A Copa de 2026 vai expor quem entende de comunicação — e quem só sabe fazer propaganda
Quem trabalha com imprensa sabe: pauta concentrada em pouco tempo é mais fácil de planejar do que atenção distribuída e imprevisível
06.07.2026

Tem uma pergunta que eu faço pra mim mesmo toda vez que um grande evento esportivo se aproxima: essa marca tem o que dizer, ou só quer aparecer? A Copa do Mundo de 2026 — a primeira disputada em três países, com formato ampliado e uma cobertura de mídia que vai ser a maior da história do evento — vai deixar essa diferença mais clara do que nunca. E é sobre essa diferença que eu quero falar.
A atenção do país vai estar concentrada como nunca
Toda Copa é uma pausa coletiva. Mas a de 2026 tem um fator novo: o fuso horário entre Brasil e América do Norte, somado ao calendário mais longo, vai espalhar a atenção do público ao longo de mais semanas, em vez de concentrar tudo num mês só de jogos em horário do Brasil. Isso muda o jogo de comunicação. Não dá mais pra pensar em "ação de Copa" como um pacote fechado de quinze dias. O período de atenção é mais longo, mais fragmentado e mais difícil de prever.
Quem trabalha com imprensa sabe: pauta concentrada em pouco tempo é mais fácil de planejar do que atenção distribuída e imprevisível. 2026 vai exigir das equipes de comunicação uma capacidade de resposta rápida que a maioria não tem hoje.
O erro que se repete a cada Copa
Toda Copa do Mundo, vejo a mesma cena se repetir: marcas que enxergam o evento como oportunidade de visibilidade, não como contexto de relevância. A diferença parece sutil, mas não é.
Visibilidade é aparecer. Relevância é ter algo genuíno a dizer sobre o momento que está acontecendo. A primeira gera engajamento de curto prazo. A segunda constrói reputação que sobrevive ao apito final. O problema é que visibilidade é mais fácil de comprar — e relevância exige um trabalho de comunicação que não começa na véspera do evento, começa meses antes.
O que separa quem vai aproveitar de quem vai só gastar orçamento
Não é o tamanho do budget. É a pergunta que cada empresa faz antes de agir: o que eu tenho a dizer que é genuinamente meu, e não apenas emprestado do clima da Copa?
As marcas que vão sair de 2026 mais fortes não são as que mais postaram durante os jogos. São as que já tinham uma história sendo contada o ano inteiro, e usaram o Mundial como amplificador — não como ponto de partida. Pauta emprestada de evento esportivo sem repertório prévio é a definição mais clara de oportunismo, e jornalista enxerga isso de longe.
O verdadeiro teste vem depois
O resultado de uma boa estratégia de comunicação em Copa do Mundo não aparece durante o evento. Aparece depois, quando a poeira baixa e a pergunta que fica é: essa marca ainda está na conversa, ou desapareceu junto com a taça?
2026 vai escancarar essa diferença. E talvez seja a Copa que finalmente vai separar quem faz comunicação de quem só faz propaganda disfarçada de oportunidade.
Augusto Pigini é jornalista e profissional de Relações Públicas, com atuação em comunicação estratégica para marcas de tecnologia e inovação.
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