Camila Miranda: “Liderança não é um concurso de popularidade”
Head de Marketing da Adobe para a América Latina fala sobre educação, liderança, os desafios enfrentados por mulheres negras no ambiente corporativo, inteligência artificial e as mudanças que devem marcar o marketing em 2027
05.11.2026

Aos sete anos, Camila Miranda disse à mãe que seria diretora de uma empresa. Não sabia exatamente o que significava ocupar aquele cargo, mas já imaginava um futuro diferente daquele que conhecia.
Sua mãe, Dona Léa, começou a trabalhar como empregada doméstica aos 12 anos. Décadas depois, a filha se tornaria a primeira pessoa da família a ingressar na universidade, beneficiada pela primeira edição do Programa Universidade para Todos (ProUni).
Formada em Rádio e TV, Camila iniciou sua carreira em um call center da Claro. Em uma dinâmica de seleção interna para a área de marketing, precisou imaginar uma manchete de revista sobre si mesma. A resposta foi: “Camila Miranda: do Call Center para o Mundo”.
A manchete imaginária ganhou novos significados ao longo dos anos. Depois de atuar em diferentes frentes do marketing e trabalhar no atendimento à conta da Adobe pela agência Oliver, Camila chegou à liderança de marketing da empresa de tecnologia para a América Latina.
O caminho até essa posição também trouxe questionamentos sobre autoridade, identidade e as expectativas depositadas sobre mulheres negras em ambientes corporativos. Durante o Black Leadership Program, em Stanford, uma discussão sobre poder e influência reforçou uma percepção que hoje orienta sua atuação: liderança não é um concurso de popularidade.
Na entrevista ao Mulheres em Destaque, Camila discute os desafios do marketing B2B, os limites das métricas, a formação de profissionais em tempos de inteligência artificial e a crescente influência das plataformas de IA nas decisões de compra.
Para ela, o avanço tecnológico exige uma habilidade que nenhuma ferramenta substitui automaticamente: o julgamento humano.
Entre as lembranças da infância e as decisões que hoje toma como executiva, permanece uma convicção: a educação pode mudar as possibilidades de uma família inteira.
1. A MENINA QUE QUERIA SER DIRETORA
Você já contou que, aos 7 anos, dizia que queria ser diretora. Hoje, olhando para aquela menina, o que você acha que ela buscava?
Acho que aquela menina buscava algo que ela ainda não sabia explicar: a possibilidade de escolher o próprio futuro.
Minha mãe começou a trabalhar como empregada doméstica aos 12 anos. Ela não teve a oportunidade de viver plenamente a infância, muito menos de planejar uma carreira. A vida exigiu que ela assumisse responsabilidades muito cedo.
Quando eu tinha sete anos, ela me perguntou o que eu queria ser quando crescesse. Eu respondi, com a maior naturalidade, que seria diretora de uma empresa.
Hoje, olhando para trás, percebo que o mais importante daquela conversa não foi a minha resposta, mas a pergunta que minha mãe fez. Ela estava me oferecendo algo que não tinha recebido: a liberdade de sonhar.
Eu não sabia exatamente o que fazia uma diretora. Mas, de alguma forma, já entendia que queria tomar decisões, construir coisas e ter autonomia sobre a minha vida.
Anos depois, quando assinei meu contrato como diretora, pensei imediatamente nela.
Aquela conquista não era apenas minha. Representava uma mudança de possibilidades entre gerações da minha família.
Hoje entendo que aquela menina não estava buscando um cargo. Ela estava buscando um futuro diferente.
2. QUANDO O ROTEIRO MUDA
Você se formou em Rádio e TV e acabou construindo uma carreira em marketing, tecnologia e negócios. Qual foi o ponto de virada nessa trajetória?
Acredito que a formação acadêmica é o ponto de partida para o desenvolvimento de competências, mas são as experiências, a curiosidade e o aprendizado contínuo que ampliam nossas possibilidades de carreira.
Eu me formei em Rádio e TV porque sempre tive interesse por comunicação. Quando comecei a trabalhar no call center da Claro, identifiquei que o marketing era a área mais próxima da minha formação dentro daquela organização. Procurei meu gestor, manifestei meu interesse e, oito meses depois, participei de um processo seletivo interno.
Lembro de uma dinâmica de grupo em que nos perguntaram: "Se você fosse capa de uma revista, qual seria a manchete?". Minha resposta foi: "Camila Miranda: do Call Center para o Mundo".
