Boutique ou indústria: quem perde o sono pelo seu negócio?
Daniel Mourão, CEO da BBRO&co_, analisa as transformações do mercado publicitário e defende que a criatividade e a profundidade estratégica exigem proximidade, e não escala industrial
14.04.2026

Por Daniel Mourão
O mercado da comunicação vem se transformando há mais de 20 anos e, ao longo desse período, assistimos a um movimento importante: agências independentes, que cresceram a partir de um olhar próximo das lideranças seniores e da relação direta com seus clientes, foram adquiridas por grandes grupos nacionais e internacionais.
Esses grupos, naturalmente, trouxeram ganhos relevantes, como maior estrutura financeira, acesso a tecnologias avançadas, processos mais robustos e escala global. Tudo isso é real, necessário e, muitas vezes, extremamente positivo para as marcas.
Mas há um ponto crítico que precisa ser discutido com mais profundidade. Ao crescerem, muitas dessas estruturas acabaram industrializando seus processos criativos e, a meu ver, criatividade não é algo que se industrializa. Criatividade exige proximidade, entusiasmo não nasce em cadeia de produção e o famoso “umbigo no balcão” — aquele envolvimento direto de sócios e líderes — não se replica em estruturas excessivamente verticalizadas.
Isso não significa que grandes grupos não entreguem bons trabalhos. Entregam — e com qualidade. Mas existe algo que, em alguns casos, se perde no caminho, e isso pode ser decisivo.
As agências boutique, por outro lado, tendem a respirar o universo de seus clientes. Na minha experiência como CEO da BBRO&co_, liderando uma agência deste porte, cada detalhe importa e cada interação é uma oportunidade de aprofundar entendimento, ajustar estratégia e potencializar resultados. A recomendação não vem de um processo padronizado, mas de uma imersão real.
Há ainda um ponto interessante nessa análise: praticamente todas as grandes empresas de comunicação do mundo começaram como estruturas boutique. Ou seja, esse modelo não apenas funciona, como muitas vezes é a origem da excelência. Acredito até que, provavelmente, muitas das boutiques de hoje serão os grandes grupos de amanhã.
Outro desafio relevante está na gestão de equipes interdisciplinares em grandes estruturas. Na teoria, a integração é perfeita; na prática, é complexa. As conexões se diluem, os processos se alongam e, não raramente, surgem índices elevados de turnover que impactam diretamente a consistência estratégica e criativa das entregas.
Mesmo com todo o avanço da inteligência artificial, das tecnologias disruptivas e das ferramentas de análise cada vez mais sofisticadas, a comunicação continua sendo, essencialmente, humana. Ela é empatia, entendimento profundo do comportamento do consumidor, criatividade aplicada a objetivos reais de negócio e a capacidade de liderar tecnologia, processos e pessoas para construir marcas relevantes e campanhas memoráveis.
A verdade é simples: bons trabalhos acontecem tanto em grandes estruturas quanto em agências boutique. Mas a pergunta mais importante que um cliente deva fazer talvez não seja sobre tamanho, tecnologia ou portfólio. Pode ser outra: “quem, de fato, perde o sono pelo meu negócio?”
As agências boutique ocupam um espaço cada vez mais valioso no mercado porque entregam exatamente o que muitas marcas procuram hoje: repertório, proximidade, senioridade e um olhar mais apurado sobre negócio, cultura e construção de marca. Conseguem operar com mais foco, menos ruído e maior densidade estratégica, o que explica sua relevância crescente no ecossistema criativo.
Mas é fundamental separar valor intelectual de escala de compra de mídia. Os números públicos deixam isso claro. O CENP, por exemplo, informa que, apenas no primeiro trimestre de 2025, 316 agências participantes movimentaram R$ 4,7 bilhões em mídia. Já um levantamento do Meio & Mensagem mostra que as 50 maiores agências responderam por 40% da compra de mídia, movimentando R$ 34,5 bilhões em 2024. Em outras palavras, o “bolo” segue concentrado nas grandes estruturas de mídia, e não nas agências boutique.
Essa distinção é decisiva porque abre uma discussão mais profunda sobre o modelo de remuneração. Segundo pesquisa publicada pelo Meio & Mensagem, com base no Círculo de Agências Independentes, o faturamento estimado foi de R$ 1,68 bilhão por ano para 144 agências independentes respondentes. No entanto, esse número reflete o faturamento das operações, e não o volume de mídia intermediado.
Isso reforça um ponto central: o principal ativo das boutiques não é escala de negociação, mas sim a capacidade de interpretar contextos, formular estratégia e gerar valor por meio de inteligência aplicada. Nesse cenário, insistir em modelos de remuneração atrelados à mídia se torna cada vez menos coerente com a natureza dessas estruturas. Mais do que isso, pode colocar em xeque a isenção da recomendação, já que, quando a remuneração depende diretamente do volume investido, a lógica econômica passa inevitavelmente a influenciar o conselho.
Para as agências boutique, modelos baseados em consultoria, fee estratégico e até performance parecem muito mais alinhados com aquilo que, de fato, entregam aos seus clientes.
No fim, a escolha é menos óbvia do que parece. A discussão entre grandes grupos e agências boutique não é sobre quem é melhor, mas sobre adequação. Existem momentos em que escala é decisiva, e contextos em que profundidade é insubstituível. Em um mercado cada vez mais complexo, orientado por dados e pressionado por resultados reais de negócio, cresce o valor de quem consegue conectar estratégia, execução e inteligência de forma integrada, sem perder proximidade. Porque, no fim, não se trata apenas de comprar mídia, produzir campanhas ou operar tecnologia. Trata-se de construir relevância. E relevância não se industrializa.
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