A ativista Negra Angela Davis, deixa tudo “claro” em seu discurso na Flip 2026
A Festa Literária Internacional de Paraty nunca foi apenas um encontro de escritores. Ao longo de sua história, a Flip consolidou um papel talvez ainda mais importante: o de reunir ideias capazes de interpretar o mundo em que vivemos
30.07.2026

Nesta edição, uma das presenças mais aguardadas foi a filósofa e ativista Angela Davis. Em entrevista durante o evento, ela afirmou que "os supremacistas brancos não surgiram agora. Eles apenas saíram do armário". A frase rapidamente ganhou repercussão internacional porque desloca o debate da surpresa para a permanência. O problema, segundo Davis, não é o nascimento de novas formas de intolerância, mas a naturalização de discursos que sempre existiram e que hoje encontram menos constrangimento para se manifestar.
Independentemente da concordância com suas posições políticas, existe uma reflexão que interessa profundamente ao universo da criatividade. Toda sociedade disputa narrativas. E toda narrativa molda imaginários. É justamente nesse ponto que a criatividade deixa de ser apenas ferramenta de mercado para assumir uma dimensão cultural.
Durante muito tempo, a publicidade acreditou que seu papel era apenas vender produtos. Hoje sabemos que ela vende também referências, comportamentos, símbolos e formas de enxergar o outro. Cada campanha escolhe quem aparece na tela, quem fala, quem é protagonista e quem permanece invisível. Cada decisão estética também é uma decisão cultural.
Talvez por isso festivais como a Flip e Cannes Lions, embora pertençam a universos completamente diferentes, dialoguem entre si. Ambos celebram histórias. Ambos entendem que palavras, imagens e ideias são capazes de reorganizar a percepção coletiva. Não é coincidência que grandes transformações sociais quase sempre tenham sido acompanhadas por transformações culturais. Foi assim com a literatura. Foi assim com o cinema. Foi assim com a música. E foi assim com a publicidade.
Campanhas como "Real Beauty", da Dove, "Dream Crazy", da Nike, ou iniciativas brasileiras que ampliaram a presença de profissionais negros, indígenas, pessoas com deficiência e diferentes corpos na comunicação não mudaram o mundo sozinhas. Mas ajudaram a ampliar o repertório visual da sociedade e, consequentemente, a ampliar aquilo que entendemos como pertencimento.
Criatividade nunca foi neutra. Ela sempre escolheu quais histórias merecem ser contadas. A diferença é que hoje essa escolha se tornou muito mais evidente. Vivemos uma época em que algoritmos tendem a reforçar bolhas, radicalizar opiniões e acelerar conflitos. Nesse cenário, o trabalho criativo ganha uma responsabilidade adicional: produzir encontros onde o ambiente digital frequentemente produz afastamentos.
Talvez essa seja uma das maiores missões da criatividade contemporânea. Não apenas convencer. Não apenas emocionar. Mas ampliar repertórios. A boa criação sempre foi aquela capaz de apresentar uma perspectiva que ainda não havíamos considerado. É exatamente isso que fazem os livros celebrados na Flip. É exatamente isso que premiam, em sua melhor versão, os Leões de Cannes. É exatamente isso que diferencia uma campanha memorável de uma campanha esquecível. Ela muda a forma como olhamos para o mundo.
No fim das contas, talvez a maior contribuição da criatividade para a democracia não seja oferecer respostas prontas. Seja oferecer novas perguntas. Porque intolerâncias prosperam quando o pensamento para de circular. A criatividade faz justamente o contrário. Ela provoca. Ela tensiona. Ela amplia. Ela cria pontes. E, em um mundo cada vez mais dividido, talvez construir pontes seja o gesto mais criativo que existe.
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