedade brasileira lida com as mulheres. Esse é um projeto bacana, muito vencedor, já são oito anos de Casa Tpm. Agora, está dando tão certo que a gente passou a fazer duas vezes por ano, em vez de uma só. Antes acontecia só no inverno, no meio do ano. E agora estamos fazendo uma edição de verão, como a que rolou agora no Theatro Municipal. Foi demais, foi lindo, dois dias no Theatro Municipal no primeiro semestre. A data da segunda edição ainda vai ser divulgada. Dobramos a potência da Casa Tpm porque ela dá muito certo, atrai muitas marcas bacanas e tem um processo de ativação incrível. São dois dias muito gostosos, muito densos, muito ricos. Este ano tivemos Fabio Porchat e um monte de gente bacana, famosas ou não, discutindo com profundidade e, ao mesmo tempo, com leveza as questões do universo feminino que hoje estão sendo tão faladas, mas que eram basicamente ignoradas na época em que começamos a tratar delas.  

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