BTS: quando uma turnê vira uma plataforma de mídia
Com 88 shows em 23 países e três apresentações esgotadas no Brasil, grupo sul-coreano mostra como transformar música, conteúdo e comunidade em uma estratégia global de comunicação
19.10.2026

O BTS chega ao Brasil no final de outubro para três apresentações da turnê mundial ARIRANG, nos dias 28, 30 e 31, no MorumBIS, em São Paulo. Os ingressos da venda geral se esgotaram em menos de uma hora e meia. Segundo a Ticketmaster, mais de 1,9 milhão de pessoas acessaram o sistema durante os três dias de vendas, gerando uma demanda estimada de 3,7 milhões de ingressos. O equivalente a mais de 48 estádios lotados.
Os números brasileiros são apenas uma parte de uma operação global. Iniciada em abril, na Coreia do Sul, a turnê reúne 88 apresentações em 34 cidades de 23 países, com programação até março de 2027. Na América Latina, são 14 shows distribuídos entre Colômbia, Peru, Chile, Argentina e Brasil. Analistas da instituição financeira sul-coreana IBK Investment & Securities projetam que o circuito possa atrair cerca de 6 milhões de espectadores e movimentar aproximadamente US$ 1,87 bilhão, considerando apresentações e produtos associados.
A dimensão desses números ajuda a explicar por que o BTS se tornou um caso relevante para o mercado de comunicação. O fenômeno não se resume à popularidade da música. Por trás do grupo existe uma arquitetura de relacionamento construída ao longo de anos, na qual cada lançamento, interação e experiência faz parte de uma narrativa maior. A turnê não é um acontecimento isolado, mas mais um capítulo de uma relação que continua mesmo quando as luzes dos estádios se apagam.
O BTS não precisa estar no palco para movimentar milhões de pessoas. Um anúncio, uma transmissão ao vivo ou uma publicação nas redes sociais são suficientes para mobilizar fãs em diferentes continentes.
Um exemplo recente está no canal BANGTANTV, no YouTube. Em 1º de outubro, o grupo publicou um vídeo de 36 minutos mostrando os bastidores da passagem europeia da turnê. Camarins, provas de figurino, refeições, brincadeiras e momentos de emoção compõem uma narrativa que aproxima o público da rotina dos sete integrantes. O conteúdo transforma os bastidores em entretenimento e prolonga a experiência dos shows, oferecendo aos fãs a sensação de acompanhar uma história da qual também fazem parte.
É uma estratégia que valoriza algo cada vez mais disputado na comunicação: o tempo e a atenção das pessoas. Em vez de depender exclusivamente de grandes campanhas, o BTS alimenta uma produção contínua de conteúdo, capaz de manter o interesse do público entre um lançamento e outro.
Outra força desse modelo está no domínio dos canais próprios. Enquanto muitas marcas dependem dos algoritmos das redes sociais para alcançar seus consumidores, o BTS consolidou no Weverse um espaço de relacionamento direto com o público. Ali, comunicação, conteúdo, comércio e experiências se encontram. O fã não é apenas impactado por uma mensagem. Ele participa de um ecossistema.
Mas nenhuma plataforma seria suficiente sem o ARMY, nome dado à comunidade global de fãs do grupo. Mais do que consumidores, seus integrantes atuam como agentes de circulação cultural. Traduzem conteúdos, organizam projetos, compartilham informações e ampliam espontaneamente o alcance de cada movimento dos artistas. É uma rede de comunicação que ultrapassa fronteiras geográficas e linguísticas.
Essa mobilização não nasceu de uma campanha publicitária. Foi construída pela continuidade do relacionamento, pela percepção de proximidade com os artistas e por uma identidade compartilhada. O BTS compreendeu algo que muitas marcas ainda tentam alcançar: pertencimento não se compra com mídia, se constrói com vínculos.
A turnê ARIRANG materializa essa estratégia. Os shows são o centro de uma operação que envolve produtos oficiais, conteúdos digitais, experiências presenciais e novas oportunidades de conexão. Cada etapa alimenta a seguinte, prolongando a presença do grupo no cotidiano dos fãs. A venda de ingressos, as experiências exclusivas para membros e o comércio de produtos fazem parte de uma mesma jornada, na qual a relação emocional também se transforma em valor econômico.
Há, ainda, uma dimensão cultural importante. Cantando majoritariamente em coreano, o BTS construiu uma comunidade internacional sem abandonar sua identidade. Em vez de diluir suas referências para alcançar outros mercados, fez delas um elemento de diferenciação. O resultado é uma marca artística reconhecida globalmente, capaz de estabelecer conexões que não dependem de um idioma comum.
Para o mercado publicitário, talvez essa seja a principal reflexão. Em um ambiente saturado de mensagens, no qual conquistar atenção se tornou cada vez mais caro, o BTS demonstra que relevância não se sustenta apenas com alcance. Ela depende de consistência, identidade e relacionamento.
No fim, a força do BTS está menos na capacidade de reunir multidões em um estádio e mais no que acontece antes e depois de cada espetáculo. A música aproxima. O conteúdo mantém a conversa. A comunidade multiplica o alcance. E o pertencimento transforma tudo isso em valor.
INBOX
Aprenda algo novo todos os dias.
Assine gratuitamente as newsletters da Adnews.