Em 2018, o monumental castelo das empresas de tecnologia começou a ruir em suas bases. Firmas que cresceram vertiginosamente nos últimos vinte anos chegaram claramente ao pico de sua capacidade, depois de se tornarem corporações transnacionais multibilionárias que impactam a vida da maioria das pessoas no planeta.

O Facebook e suas marcas auxiliares (WhatsApp, Instagram), o Google, a Apple, a Amazon, a Microsoft e similares avançaram vorazmente no mercado de informações digitais, conquistando todos os territórios possíveis dessa nova fronteira e aniquilando todas as empresas tradicionais no setor de mídia e informações.

O termo “disruption” não se traduz adequadamente para a palavra “disrupção” em português – definida como “interrupção do curso normal de um processo”. Ao longo de duas décadas, as empresas de tecnologia “interromperam o curso natural” de inúmeros processos. Todas as formas de relacionamentos comerciais, todas as transações entre vendedores e compradores, foram afetadas pela era digital e por esse seleto grupo de empresas pioneiras.

Nos seus primórdios, a era digital era grande, pesada e cara. Nas décadas de 1960 e 70, somente grandes grupos empresariais podiam comprar os caríssimos computadores – máquinas imensas e de manutenção complexa. A partir dos anos 1980, os computadores foram se tornando cada vez mais leves e baratos, e surgiram os “meninos gênios de garagem”, como Bill Gates e Steve Jobs. Costurando ideias e projetos furtados de (muitos) terceiros, Gates e Jobs criaram modelos de computadores de baixo custo e fáceis de usar.

A Microsoft de Bill Gates se tornou dominante nos escritórios e lares do mundo na era pré-internet. Mas Bill cometeu o erro de achar que a internet seria apenas uma diversão secundária no mundo da computação doméstica, e perdeu o bonde da história (já era o homem mais rico do mundo na época). A internet chegou para todos em meados dos anos 1990, e nada foi como antes.

Os cinco anos seguintes foram loucos, chegando ao ápice frenético na virada do milênio. Fortunas imensas se fizeram da noite para o dia, seguidas por falências espetaculares. A pequena rede privada America Online (AOL) se tornou tão poderosa que comprou o grupo Time Warner em janeiro de 2000 por assombrosos US$ 162 bilhões (US$ 237,5 bilhões em valores de 2018). Centenas, milhares de empresas surgiam, brilhavam por algum tempo e se apagavam como fósforos. Os investidores confusos compravam ações de tudo que tivesse “internet” no nome, e muitos perdiam até as calças.

Esse período inicial foi o Neolítico digital. Uma grande expansão seguida por uma grande extinção. Isso nivelou o terreno, e a leis de Darwin se aplicam à perfeição. Depois desse Neolítico, deixaram de existir as empresas de “vaporware”, feitas de promessas sem qualquer substância. E os investidores haviam aprendido a principal lição sobre esse negócio: colocar dinheiro em empresas digitais que geram dinheiro (ou que têm o potencial de gerar dinheiro).

Os sucessores de Bill Gates chegaram como os velociraptores da economia digital. Dos primeiros sites de busca, tão toscos e limitados, surgiram o Altavista, o Yahoo e finalmente o Google. Em 1998, o mundo mudou de eixo pela primeira vez por conta de um algoritmo. Localizar, catalogar e indexar o conteúdo da internet fez brotar a primeira mina de diamantes da era digital.

Organizar o conteúdo da internet foi o “Abre-te Sésamo” da nova onda de prosperidade. Se existiam sites que achavam qualquer coisa na rede mundial, se tornava obrigatório ESTAR na internet para ser “achado” por clientes, anunciantes, assinantes. Todo mundo, TODO MUNDO, tinha de ter uma página na World Wide Web e um endereço de email.

Com o Google, essa organização de informações deu origem a milhares de novas empresas, em inúmeras categorias de serviços. A mídia tradicional (televisão, rádio e especialmente a mídia impressa) começou a sentir o baque de um novo concorrente, um leviatã cada vez maior e irresistível. A maioria das empresas de mídia passou anos em negação, cometendo o mesmo erro de Bill Gates (mas com muito menos dinheiro no bolso). E mesmo os pioneiros, que viram o valor da internet como meio de comunicação, foram atraídos e sugados pela internet. A circulação dos jornais despencou e continua em queda, milhares de publicações foram fechadas, grupos editoriais um dia dominantes trocaram de mãos muitas vezes, por valores cada vez menores.

