Analía Cervini: “Comunicar bem não é falar o tempo todo”
Head de Comunicação do LinkedIn para a América Latina questiona a cultura da exposição permanente, discute autenticidade na era da inteligência artificial e conta como oito meses dedicados à escrita mudaram sua visão sobre carreira e liderança
30.10.2026

Em um mundo profissional que valoriza quem publica, comenta, responde e se mantém visível, qual é o espaço reservado a quem prefere observar, refletir e escutar?
A pergunta ganha outro significado quando é dirigida a Analía Cervini, Head de Comunicação do LinkedIn para a América Latina. Responsável pela comunicação de uma plataforma que incentiva milhões de profissionais a compartilhar conhecimento e construir sua presença pública, a executiva defende uma ideia que contraria a lógica da exposição permanente: falar mais não significa necessariamente comunicar melhor.
“Em reuniões, nas redes e nas empresas, ainda se confunde presença com volume”, afirma.
Nascida no Uruguai e vivendo no Brasil desde 2018, Analía passou oito meses afastada do ambiente corporativo para escrever Silêncio. A experiência também a levou a questionar convicções que durante anos orientaram sua carreira, especialmente a ideia de que sucesso profissional exige disponibilidade permanente.
O afastamento trouxe uma reflexão sobre o custo de uma cultura que frequentemente confunde dedicação com ausência de limites. Também ampliou seu olhar sobre a maneira como pessoas introvertidas são avaliadas em ambientes que privilegiam rapidez, exposição e desenvoltura verbal.
A discussão ganha outra dimensão diante da inteligência artificial. Com ferramentas capazes de produzir conteúdo em escala, cresce a quantidade de informações disponíveis. Mas quem decide o que merece ser visto? E como preservar a diversidade de pensamento quando algoritmos influenciam a circulação das ideias?
Na entrevista ao Mulheres em Destaque, Analía discute essas questões e os desafios do LinkedIn após alcançar 100 milhões de membros no Brasil. Fala sobre criatividade brasileira, empreendedorismo feminino, desigualdade no exercício da autoridade e participação das mulheres nas decisões sobre o desenvolvimento da inteligência artificial.
Entre dados sobre o mercado de trabalho e reflexões pessoais, a executiva questiona uma contradição presente nas organizações: enquanto as empresas incentivam a autenticidade, muitos profissionais ainda sentem que precisam adaptar sua personalidade a um modelo considerado ideal de liderança.
Sua experiência deixa uma pergunta para o mercado da comunicação: estamos aprendendo a nos comunicar melhor ou apenas nos tornando cada vez mais presentes?
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, CRIATIVIDADE E ALGORITMOS
Analía, a inteligência artificial está ampliando a capacidade técnica dos profissionais. Se todos tiverem acesso às mesmas ferramentas e conseguirem produzir trabalhos semelhantes, o que fará uma pessoa ser escolhida em vez de outra?
À medida que a inteligência artificial se torna mais acessível e passa a fazer parte da rotina de diferentes profissionais, o diferencial deixa de estar apenas no acesso à tecnologia e passa a estar na forma como cada pessoa a utiliza. A inteligência artificial pode ajudar a executar tarefas, organizar informações e ampliar nossa capacidade de produção, mas não substitui a experiência, a criatividade e a perspectiva individual que cada profissional traz para o trabalho.
O levantamento Habilidades em Alta 2026 do LinkedIn mostra justamente esse movimento. Competências relacionadas à inteligência artificial, integração de sistemas e decisões orientadas por dados estão ganhando espaço em diferentes áreas. Ao mesmo tempo, habilidades como pensamento crítico, comunicação, liderança e resolução de problemas continuam fundamentais.
No fim, o diferencial não estará apenas em dominar uma ferramenta, mas em saber fazer boas perguntas, interpretar informações, tomar decisões e transformar conhecimento em resultados. Duas pessoas podem utilizar a mesma tecnologia, mas a maneira como aplicam esse conhecimento, resolvem problemas e constroem relações continuará fazendo diferença. Acredito que, quanto mais a tecnologia amplia o que somos capazes de produzir, mais valor ganha aquilo que nos torna únicos: nossa capacidade de interpretar contextos, conectar ideias e trazer perspectivas que não podem ser simplesmente reproduzidas por uma ferramenta.
