A nova vida discreta de Marcos Galperin em Montevidéu — e o futuro do Mercado Livre após sua saída do comando
Fundador se prepara para deixar o cargo de CEO enquanto desfruta de anonimato no Uruguai, aposta em IA e reforça influência política na Argentina
12.12.2025

Marcos Galperin caminha pelas ruas tranquilas de seu bairro em Montevidéu como um morador comum. Sem seguranças, sem interrupções. Aos 54 anos, o cofundador do Mercado Livre — avaliado em cerca de US$ 10 bilhões, segundo o Bloomberg Billionaires Index — parece se encaixar perfeitamente na rotina discreta da capital uruguaia. No trajeto, ele aponta o clube de tênis onde treina, a feira de agricultores que agora aceita pagamentos pelo Mercado Pago e a praia limpa do Río de la Plata, onde costuma correr.
Nascido em Buenos Aires, Galperin diz que encontrou no Uruguai algo raro: paz. “Na Argentina, eles pedem fotos, isso e aquilo. O Uruguai é um paraíso para mim”, afirma. Ele dirige sozinho, sem escolta, e compara o bairro a “um pequeno Palo Alto. Aqui eu posso viver livremente”.
Essa tranquilidade combina com outro momento de virada. Galperin renunciará ao cargo de CEO do Mercado Livre até o fim do ano, tornando-se presidente executivo e passando o comando para o atual vice, Ariel Szarfsztejn, também formado em Stanford. “O verdadeiro poder é escolher quando se afastar”, diz. O fundador pensou muito, chorou, e foi pressionado por perguntas duras do conselho. Mas queria fazer a transição em alta: o Mercado Livre completou 27 trimestres seguidos com crescimento de receita acima de 30%.
Criado em 1999 como um clone do eBay, o Mercado Livre virou um gigante regional que conecta 70 milhões de pessoas a pagamentos, crédito e compras on-line. “Permitimos que pessoas que vivem muito longe pudessem comprar o mesmo produto pelo mesmo preço […] Isso é um sonho realizado”, afirma o empresário.
O sucessor, porém, enfrentará gigantes globais. A Amazon avança na América Latina e, ao firmar parceria com a Nubank, derrubou as ações do Mercado Livre em 8% no dia do anúncio. A competição também vem da Temu e da Shein, com produtos baratos enviados da Ásia sem tarifas. Sobre lobby contra importações, Galperin desconversa: “Pode-se argumentar que é injusto […] Mas não cabe a nós fazer lobby”.
Na casa em estilo campestre francês, sentado ao lado da piscina e da parrilla dos domingos, ele admite que não sabe como a família encara sua “não aposentadoria”. Nem pretende se afastar totalmente: “Nos próximos cinco anos, continuo focado no Mercado Livre”. Uma de suas obsessões recentes é a inteligência artificial. Galperin passa horas vendo vídeos no YouTube e imagina um assistente de IA que pague contas e invista o dinheiro dos usuários automaticamente. “Vamos dar ao cidadão comum o melhor private banker do mundo”, diz.
Ele também se tornou mais vocal politicamente. Recebeu Javier Milei no escritório em Buenos Aires e apoia as reformas liberais do presidente argentino. Vê como “muito positivo” o apoio de US$ 20 bilhões dos EUA ao governo Milei e defende tarifas menores. Nas redes sociais, combate o que chama de wokeism, critica políticas migratórias e exalta a meritocracia. “A meritocracia é a maneira de administrar um negócio e de administrar um país.”
Sobre entrar na política, não fecha portas: “Aprendi a evitar certas palavras como ‘nunca’ ou ‘sempre’”.
Com valor de mercado de US$ 105 bilhões, aviões próprios cruzando o Brasil e o México, hubs espalhados pela América Latina e mais de 100 mil funcionários, o Mercado Livre é o maior império já construído pela tecnologia latino-americana. E ainda busca licenças bancárias para integrar o sistema financeiro que sempre desafiou. “Sem uma licença bancária, você não pode pagar salários em uma carteira digital. Acho isso bastante ultrajante”, afirma.
Para um fundador que batizou sua empresa de MercadoLibre há 26 anos, Galperin diz que nunca houve mistério sobre o que acredita: “Sempre foi bastante claro qual é a nossa ideologia”.
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