Bets ocupam 65% dos patrocínios máster do futebol brasileiro

Casas de apostas estão no espaço principal das camisas de 13 dos 20 clubes do Brasileirão

Camila Pessanha

26.08.2026

Bets ocupam 65% dos patrocínios máster do futebol brasileiro

As empresas de apostas esportivas deixaram de ser apenas anunciantes interessados na audiência do futebol. Em poucos anos, passaram a ocupar uma posição central no financiamento dos clubes, das competições e das transmissões esportivas no Brasil.

Atualmente, 13 dos 20 times da Série A do Campeonato Brasileiro exibem uma bet no espaço principal da camisa. Isso significa que as casas de apostas detêm 65% dos patrocínios máster da competição. Mais do que uma tendência publicitária, o dado revela uma transformação na economia do futebol brasileiro. As bets encontraram no esporte uma combinação poderosa de alcance, envolvimento emocional, exposição contínua e possibilidade de converter audiência em clientes.

Flamengo – Betano, Corinthians – Esportes da Sorte, Palmeiras – Sportingbet, São Paulo – Superbet, Fluminense – Superbet, Vasco da Gama – Sportingbet, Botafogo – Vbet, Atlético-MG – H2bet, Cruzeiro – Betnacional, Santos – Novibet, Athletico-PR – Viva Sorte Bet, Vitória – 7k e Remo – Vaidebet. A entrada das empresas de apostas elevou o valor dos principais ativos comerciais dos clubes. O total movimentado pelos patrocínios máster analisados passou de R$ 496 milhões, em 2023, para R$ 1,117 bilhão, em 2025. A alta foi de aproximadamente 125% em apenas dois anos. As bets não apenas ocuparam espaços antes disputados por bancos, montadoras, empresas de telefonia e grandes marcas do varejo. Elas também aumentaram os valores necessários para estampar a área mais nobre das camisas.

Para os clubes, o movimento trouxe receitas importantes em um cenário de custos crescentes. Para empresas de outros setores, porém, a inflação dos contratos tornou a competição mais difícil. Poucas categorias conseguem justificar investimentos tão elevados ou relacionar a exposição da marca ao consumo com a mesma rapidez das plataformas de apostas.

Os contratos mais valiosos do futebol brasileiro ajudam a demonstrar a dimensão alcançada pelo setor. O Flamengo lidera o ranking com o acordo firmado com a Betano. A parceria prevê o pagamento de R$ 268,5 milhões por ano e abrange, além do futebol profissional, outras modalidades e propriedades de comunicação do clube.

Na segunda posição aparece o Corinthians. O clube renovou seu vínculo com a Esportes da Sorte em fevereiro de 2026 e passou a receber R$ 150 milhões fixos por temporada. O valor pode chegar a R$ 200 milhões caso as metas previstas no contrato sejam atingidas. O Palmeiras recebe R$ 100 milhões garantidos da Sportingbet pelo patrocínio máster. Com premiações, ativações e metas esportivas e comerciais, o contrato pode alcançar R$ 170 milhões por ano.

O São Paulo também está entre os maiores acordos do país. O contrato com a Superbet estabelece R$ 95 milhões fixos para 2026, com valores progressivos até 2030. O montante garantido no período é de aproximadamente R$ 680 milhões, o que representa uma média próxima de R$ 113 milhões por temporada. O acordo ainda contempla bônus ligados ao desempenho esportivo. A diferença entre valores fixos, médias contratuais e pagamentos condicionados a metas precisa ser considerada nas comparações. Ainda assim, o ranking mostra que as casas de apostas dominam os maiores contratos comerciais do futebol nacional.

Por que as bets investem tanto no futebol?

A relação entre futebol e apostas possui uma característica que diferencia esse mercado de outras categorias de patrocínio. Quando uma marca tradicional aparece na camisa, normalmente busca reconhecimento, associação com o clube e proximidade com os torcedores. Já uma bet pode transformar o interesse pela partida em acesso à plataforma, cadastro e aposta quase instantaneamente. E a exposição não termina quando o jogo acaba. A marca aparece em entrevistas, fotografias, vídeos de treinamento, redes sociais, programas esportivos e conteúdos produzidos pelos próprios torcedores.

Em um calendário com partidas durante praticamente toda a semana, essa presença se torna contínua. O clube funciona ao mesmo tempo como mídia, plataforma de relacionamento e canal de aquisição de consumidores.

Domínio também chegou às competições

A influência das casas de apostas ultrapassou as camisas. O setor passou a ocupar placas publicitárias, transmissões, podcasts, canais de influenciadores e os nomes comerciais dos campeonatos. A Betano detém os naming rights da Série A e também da Copa do Brasil. A Superbet deu nome à Série B em 2025, embora o acordo não tenha sido mantido para o início da temporada de 2026. Essa presença mostra como as bets avançaram sobre praticamente toda a jornada do torcedor. Uma mesma marca pode aparecer no nome da competição, na camisa de um clube, nas placas do estádio, nos intervalos comerciais e nos conteúdos digitais relacionados à partida. O dinheiro das bets ajuda os clubes a financiar suas operações, melhorar estruturas e ampliar a competitividade. A concentração de 65% dos patrocínios máster em um único segmento, no entanto, exige atenção. Mudanças regulatórias, aumento da tributação, restrições publicitárias ou problemas financeiros dos patrocinadores podem afetar várias equipes ao mesmo tempo.

O futebol brasileiro já viveu ciclos marcados pela forte presença de bancos, empresas públicas, montadoras e construtoras. Nenhum setor permanece dominante indefinidamente. Os clubes precisam aproveitar o atual ciclo de investimentos para fortalecer outras fontes de receita, como programas de sócios, bilheteria, licenciamento, conteúdo digital, eventos e exploração comercial dos estádios. A expansão das apostas também aumenta a responsabilidade das empresas, dos clubes, dos veículos de comunicação e dos influenciadores. A publicidade não pode apresentar a aposta como investimento, solução financeira ou garantia de lucro. O cuidado deve ser ainda maior porque o futebol possui grande alcance entre crianças e adolescentes. Quanto maior a exposição das marcas, maior deve ser o compromisso com informações claras, prevenção ao comportamento compulsivo e proteção dos consumidores.

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