Na época, eu ainda não tinha clareza sobre todas as possibilidades que o marketing oferecia, mas já enxergava naquela oportunidade um caminho para ampliar minhas competências e construir uma carreira.
E foi exatamente o que aconteceu. A comunicação foi minha porta de entrada, mas, à medida que minha carreira evoluiu, fui desenvolvendo conhecimentos em estratégia de negócios, tecnologia, análise de dados e liderança.
Hoje, quando olho para as equipes de marketing, vejo profissionais com formações em comunicação, engenharia, administração, tecnologia e ciência de dados. Essa diversidade de conhecimentos reflete a evolução de uma área cada vez mais multidisciplinar, que exige a capacidade de conectar diferentes perspectivas para resolver desafios de negócio.
Por isso, acredito que construir uma carreira passa por reconhecer as competências que já temos, identificar aquelas que precisamos desenvolver e estar abertos a oportunidades que ampliem nosso repertório.
Olhando para trás, percebo que o verdadeiro ponto de virada não foi simplesmente sair do call center para o marketing. Foi compreender que minha formação era o ponto de partida da minha carreira, não o limite das minhas possibilidades.
3. A TRAVESSIA PARA A ADOBE
Seu primeiro contato com a Adobe aconteceu do outro lado do balcão, trabalhando em uma empresa fornecedora. Como você enxergava a marca naquela época e como a vê hoje?
Minha aproximação com a Adobe começou a partir de uma decisão de carreira. Até aquele momento, eu havia construído minha experiência em marketing do lado do cliente e queria ampliar minha perspectiva sobre a indústria. Entender como funcionava uma agência, seus desafios, sua dinâmica de trabalho e, principalmente, como essa experiência poderia desenvolver novas competências em mim como profissional de marketing.
Foi quando aceitei o desafio de trabalhar na Oliver, assumindo a responsabilidade pelo atendimento à conta da Adobe. E imagine a oportunidade de fazer essa transição trabalhando com uma das maiores empresas de tecnologia do mundo.
Como profissional de marketing, a Adobe sempre fez parte do meu universo. Era uma marca que eu associava imediatamente à criatividade, às ferramentas de criação que fazem parte do dia a dia de tantos profissionais e, claro, ao famoso PDF.
Mas, ao me aproximar da empresa, descobri uma Adobe que ia muito além dessa percepção.
Descobri uma companhia que, além de transformar a maneira como o mundo cria e compartilha conteúdo, também desempenha um papel estratégico na forma como as organizações utilizam dados, tecnologia e inteligência artificial para conhecer melhor seus clientes, personalizar experiências e impulsionar o crescimento dos negócios.
Essa experiência ampliou não apenas minha visão sobre a Adobe, mas também minha compreensão sobre a evolução do próprio marketing. Percebi, na prática, como criatividade, tecnologia e estratégia de negócios estão cada vez mais conectadas.
Hoje, liderando o marketing da Adobe para a América Latina, tenho a oportunidade de trabalhar justamente nessa interseção. Nosso papel vai muito além de oferecer ferramentas. É ajudar empresas a resolver desafios reais, transformar a experiência de seus clientes e identificar novas oportunidades de crescimento.
Olhando para essa trajetória, acredito que uma das decisões mais importantes para o desenvolvimento de uma carreira é buscar experiências que ampliem nossa perspectiva. Às vezes, mudar de lado da mesa é exatamente o que precisamos para enxergar o negócio por inteiro.
4. CONSTRUIR A PRÓPRIA VOZ
Ao longo da carreira, você chegou a posições de liderança em empresas globais de tecnologia. O que precisou aprender sobre si mesma para ocupar esses espaços com segurança e construir sua voz como líder?
Acredito que um dos meus maiores aprendizados foi entender que conquistar uma posição de liderança e aprender a exercer a autoridade que ela exige são duas coisas diferentes.
Durante muito tempo, me preocupei com a forma como minhas decisões e meus posicionamentos seriam percebidos. Queria ser uma líder respeitada, mas também querida. E, sendo uma mulher negra em ambientes onde ainda somos minoria, existe uma camada adicional nessa preocupação.
Muitas vezes, características que valorizamos em uma liderança, como assertividade, confiança e firmeza na tomada de decisões, podem ser interpretadas de maneira diferente dependendo de quem as demonstra. Uma mulher negra que se posiciona pode ser percebida como agressiva, enquanto o mesmo comportamento em outra pessoa pode ser reconhecido como sinal de liderança.
