O trote ou a pegadinha, que na linguagem da internet ganhou a apropriação do termo “troll”, pode ser algo divertido para muita gente. O problema é que essa prática saiu dos quadros de televisão e rádio e invadiu a mídia para “enganar” o jornalismo e criar “virais publicitários” ou mesmo sacanear grandes veículos apenas pelo prazer de “trollar” mesmo.

A propaganda, rápida na capacidade de absorver linguagens e formatos em evidência, gostou da brincadeira e resolveu colocar os criativos para trabalhar nesse aspecto. Não à toa, nesse ano surgiram alguns “virais” de tirar o fôlego e sacudir a cabeça da grande mídia, Chiquinho Scarpa que o diga. O milionário conseguiu uma trollagem mundial com o suposto enterro de sua Bentley e atraiu os holofotes para uma grande campanha de doação de órgãos.  

Parece mesmo que 2013 foi o ano das enganações, mas  a trollagem banalizada traz duas reflexões essenciais. A primeira delas pode se ater a necessidade da mídia em rever os seus processos de apuração, que devem se tornar ainda mais rigorosos ao atestar a veracidade dos fatos, mesmo com a velocidade alucinante da internet. O segundo ponto é o seguinte: será que para a propaganda essa fórmula pode ser perecível? Num dado momento as pessoas não vão se tornar cada vez mais céticas? Vale o debate. Abaixo alguns dos casos mais famosos de 2013:

Chiquinho Scarpa

O mundo caiu sobre a cabeça do empresário Chiquinho Scarpa quando ele anunciou que iria enterrar o seu estimado veículo Bentley Continental, avaliado em aproximadamente R$ 1 milhão. O assunto ganhou inúmeros jornais e até mesmo repercussão internacional. Teve até mesmo canal da TV aberta brasileira “transmitindo” o enterro. Entretanto, com todos os holofotes da mídia em sua direção, Chiquinho Scarpa revelou a verdade: a iniciativa fazia parte de uma ação para promover a doação de órgãos.

''Rejeitada do ABC"

No mês de junho, um vídeo que se espalhou pela internet mostrava uma noiva, que preparou uma grande surpresa para pedir o seu noivo em casamento, mas sofreu uma decepção e foi rejeitada publicamente. O viral foi criado por um restaurante buffet de Santo André (SP), junto com a agência Find Out e foi postado no blog "Morri de Sunga Branca". (Veja aqui)

Tubby – Cid

Depois de muito rebuliço, juiz proibindo, mulheres reclamando, artigos reflexivos publicados em grandes revistas, entre outros tipos de repercussão, os idealizadores do Tubby, aplicativo que supostamente permitiria que homens avaliassem mulheres, revelaram, em vídeo publicado na semana passada, que se tratava de um fake (veja aqui). A tal pegadinha teve como objetivo passar uma mensagem sobre os aspectos sexistas, machistas, heteronormativos e cruéis que um app como o Tubby poderia promover.  Vale lembrar que o blogueiro Mauricio Cid, do Não Salvo, um dos que ajudaram na trollada, já enganou muita gente em outras ocasiões, como quando "matou" o Sr Barriga em um post do Twitter.

Mr Manson e o rei do Camarote

Quem não se lembra da matéria da Vejinha nesse ano sobre “Os 10 mandamentos do Rei do Camarote”? A reportagem era real, mas um expert na arte da trollagem, Mr. Manson, antigo proprietário do site Cocadaboa, fez boa parte da mídia acreditar que o milionário Alexander de Almeida era um personagem para enganar a revista. O Pânico também tentou dar uma de “pai da criança”, mas foi traído pela própria velocidade da internet. Antes da matéria no programa, a própria Veja mostrou provas sobre a veracidade da matéria.

Felipe Neto e o fim da Parafernalha

Na noite da última quarta-feira (4), o ator, comediante e empresário Felipe Neto, um dos maiores nomes brasileiros na produção de conteúdo para internet, postou um vídeo no Youtube anunciando o fim de seu canal Parafernalha (veja aqui).  A notícia foi publicada no Adnews e se espalhou na web. Público e imprensa ficaram atônitos, já que o canal criado por Felipe tem uma legião com 4 milhões de assinantes e mais de 246 milhões de visualizações. Entretanto, em entrevista exclusiva para o Adnews, o próprio Felipe revelou a verdade: o Parafernalha estava apenas se reinventando (veja aqui).

O caso Enem

Aconteceu durante o ENEM 2013. Uma notícia tratava do "atrapalhado" Leonardo Sodré. Provando que não há limites para a brincadeira, o rapaz resolveu postar uma foto de um cartão resposta em seu perfil do Instagram. A imagem que correu a internet brasileira exibia o seguinte comentário do estudante:

O uso das hashtags fora do contexto já era meio suspeito. O problema é que alguns blogs reproduziram a imagem como se fosse verdade. Mais tarde, o garoto utilizou o mesmo perfil para explicar que tudo foi premeditado.  Outras fotos mostravam o próprio MEC respondendo aos usuários na rede social de fotografias, algo que também não é oficial, já que o ministério não possui perfil por lá. Outro caso foi do estudante Flávio Renato de Queiroz, 20, que, aparentemente chegou atrasado para fazer a prova e fez um escândalo nos portões do colégio, atraindo a atenção da imprensa. Na verdade, o rapaz queria chacotear uma universidade rival. 

Por Renato Rogenski 

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