Centrado no Humano.

Nesta nova realidade que se constrói a partir do salto tecnológico que a humanidade experiencia hoje – um impacto comparável às transformações da revolução industrial do século XIX e a descoberta da penicilina o SXSW de 2019 trouxe muito mais do que um museu de novidades.

O que vi nas plenárias e keynotes deste ano foi um grande espaço de reflexão sobre novas questões que emergem da nossa relação com essas novas tecnologias.

Não se viu apenas o que a Realidade Virtual ou a Inteligência Artificial são capazes de realizar.

Muito mais que isso, falou-se de como as relações humanas passam a ter papel central na reorganização da sociedade, na política, na nova forma de trabalhar e nas transformações culturais e comportamentais resultantes dessas tecnologias pervasivas que estamos adotando, num cenário de crescente medo e desconfiança.

 

O medo da tecnologia sempre existiu. 

É o que a inovação traz consigo de forma inerente: insegurança, desconfiança e resistência.

A energia elétrica correndo pelas paredes das casas no início do século XX era assustadora, assim como a ideia de falar com alguém que não se estava vendo o rosto através de um telefone. Os supostos “vapores”4 emanados pelas lâmpadas elétricas despertavam tanto terror como o perigo real de ser atropelado na rua por um veículo automotor, a 20 km por hora. Uma chefe de Estado usando vestido curto com os braços expostos e falando com seus súditos de forma coloquial pela televisão também era assustadoramente anticonvencional nos anos 60.

Hoje temos o mesmo medo do oculto e a mesma resistência cultural à transformação, exatamente como há um século.

Ciberinsegurança, privacidade violada, redes sociais e ativismo virtual que colocam em questão a democracia nos dias de hoje. Fake News e propaganda de manipulação, que puxam a reflexão sobre confiabilidade e confiança nos meios e nos discursos que surgem. Presidentes que escrevem de forma controversa em seus Twitters, gerando antagonismo, polaridade e insurgindo o ódio entre compatriotas. Mensagens instantâneas e chats tendo mais penetração e poder de convencimento entre suas audiências do que veículos tradicionais, antes respeitados.

Mas temos também grandes marcas comerciais e empresas privadas ocupando espaços públicos, tomando discursos e obrigações sociais que antes eram atribuídas à responsabilidade dos governos. Bairros e associações se auto-organizando via grupos de chat e redes sociais, de forma independente e em prol do bem coletivo, aproximando pessoas, gerando segurança e pertencimento, engajando-as em causas comuns e abrindo-as para diálogos construtivos.

Temos hoje em mãos dados programáticos e bots, ferramentas capazes de nos destruir enquanto sociedade e tirar a humanidade de nossas relações. Armas matemáticas de destruição. Mas que têm também o poder de nos lançar a Marte e impulsionar nossa evolução e preservação enquanto espécie. Inteligência Artificial é apenas um novo material para trabalharmos e construirmos coisas juntos. A finalidade do uso é dada por nós mesmos dentro de nossas éticas.

 

E como podemos construir confiança? 

As pessoas compartilham o que as fazem se sentir bem. Nós compartilhamos aquilo que toca nossas emoções (boas e ruins). Todos nós temos nossas questões emocionais e elas são exatamente as mesmas debaixo de cada telhado.

Confiança exige colocar em prática a empatia em nossas relações.

O que o outro sente? O que o outro precisa? O que é para o bem de todos?

Por isso o relacionar-se toma papel fundamental numa sociedade que se move para um novo normal mediado por tecnologia. E investir em habilidades relacionais é o grande desafio e o caminho real de transformação. Educação e acesso aqui se mostram essenciais.

Saímos do individual para o coletivo – então a valorizada autonomia precisa dar lugar à interdependência; o conflito precisa ceder espaço à negociação; e a autoconfiança passa a ser substituída pela responsabilidade conjunta. As tais Soft Skills, ou inteligências relacionais – que tornam-se indispensáveis nas novas relações de trabalho, são na verdade habilidades altamente intuitivas e femininas. Todo o resto a tecnologia pode entregar.

Estamos falando de lealdade, autonomia, empatia e transparência. Conversar abertamente, expandir discursos para além da polaridade, chegar a consensos para o bem comum. Colaborar. Ouvir o outro lado. Se é que existe um “outro” lado.

 

Confiança promove descobertas

Todos os dias chamei meu Uber/Lift via aplicativo pelo celular, usando tecnologia, portanto.

Mas as conversas simpáticas e calorosas com os motoristas foram de uma riqueza sem igual e insubstituíveis, justamente por sua imprevisibilidade e pela confiança estabelecida nos 15 a 20 minutos de corrida. Um carro autônomo não teria essa graça.

Do jovem universitário texano que numa fala muito serena cita ‘A República’ de Platão para falar sobre igualdade, liberdade e diversidade democrática; do Etíope e as igrejas monolíticas de Lalibela e o Nepalês com carro cheirando a incenso de massala, ambos imigrantes falando da sua herança cultural que deixaram para trás para viver o american dream; ao improvável “roqueiro-nerd-texano” com uma sensibilidade absurda às transformações sociais e o impacto da evolução tecnológica na história da humanidade, especialmente na evolução das civilizações antigas – tudo conforme ele assiste e aprende pelo Youtube.

Pessoas distintas, em realidades distintas, que observam de fora a movimentação do evento, mas que também estão inseridas e são participantes dos temas atuais de transformação.

Está tudo no ar, Austin é Weird e por isso mesmo, humana.

 

Sobre Marcio Leite

Marcio Leite integra a Globosat há nove anos e anteriormente foi coordenador de Comunicação & Branding. Neste período, fez parte de projetos de inovação guiados por design com os times criativos da Globosat, aplicando metodologia e processos na construção de posicionamento, imagem, discursos e narrativas, identidade e expressão das suas marcas, produtos e serviços. Mestre em Design Gráfico pela UAL (University of The Arts London), é pós-graduado em Linguagens Audiovisuais (Cinema, TV e Vídeo) pela PUC do Paraná e formado em Design Gráfico na FATEA (Faculdades Integradas Teresa D´Ávila).

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