Uma experiência importante nesse processo aconteceu recentemente, durante o Black Leadership Program, em Stanford. Em uma aula com Jeffrey Pfeffer, professor de comportamento organizacional, discutimos a relação entre poder, influência e a necessidade de aprovação.
Uma das reflexões que mais me marcaram foi perceber que liderança não é um concurso de popularidade. Liderar exige tomar decisões, estabelecer prioridades, defender estratégias, desenvolver pessoas, cobrar resultados e, muitas vezes, dizer não.
Parece simples, mas essa reflexão me fez questionar quanto da minha preocupação com a forma de me comunicar estava realmente relacionado ao meu desenvolvimento como líder e quanto era uma tentativa de tornar minha autoridade mais confortável para os outros.
Isso não significa desconsiderar feedbacks ou deixar de desenvolver inteligência emocional. Pelo contrário. Aprendi a construir melhor meus argumentos, ouvir diferentes perspectivas, identificar os momentos certos para me posicionar e adaptar minha comunicação ao contexto. Essas são competências fundamentais para qualquer liderança.
Mas também compreendi que existe uma diferença entre aprimorar a maneira como exercemos nossa liderança e diminuir nossa autoridade para atender às expectativas dos outros.
Hoje, para mim, construir uma voz como líder significa encontrar esse equilíbrio: ter abertura para aprender, maturidade para reconhecer quando preciso evoluir e segurança para sustentar decisões nas quais acredito.
Porque liderança não é apenas conquistar um lugar à mesa. É desenvolver a capacidade e a confiança para exercer a responsabilidade que aquele lugar representa.
5. EDUCAÇÃO COMO ALAVANCA
Que papel a educação e o desenvolvimento de competências tiveram na sua trajetória? Que habilidades você aconselharia quem está chegando agora ao mercado, e quer chegar à liderança, a desenvolver?
A educação mudou completamente a minha trajetória e também a realidade da minha família.
Fui a primeira pessoa da minha família a entrar na universidade e fiz parte da primeira turma do ProUni. Por isso, quando falamos sobre acesso à educação, não estou falando de um conceito abstrato. Estou falando de algo que transformou concretamente as possibilidades que eu tinha para o meu futuro.
Mas existe uma diferença importante entre ter acesso à educação e entender que o aprendizado não termina quando recebemos um diploma.
Ao longo da minha carreira, precisei desenvolver competências que não faziam parte da minha formação original. Aprendi sobre negócios, tecnologia, dados, gestão financeira e liderança.
Para quem está começando hoje, eu destacaria três habilidades.
A primeira é a capacidade de aprender continuamente. O conhecimento técnico está se transformando em uma velocidade muito grande, e a habilidade de aprender coisas novas será cada vez mais importante.
A segunda é o pensamento crítico. Em um mundo em que temos acesso imediato a informações e respostas produzidas por inteligência artificial, saber fazer boas perguntas, interpretar contextos e tomar decisões se torna um diferencial.
E a terceira é a capacidade de construir relações. Nenhuma carreira é construída sozinha. Saber colaborar, ouvir, dar e receber feedback e desenvolver conexões genuínas continua sendo fundamental.
Eu acrescentaria ainda um conselho: não espere estar completamente pronta para buscar uma oportunidade. Muitas das competências que precisamos para crescer só conseguimos desenvolver quando aceitamos desafios que ainda não sabemos exatamente como resolver.
6. MARKETING DEIXOU DE SER SÓ COMUNICAÇÃO. E AGORA?
Ao longo da sua carreira, você se aproximou de temas cada vez mais complexos: inteligência de dados, tecnologias emergentes como a IA, experiência do cliente e negócios internacionais. Nesse contexto de mudanças, o que significa ser profissional de marketing hoje? E qual você acredita que será o próximo passo dessa profissão?
Acredito que uma das maiores transformações do marketing foi deixar de ser visto apenas como uma área responsável por comunicar o valor de uma empresa e passar a participar diretamente da construção desse valor.
Hoje, um bom profissional de marketing precisa entender de comportamento humano, tecnologia, dados e, principalmente, negócios.
Não basta criar uma campanha relevante. É preciso compreender quais desafios a empresa está tentando resolver, como as decisões dos clientes são tomadas e de que maneira o marketing pode contribuir para gerar crescimento.
Isso muda completamente o perfil do profissional.
O marketing precisa conversar com vendas, finanças, tecnologia, produto e liderança de negócios. Precisa interpretar dados, identificar oportunidades e conectar estratégia à execução.