O LinkedIn desenvolve mecanismos para identificar conteúdos artificiais, repetitivos e de baixa qualidade. Mas quem estabelece o que é original? Como evitar que os critérios utilizados pelos algoritmos acabem influenciando os próprios padrões de criatividade?
A inteligência artificial está tornando a produção de conteúdo cada vez mais rápida e acessível, mas isso também traz um desafio. Quando todos conseguem produzir mais, o que realmente merece atenção? Na minha visão, é justamente nesse cenário que a autenticidade ganha ainda mais valor. Ela está na perspectiva que cada pessoa traz, nas experiências que compartilha e na capacidade de acrescentar algo relevante a uma conversa. Por isso, é importante diferenciar o uso da inteligência artificial como ferramenta de apoio da produção automatizada de conteúdos genéricos e repetitivos.
No LinkedIn, o objetivo é justamente favorecer conversas autênticas e relevantes. Para isso, a plataforma vem aprimorando seus sistemas para identificar conteúdos de baixo valor, produzidos em escala ou sem uma contribuição original, reduzindo sua distribuição para além da rede imediata dos autores. Nos testes iniciais, esses sistemas identificaram corretamente conteúdos genéricos em 94% dos casos.
A inteligência artificial pode ajudar a organizar ideias, revisar textos e tornar uma mensagem mais clara, mas a perspectiva precisa continuar vindo de quem compartilha o conteúdo. E esse é um ponto importante: a tecnologia deve ampliar as possibilidades de expressão, não limitar a diversidade de ideias ou estabelecer um modelo único. O verdadeiro desafio não é fazer com que todos produzam conteúdos melhores segundo um mesmo padrão, mas criar condições para que diferentes vozes, experiências e conhecimentos tenham espaço.
Afinal, em um ambiente com cada vez mais conteúdo, o que gera valor não é apenas a capacidade de produzir, mas a capacidade de contribuir com algo que realmente faça diferença para quem está do outro lado.
O LinkedIn incentiva profissionais a compartilhar conhecimento e construir autoridade. Entretanto, a visibilidade também depende dos sistemas de recomendação da plataforma. Como impedir que profissionais com conhecimento e experiência permaneçam invisíveis simplesmente porque não dominam a lógica das redes sociais?
Construir uma presença profissional não deveria significar dominar fórmulas de engajamento ou publicar constantemente. O LinkedIn é, antes de tudo, um espaço para compartilhar conhecimento, construir relações e acessar oportunidades. E existem diferentes maneiras de fazer isso.
O LinkedIn trabalha continuamente para aprimorar a experiência dos profissionais na plataforma, buscando valorizar conteúdos que tragam perspectivas originais, experiências reais e conhecimentos relevantes. A ideia é incentivar conversas que contribuam para a troca de aprendizados e a construção de relações profissionais, reconhecendo que cada pessoa tem experiências e conhecimentos únicos para compartilhar.
Também é importante lembrar que a presença profissional vai além das publicações. Participar de conversas, acompanhar profissionais da área, compartilhar aprendizados e construir conexões genuínas são formas de ampliar a visibilidade. O Brasil é um exemplo da força dessas interações: segundo dados do LinkedIn divulgados em junho de 2026, os profissionais brasileiros criaram mais de 11 milhões de posts originais e geraram 400 milhões de ações de engajamento no trimestre analisado.
Além disso, outra pesquisa recente da plataforma mostrou que 97% dos profissionais brasileiros consideram sua rede importante para abrir novas possibilidades na carreira. Isso reforça que o valor da plataforma está nas relações e nas oportunidades que elas podem gerar, não apenas no alcance de uma publicação.
Na minha visão, precisamos olhar para a visibilidade como um meio, e não como o objetivo central. O verdadeiro valor de uma rede profissional está na capacidade de transformar conhecimento e conexões em oportunidades, inclusive para quem não produz conteúdo com frequência.
