Eu queria ser paga pra ler

Artigo de Fernanda Romano, sócia e diretora de criação da Naked

Não queria ser editora, não queria ser revisora e nem tampouco escrever críticas literárias. Eu queria ser paga pra ler o que eu quisesse.

Se eu fosse paga pra ler, não teria conhecido a Katniss no cinema. Teria sido como foi com Morgana, Lisbeth Salander, Kay Scarpetta, Harry, Hermione, Ron e Voldemort. Teria ficado horas imaginando as histórias como foi com o Vampiro Lestat. Eu pensava obsessivamente nele, me lembro de ponderar sobre a vida de um imortal por horas a fio. Aí, puseram o Tom Cruise para ser o Lestat e eu me desapaixonei. Mas, tudo bem.

Se eu fosse paga pra ler, eu ia poder ficar muito mais tempo sozinha e super bem acompanhada. Eu ia poder trabalhar de qualquer lugar. Ia ler de pé, sentada, deitada. Até de barriga pra cima. Na praia, na cozinha, na sala e até no banheiro. Ainda que seja melhor não; dizem que causa hemorróidas.

Eu ia alternar livros de capa dura e paperback com ler na tela do computador – notícias, textos diversos, tiras da Mafalda – com o meu Kindle de capa cor de rosa. Acho que ia continuar evitando o papel do jornal, mas ia ler mais revistas. Eu ia ler todas as bulas de remédios que eu pudesse. Adoro bula de remédio.

Minha jornada de trabalho seria de 9 às 6, mas eu faria horas extras com prazer. Bulas, a Piauí, o “caderno” de ciência da BBC e quadrinhos seriam guardados para o final do dia e o sábado. Notícias e tudo do Flipboard seriam meu café da manhã. Para descansar eu ia assistir tudo que ponho na fila do Netflix. Minha conta do iTunes ia triplicar.

Acho que eu seria – nas raras ocasiões em que eu não estivesse lendo ou vendo séries – uma daquelas pessoas que causa problemas em jantares e festas pequenas.

O que você faz?

Eu leio.

Tá. Da vida.

Isso. Eu leio.

Você é crítica literária?

Não. Eu leio. Abro o livro, a revista, a bula do remédio. E leio. Leio até onde eu gosto. Se gostar de tudo, leio até o fim, se não, fecho o que for e pego o próximo. Livro. Idealmente.

Pausa pro cara pensar na próxima pergunta.

Mas eu não sou paga pra ler. Portanto, entre outras coisas que eu faço, eu escrevo. Fazia tempo que não dividia, mas talvez possa começar de novo.

PS: Não. Eu (ainda) não sou paga pra escrever.

PS2: Roubei essa ideia de ser paga pra ler do Caio Túlio. Ele disse isso uma vez e eu achei que era o dream job mais bacana do mundo. Depois de astronauta, claro.

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