Agentes de IA: por que 40% dos projetos devem ser cancelados até 2027 e o que realmente separa hype de ROI
Enquanto o mercado caminha para decisões autônomas até 2028, a sobrevivência dos projetos atuais depende de uma transição consciente entre a automação tradicional e a verdadeira autonomia
18.03.2026

*Por Fabrício Dias
Nos últimos dois anos, poucas tecnologias despertaram tanta expectativa no mundo corporativo quanto os agentes de inteligência artificial. Mas o mercado ainda está tentando separar ambição tecnológica de valor real para o negócio. Um alerta recente do Gartner ajuda a dimensionar esse desafio. Segundo a consultoria, mais de 40% dos projetos de IA com agentes serão cancelados até o final de 2027, principalmente por três fatores: aumento dos custos, dificuldade de demonstrar valor comercial e falhas na gestão de riscos.
Esse dado revela algo recorrente em ciclos de inovação tecnológica. Quando uma tecnologia emergente encontra o hype antes da maturidade operacional, o número de experimentos cresce muito mais rápido do que o número de implementações bem-sucedidas.
Hoje, grande parte das iniciativas ainda está em fase inicial. Muitas empresas estão explorando provas de conceito ou pilotos impulsionados pela pressão por inovação, mas sem uma clareza completa sobre como a tecnologia se encaixa na arquitetura de processos e sistemas da organização.
Os números reforçam essa leitura. De acordo com o levantamento, apenas 19% afirmaram que suas empresas já fizeram investimentos significativos em agentes de IA. Outros 42% realizaram investimentos conservadores, 8% ainda não investiram e 31% adotam uma postura de cautela ou permanecem indecisos. Ou seja, embora o tema esteja no centro das discussões sobre inovação, a adoção ainda é gradual e experimental na maioria das empresas.
Agent washing: parece agente de IA, mas não é
Parte dessa distorção de expectativas vem de outro fenômeno “agent washing”. Muitos fornecedores passaram a rebatizar tecnologias já existentes, como chatbots, assistentes virtuais ou ferramentas de automação robótica de processos (RPA), como se fossem agentes de IA.
Mas poucos sistemas possuem as características que definem um agente verdadeiro, com capacidade de planejamento, autonomia para executar tarefas, adaptação ao contexto e atuação contínua dentro de processos complexos. Outro ponto importante é que nem todo problema corporativo precisa de um agente de IA para ser resolvido. Em muitos casos, automação tradicional, assistentes inteligentes ou fluxos de decisão estruturados já são suficientes para gerar ganhos relevantes.
Ainda assim, as projeções de longo prazo indicam que os agentes devem ganhar espaço nas empresas. No mesmo levantamento, o Gartner prevê que até 2028 cerca de 15% das decisões operacionais do dia a dia nas empresas serão tomadas de forma autônoma por agentes de IA, um salto relevante em comparação aos 0% registrados em 2024.
Diante disso, a tendência é que ocorra um processo de amadurecimento semelhante ao que ocorreu com outras ondas tecnológicas, em que vem primeiro o entusiasmo, depois a frustração de parte dos projetos e, por fim, a consolidação das aplicações que realmente geram valor.
Nesse contexto, a discussão sobre ROI passa a ser central. Agentes de IA não são apenas uma camada adicional de software. Eles exigem orquestração com sistemas legados, revisão de processos, governança de decisões automatizadas e infraestrutura tecnológica capaz de suportar operações contínuas.
O que as empresas precisam avaliar antes de investir em agentes de IA Para transformar agentes de IA em valor real de negócio, alguns fatores tornam-se decisivos:
Definir claramente o problema de negócio que o agente irá resolver. Avaliar se o caso de uso realmente exige autonomia, ou se automações tradicionais já são suficientes.
Garantir integração com sistemas corporativos e dados confiáveis. Estruturar governança e controle de decisões automatizadas.
Considerar os custos operacionais e de infraestrutura no longo prazo. Redesenhar processos quando necessário, em vez de apenas adicionar IA a fluxos antigos.
É isso que separará os projetos que gerarão impacto real daqueles que permanecerão apenas no campo das promessas.
*Fabrício Dias é Diretor de Produto e Tecnologia na Lecom Tecnologia, com mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento de software e liderança de times de P&D.
INBOX
Aprenda algo novo todos os dias.
Assine gratuitamente as newsletters da Adnews.