O OCEANO AZUL DO LINKEDIN
O LinkedIn ultrapassou a marca de 100 milhões de usuários no Brasil. Quando uma plataforma alcança essa dimensão, onde está seu próximo oceano azul? O crescimento virá de novos públicos, de serviços que ainda não existem ou de necessidades profissionais que o mercado digital ainda não conseguiu atender?
Alcançar 100 milhões de membros no Brasil, em junho deste ano, foi um marco que reflete uma transformação muito maior do que o crescimento da nossa comunidade. Hoje, o país é um dos três maiores mercados em quantidade de usuários do LinkedIn no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. Mas um número dessa dimensão também nos convida a olhar para a diversidade de profissionais que fazem parte da plataforma e para as diferentes necessidades que surgem ao longo de suas trajetórias.
Ao longo dos anos, o LinkedIn evoluiu junto com as mudanças no mundo do trabalho. Hoje, reunimos profissionais, empresas, conhecimento e negócios em um mesmo ecossistema, com soluções de Talento, Marketing, Vendas e Aprendizagem. Isso significa que nosso papel vai além de conectar pessoas a vagas, apoiando também o desenvolvimento de habilidades, a construção de reputação e a geração de negócios.
Quando pensamos em oportunidades, acredito que uma questão fundamental é reconhecer a diversidade de profissionais que temos hoje no mercado brasileiro, e como podemos amplificar ainda mais o uso da plataforma para todos os profissionais: empreendedores, pessoas na linha de frente, profissionais em transição de carreira, e que todos tem um lugar no LinkedIn. E é importante mencionar também que o mercado de trabalho não é estático e que as necessidades dos profissionais mudam constantemente, uma pessoa pode buscar uma recolocação em determinado momento, desenvolver um negócio em outro ou precisar adquirir novas competências para acompanhar as transformações do seu setor. Essa dinâmica mostra que o potencial de uma rede profissional não se esgota quando ela alcança uma grande base de usuários. Pelo contrário, quanto mais diversa é essa comunidade, maior é a importância de compreender as diferentes demandas que ela representa.
O LinkedIn reúne profissionais de diferentes gerações, setores e regiões. Apesar dessa diversidade, qual problema do mundo do trabalho a plataforma ainda não conseguiu resolver? E o que torna essa questão tão difícil?
A visão do LinkedIn é simples e desafiadora ao mesmo tempo: criar oportunidades econômicas para cada integrante da força de trabalho global. Um dos grandes desafios do mercado de trabalho continua sendo aproximar profissionais das oportunidades certas. A tecnologia ampliou significativamente as possibilidades de conexão entre pessoas e empresas, mas isso não significa que encontrar uma oportunidade alinhada às habilidades e aos objetivos de cada profissional tenha se tornado simples.
Esse desafio também passa por ampliar a percepção de que o LinkedIn é uma plataforma para todos os profissionais, não apenas para quem atua no ambiente corporativo. Temos trabalhado para aproximar a rede de diferentes comunidades, como os profissionais da área da saúde, beleza, mulheres empreendedoras, profissionais 50+, mostrando como a plataforma pode apoiar suas carreiras, fortalecer conexões e gerar novas oportunidades.
Uma pesquisa recente do LinkedIn mostrou que 88% dos profissionais brasileiros acreditam que uma rede ativa pode ajudar pessoas fora dos principais centros econômicos a acessar oportunidades que seriam mais difíceis de alcançar por causa da localização. Ao mesmo tempo, 57% dos profissionais que possuem uma rede afirmam que suas conexões já os aproximaram de oportunidades em empresas, setores ou áreas às quais não teriam acesso por conta própria.
Esses dados mostram o potencial das conexões profissionais, mas também reforçam que ainda existe espaço para evoluir. As necessidades das empresas e as habilidades dos profissionais estão em constante transformação, e nem sempre os critérios tradicionais de contratação conseguem acompanhar esse movimento.