Negócios que eram antes exclusivos de grandes grupos passaram a ser absorvidos por empresas digitais infinitamente menores, porém ágeis e muito ambiciosas.

E o segundo grande golpe foi a eclosão das redes sociais. Desde sua concepção como rede científica e acadêmica, a internet sempre foi um espaço gregário, de encontros e debates. Na web surgiram os sites de comunidades como o Geocities, os primeiros blogs rudimentares, até chegar a fenômenos como o Orkut e o Facebook (e sites similares na Ásia). A vocação da internet é reunir pessoas em torno de interesses e afinidades.

Com as redes sociais, os algoritmos se tornaram os protagonistas. Organizar o conteúdo da internet era lucrativo, mas organizar dados pessoais de usuários e vender para anunciantes era infinitamente mais lucrativo.

As Cinco Grandes de hoje (Google, Facebook, Apple, Amazon e, vá lá, Microsoft) concentram um volume de capital capaz de empalidecer toda a abundância da Revolução Industrial. Todas as fortunas dos séculos 19 e 20 são meros trocados em comparação com empresas que valem cada cerca de US$ 1 trilhão ou mais – o PIB de dezenas de países juntos.

Os economistas de séculos passados não podiam sonhar com empresas tão ricas, mas sabiam perfeitamente que tanta concentração de capital fatalmente cria distorções sociais e políticas, com efeitos imprevisíveis e muitas vezes catastróficos.

Chegamos a 2018 com a concretização contundente dessas leis econômicas. Tanto dinheiro, tanto poder e tantos interesses. A empresa criada para ser um catálogo de alunos da universidade de Harvard (poderia ter se tornado um simples site de namoro) se tornou tão poderosa a ponto de causar interferência nas eleições de diversos países.

Ainda é cedo para afirmar, mas o Facebook pode estar no fim. Talvez não da empresa e sua marca, mas de seu modelo de negócios. Uma série de escândalos inacreditáveis abalou muito a confiança dos usuários, anunciantes e investidores. A maior rede social do mundo, com 2,27 bilhões de usuários ativos, nunca havia sofrido um abalo assim. Os parlamentos de vários países estão pressionando a empresa de Mark Zuckerberg em muitos pontos sensíveis. Querem mais transparência e accountability – coisas que o Facebook jamais oferecerá de bom grado, porque a opacidade e os segredos comerciais são o combustível de seu sucesso. Zuckerberg pode até preferir que o Facebook seja fechado por decreto, para não revelar a fonte real do seu ouro. E ele é o quinto homem mais rico do mundo.

É bem provável que estejamos no início de um novo período na cronologia digital. Em passo velocíssimo, as empresas saíram da infância para a maturidade plena em vinte anos e o mercado acompanhou o passo como pôde.

Com a exposição das táticas com uso de algoritmos por essas grandes empresas, deve ocorrer uma mudança das peças no tabuleiro. Países democráticos vão impor regulamentações e normas cada vez mais estritas sobre o uso de dados pessoais. Países menos democráticos vão tentar usar essas mesmas táticas para ganhos políticos e maior controle social.

E, é claro, existe a China. A China insondável. O país asiático adotou os algoritmos como parte de sua essência administrativa, como ferramenta indispensável para governar e controlar seus quase 1,4 bilhão de habitantes. O Facebook é proibido na China – assim como o Google, o YouTube, o Twitter e até a Wikipedia. Existem versões chinesas de todos esses serviços digitais, todos rigorosamente monitorados pelo Estado. Os algoritmos chineses buscam, localizam, identificam e fazem anotações sobre os cidadãos chineses. Até 2020, serão 650 milhões de câmeras espalhadas pelas metrópoles da China, vigiando as ruas apinhadas com softwares de reconhecimento facial.

Melhor nem falar sobre a Rússia. Ou a Arábia Saudita.

Por Sergio Kulpas, janeiro de 2019.

Deixe seu Comentário

Leia Também

AdInsights

+ Ver mais

A Gillette sabe o que faz. Já Neymar…

por Adinsight por Leonardo Araújo

Especial TV Aberta

+ Ver mais

Como a TV conversa com o Youtube?

por Gabriel Grunewald