Por isso, precisamos avançar não apenas nas ferramentas que aproximam talentos e oportunidades, mas também na forma como as organizações identificam competências e reconhecem o potencial de cada pessoa. Afinal, uma conexão só se transforma em uma oportunidade real quando existe uma compreensão clara do que o profissional pode oferecer e do que a empresa precisa.
CULTURA BRASILEIRA E ECONOMIA CRIATIVA
Você nasceu no Uruguai e vive no Brasil desde 2018. O brasileiro tem uma maneira particular de se comunicar, improvisar e construir relacionamentos. Que comportamento nosso você considera uma vantagem competitiva, mas que ainda não aprendemos a transformar em valor econômico?
Cheguei de fora e talvez por isso enxergue com mais nitidez o que, para os brasileiros, pode parecer natural. Criatividade, confiança e persistência são traços que eu vejo em todo brasileiro, em qualquer setor ou região, somados a uma energia que é difícil de explicar para quem não vive aqui. O comportamento que eu considero uma vantagem competitiva ainda subaproveitada é essa capacidade de improvisar, criar vínculo e fazer as coisas acontecerem com o que se tem à mão. Aqui as pessoas se aproximam com facilidade, resolvem problemas em tempo real e não esperam as condições ideais para começar. O Brasil trata isso como uma característica de personalidade, quando na verdade é um ativo estratégico.
Eu sempre falo que cheguei no Brasil pensando que ia ficar aqui dois ou três anos e iria embora. O Brasil me conquistou, e acho que foi essa energia brasileira a que me fez apaixonar por essa terra e chamar hoje da minha casa.
O Brasil exporta música, publicidade, audiovisual e outras expressões culturais reconhecidas internacionalmente. Entretanto, transformar criatividade em empresas globais, propriedade intelectual e negócios de longo prazo ainda é um desafio. O que falta para o talento brasileiro conquistar maior participação econômica nos mercados internacionais?
Eu enxergo essa pergunta por outro ângulo. O talento brasileiro já está sendo reconhecido, dentro e fora do mundo dos negócios. Brasileiros lideram hoje algumas das companhias mais relevantes do planeta. Henrique Braun comanda a Coca-Cola, Rodrigo Kede Lima está à frente da Microsoft Frontier Company e Ana Paula Assis lidera as operações da IBM na Europa, no Oriente Médio, na África e na Ásia-Pacífico.
Por isso, mais do que pensar no que falta, prefiro pensar no que podemos ampliar. Esses nomes mostram que o caminho existe, e o próximo passo é multiplicá-lo. Que mais profissionais, criativos e empreendedores brasileiros, especialmente mulheres, tenham visibilidade global, acesso a redes internacionais e a coragem de pensar grande desde o início. Quando a nossa criatividade encontra conexões, mentoria e plataformas que ajudam a mostrar o que fazemos para o mundo, ela deixa de ser um talento reconhecido pelo estilo e passa a ser um valor econômico: empresas com alcance global, marcas que exportam cultura e profissionais que ocupam, cada vez mais, as mesas onde as decisões são tomadas.
Existe algum comportamento dos profissionais brasileiros que os dados e algoritmos do LinkedIn ainda tenham dificuldade de interpretar? O que uma plataforma global precisa aprender com as particularidades culturais de cada país?
As relações profissionais não acontecem da mesma maneira em todos os mercados. Cada país tem suas particularidades culturais, e compreender essas diferenças é fundamental para desenvolver experiências que façam sentido para todos os profissionais.
No Brasil, por exemplo, vemos uma valorização muito forte das conexões. Dados do LinkedIn mostram que os brasileiros estão fazendo 21% mais conexões profissionais do que há três anos, crescimento superior aos 14% registrados globalmente no mesmo período. Além disso, 93% dos profissionais brasileiros afirmam que provavelmente responderiam ou ajudariam alguém que entrasse em contato em busca de orientação profissional, mesmo sem conhecer essa pessoa.
Esses comportamentos ajudam a mostrar a importância das relações no mercado brasileiro. Para uma plataforma global como o LinkedIn, o aprendizado está em combinar tecnologia e compreensão das particularidades de cada mercado, sem presumir que existe uma única maneira de construir uma carreira ou estabelecer conexões profissionais. Os dados nos ajudam a identificar padrões, mas é o contexto cultural que permite compreender o significado desses comportamentos. E essa distinção é fundamental: desenvolver experiências relevantes em escala global também exige sensibilidade para reconhecer aquilo que torna cada mercado único.
MULHERES, EMPREENDEDORISMO E PODER
O levantamento do LinkedIn mostra que as mulheres representam 31% dos empreendedores analisados em empresas com até dez funcionários. Como distinguir, nos dados, as mulheres que empreendem por oportunidade daquelas que abriram seus negócios porque o mercado de trabalho não lhes ofereceu alternativas?
O levantamento do LinkedIn ajuda a compreender a presença das mulheres no empreendedorismo, mas não permite identificar diretamente as motivações que levaram cada uma a abrir seu próprio negócio. Essa distinção é importante, porque empreender pode representar tanto a realização de um projeto pessoal quanto uma alternativa diante de barreiras encontradas no mercado de trabalho. E essas motivações nem sempre são excludentes: uma necessidade pode dar origem a uma oportunidade de negócio, assim como uma decisão inicialmente planejada pode ser influenciada pelas circunstâncias profissionais de cada mulher.
Os dados mostram que as mulheres representam 31% dos empreendedores analisados em empresas com até dez funcionários, considerando posições como fundadoras, proprietárias, CEOs e presidentes. Também observamos que a proporção de fundadoras de empresas de todos os tamanhos aumentou mais de 15% desde 2019.
Mais do que olhar apenas para o número de mulheres que empreendem, é importante discutir as condições que permitam que esses negócios cresçam e se sustentem, entender quais são as indústrias ou setores nos que as mulheres decidem empreender, na maioria dos casos está conectado com oferecer serviços para ajudar outras pessoas: recursos humanos, comunicação, liderança, entre outros. Isso envolve acesso a conexões, conhecimento, oportunidades e recursos para desenvolver uma empresa.
No LinkedIn, queremos contribuir para esse movimento, oferecendo um espaço onde as empreendedoras possam fortalecer sua presença profissional, ampliar suas redes e encontrar novos caminhos para seus negócios.
Existe uma diferença entre uma mulher conquistar um cargo de liderança e ter liberdade para exercer o poder. Qual comportamento ainda é interpretado como autoridade quando parte de um homem, mas desperta resistência quando vem de uma mulher?
Ainda precisamos questionar as expectativas que colocamos sobre a maneira como mulheres e homens exercem a liderança. Muitas vezes, características como firmeza, ambição e capacidade de tomar decisões são valorizadas de maneiras diferentes dependendo de quem as demonstra. Uma postura assertiva, por exemplo, pode ser interpretada como sinal de confiança e autoridade quando parte de um homem, enquanto em uma mulher pode ser percebida como rigidez ou excesso de ambição. Isso cria uma contradição: esperamos que as mulheres assumam posições de liderança, mas nem sempre reconhecemos nelas os mesmos comportamentos que associamos a bons líderes homens.
Liderança não deveria estar associada a um único estilo ou comportamento. O mais importante é criar ambientes em que diferentes perspectivas tenham espaço real nas decisões e em que as pessoas possam exercer suas responsabilidades sem precisar se adaptar a um modelo único de autoridade.
A construção de equipes diversas é fundamental nesse processo, porque a pluralidade contribui para decisões mais consistentes, inovação e resultados sustentáveis. Mas a representatividade, sozinha, não resolve tudo. Precisamos garantir que as mulheres tenham não apenas acesso às posições de liderança, mas também autonomia, reconhecimento e condições para exercer sua influência nas organizações.
Não basta ampliar a presença feminina nos espaços de liderança se as mulheres ainda precisam justificar sua autoridade de uma maneira que não é exigida dos homens. O avanço acontece quando elas têm não apenas um lugar à mesa, mas liberdade e legitimidade para participar das decisões que realmente importam.
As mulheres conquistaram espaço em diferentes setores, mas continuam enfrentando barreiras para participar das decisões estratégicas da indústria de inteligência artificial. Estamos preparando mulheres para utilizar as novas tecnologias ou também para decidir como elas serão desenvolvidas e aplicadas?
Precisamos avançar nas duas frentes. Aprender a utilizar inteligência artificial é importante, mas também precisamos garantir que mais mulheres participem das decisões sobre como essas tecnologias são desenvolvidas, implementadas e utilizadas nas organizações. Afinal, existe uma diferença importante entre saber utilizar uma tecnologia e ter influência sobre os caminhos que ela pode seguir.
A IA está transformando diferentes profissões e setores, e isso exige competências que vão além do conhecimento técnico. O desafio é criar condições para que as mulheres tenham acesso a essas oportunidades de desenvolvimento e possam ocupar espaços de decisão. A diversidade precisa estar presente não apenas entre quem utiliza a tecnologia, mas também entre as pessoas que definem seus objetivos, avaliam seus impactos e orientam sua aplicação.
Isso porque as decisões tomadas durante o desenvolvimento de uma tecnologia influenciam quais necessidades serão priorizadas, quais desafios receberão atenção e como as soluções serão aplicadas na sociedade. Quanto maior a diversidade de perspectivas nesses processos, maiores são as possibilidades de desenvolver soluções que respondam a diferentes realidades.
A participação feminina, portanto, não é apenas uma questão de representatividade, mas também de qualidade e relevância da inovação.
Inteligência emocional, colaboração e capacidade de administrar conflitos são competências valorizadas pelas empresas. Existe o risco de essas habilidades se transformarem em uma cobrança adicional sobre as mulheres, perpetuando a expectativa de que sejam responsáveis pelo equilíbrio emocional das equipes, enquanto os homens continuam concentrando as decisões de poder?
Naturalmente essas habilidades como inteligência emocional e colaboração estão mais presentes e associadas com lideranças de mulheres, mas são fundamentais para qualquer liderança. Mas não deveriam ser tratadas como responsabilidades exclusivamente femininas. Quando esperamos que as mulheres sejam sempre as responsáveis por mediar conflitos, acolher as equipes e preservar a harmonia no ambiente de trabalho, corremos o risco de transformar competências importantes em uma cobrança adicional, que nem sempre vem acompanhada do mesmo reconhecimento ou espaço de decisão.
Os dados mais recentes do LinkedIn sobre o empreendedorismo feminino mostraram que inteligência emocional, autogestão, trabalho em grupo e colaboração aparecem entre as competências com maior representação nos perfis das mulheres analisadas. Isso mostra a presença dessas habilidades, mas não significa que elas devam ser uma expectativa ou uma obrigação atribuída apenas às mulheres.
Organizações mais equilibradas são aquelas que valorizam essas competências em todas as pessoas e, ao mesmo tempo, garantem que as mulheres tenham acesso às decisões estratégicas. Não podemos confundir a valorização das habilidades humanas com a transferência de responsabilidades emocionais para um único grupo.
Liderar envolve tanto construir relações quanto tomar decisões, assumir riscos e responder pelos resultados. Acredito que precisamos avançar para uma visão de liderança em que a capacidade de cuidar das relações e a responsabilidade pelas decisões sejam igualmente valorizadas e compartilhadas. Inteligência emocional não deveria ser uma expectativa de gênero, mas uma competência de toda e qualquer liderança.
REPUTAÇÃO, IDENTIDADE E O VALOR DO SILÊNCIO
Durante anos, as empresas construíram sua reputação por meio de campanhas e comunicação institucional. Hoje, funcionários e executivos também se tornaram vozes públicas. Estamos caminhando para um futuro em que as pessoas confiarão mais nos profissionais do que nas organizações que eles representam?
A reputação das empresas e a credibilidade das pessoas que fazem parte delas estão cada vez mais conectadas. A comunicação institucional continua sendo importante, mas profissionais e lideranças também têm um papel fundamental na maneira como uma organização é percebida. Isso porque a reputação não é construída apenas pelas mensagens que uma empresa transmite, mas também pela forma como seus valores e compromissos se refletem nas experiências de quem faz parte dela.
Isso acontece porque as pessoas buscam experiências, perspectivas e conhecimentos reais. No LinkedIn, vemos o valor das conversas profissionais justamente quando elas são construídas a partir da experiência de quem compartilha uma ideia, e não apenas de mensagens prontas.
A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais relevante. Com a facilidade de produzir conteúdos em escala, a autenticidade passa a ter um papel importante na construção de confiança.
Essa transformação não precisa ser uma disputa entre a voz das empresas e a de seus profissionais. Pelo contrário, organizações que incentivam a troca genuína de conhecimento e dão espaço para diferentes perspectivas podem fortalecer sua reputação e construir relações mais consistentes com seus públicos.
Acredito que o papel da comunicação também está evoluindo nesse cenário. Mais do que construir narrativas, precisamos garantir que elas sejam sustentadas por experiências reais. Em um ambiente em que todos podem produzir e compartilhar conteúdo, a confiança se torna um diferencial competitivo, e ela depende cada vez mais da consistência entre o que as organizações dizem e o que as pessoas vivenciam e compartilham.
Você se afastou do ambiente corporativo durante oito meses para escrever Silêncio. Depois dessa experiência, qual convicção sobre carreira, sucesso ou liderança você deixou para trás?
A convicção que eu deixei para trás foi a de que existe "uma única forma" de trabalhar e de ter sucesso, e que ela passa por ritmo sem pausa, ausência de limites e disponibilidade permanente. Durante muito tempo eu acreditei nisso. Estava inserida em um ambiente que normalizava esse ritmo, e eu não percebi que estava me aproximando de um burn-out até o corpo e a cabeça me mostrarem. Os oito meses longe do ambiente corporativo me deram a distância necessária para entender que sucesso que custa a saúde não é sucesso, e que colocar limites não é falta de compromisso, é condição para entregar bem e por mais tempo.
Voltei com uma convicção diferente: o equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal não é um luxo, é a base de uma carreira sustentável. E, para mim, a maior mudança foi desaprender tudo o que eu tinha aprendido e aprender a ser quem eu realmente sou no trabalho. Quando deixei de adaptar quem eu era a um modelo que não era meu, passei a liderar com mais clareza, mais presença e mais verdade. Hoje acredito que uma boa liderança também cria o espaço para que as pessoas façam o mesmo, porque equipes que podem ser autênticas e têm limites saudáveis também são as que melhor se desenvolvem.
Existe uma contradição interessante na sua trajetória: você lidera a comunicação de uma plataforma que incentiva milhões de pessoas a se expressarem, mas escreveu um livro chamado Silêncio. Se pudesse mudar uma única regra da maneira como nos comunicamos hoje, qual seria?
Adorei a pergunta. Eu vejo que a comunicação e o silêncio são complementares. Toda comunicação tem silêncio, e todo silêncio comunica. Sou uma pessoa introvertida e, por muito tempo, senti que o mundo foi desenhado para os extrovertidos e que nós, os introvertidos, precisávamos nos adaptar. Se pudesse mudar uma única regra, seria aquela que, muitas vezes de forma implícita, associa valor a quem fala mais, mais rápido e mais alto. Em reuniões, nas redes e nas empresas, ainda se confunde presença com volume, e quem precisa de tempo para pensar acaba parecendo menos preparado, quando muitas vezes é exatamente o contrário.
Gostaria que as habilidades associadas aos introvertidos fossem valorizadas na mesma medida que as outras: dedicar tempo para refletir, escutar de verdade, ouvir os próprios silêncios, recarregar a energia em casa quando é necessário e manter a calma nos momentos de crise. São competências fundamentais, e não deveriam ser vistas como uma limitação a ser compensada. Para mim, comunicar bem não é falar o tempo todo, é saber quando falar, quando escutar e quando fazer uma pausa. Uma plataforma que incentiva milhões de pessoas a se expressarem pode e deve ser um espaço em que existem muitas formas de fazer isso, inclusive as mais silenciosas, porque é com todas essas vozes que as conversas ficam melhores.
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