E a inteligência artificial está acelerando essa transformação.
Já vivemos uma realidade em que muitas atividades operacionais podem ser automatizadas. Produzir conteúdo, analisar informações e executar campanhas está se tornando cada vez mais rápido e acessível.
Mas existe uma consequência importante: quando a execução se torna mais fácil, a qualidade do pensamento estratégico passa a valer ainda mais.
Na minha visão, o próximo passo do marketing já está acontecendo. Estamos deixando para trás uma lógica centrada em campanhas e avançando para uma atuação cada vez mais conectada à experiência completa do cliente e aos resultados do negócio.
Essa transformação já faz parte do nosso dia a dia e exige profissionais capazes de integrar diferentes disciplinas, interpretar contextos e utilizar a tecnologia para gerar valor real.
O diferencial do profissional de marketing hoje não está apenas no domínio das ferramentas, mas na capacidade de conectar tecnologia, criatividade e conhecimento do consumidor para tomar decisões melhores.
Não estamos mais nos preparando para o futuro do marketing. Estamos vivendo essa transformação agora.
7. B2B NÃO É B2C DE TERNO
Estratégia de marketing B2B é uma das suas especialidades. Com ciclos de venda longos e várias pessoas envolvidas em cada decisão, como se constrói uma estratégia que gera demanda de verdade, e não só leads? O que o mercado ainda erra no B2B?
Acho que um dos maiores erros do marketing B2B é confundir geração de leads com geração de demanda.
Um lead é um contato. Construir demanda é algo muito mais complexo. Envolve compreender os desafios de negócio dos clientes, identificar oportunidades e desenvolver uma estratégia capaz de gerar interesse, construir relacionamentos e influenciar decisões ao longo de toda a jornada de compra.
No B2B, especialmente no mercado de tecnologia, essa jornada raramente é linear. As decisões envolvem diferentes áreas, prioridades e pessoas. Quem utiliza uma solução nem sempre é quem aprova o investimento, e quem aprova o investimento nem sempre é quem identifica primeiro a necessidade.
Por isso, acredito que uma das responsabilidades mais estratégicas do marketing B2B é ajudar a construir a experiência que uma empresa terá ao longo de seu processo de compra. Isso significa entender quem participa das decisões, quais informações são relevantes em cada momento e como conectar conteúdo, eventos, experiências e relacionamentos para ajudar o cliente a avançar em sua jornada.
E esse trabalho não termina quando uma oportunidade é criada.
Durante o processo de qualificação e desenvolvimento de uma oportunidade comercial, o marketing continua desempenhando um papel fundamental. Enquanto o time de vendas constrói a oportunidade e desenvolve a negociação, o marketing contribui criando experiências, promovendo conexões com especialistas e lideranças, desenvolvendo conteúdos relevantes e fortalecendo a confiança do cliente na solução e na empresa.
Isso exige uma integração muito próxima entre marketing e vendas, com uma visão compartilhada sobre as contas estratégicas, as oportunidades em desenvolvimento e os desafios que precisam ser superados para que uma decisão avance.
Também exige uma evolução na forma de medir resultados. O volume de leads, isoladamente, diz muito pouco sobre a contribuição do marketing para o negócio.
Precisamos olhar para criação de oportunidades, qualificação e progressão do pipeline, relacionamento com contas estratégicas e impacto nas prioridades da empresa. O marketing precisa demonstrar não apenas sua capacidade de gerar interesse, mas também sua contribuição para transformar esse interesse em oportunidades reais de negócio.
E existe outro erro que ainda vejo no mercado: acreditar que B2B é uma comunicação exclusivamente racional.
Empresas não tomam decisões. Pessoas tomam decisões dentro das empresas.
Essas pessoas têm dúvidas, receios, ambições e precisam construir confiança antes de assumir riscos.
O B2B pode ter uma jornada de compra mais complexa, mas continua sendo profundamente humano.
8. MEDIR TUDO
Hoje conseguimos medir praticamente tudo. Retorno sobre Investimento (ROI), Custo de Aquisição de Cliente (CAC) e indicadores-chave de desempenho (KPIs), dentro e fora do digital, estão entre as métricas mais usadas no mercado. Nesse contexto, existe o risco de começarmos a valorizar apenas aquilo que conseguimos medir?
Sem dúvida. E acho que esse é um dos grandes paradoxos do marketing atual.
Nunca tivemos acesso a tantos dados e, ao mesmo tempo, nunca foi tão importante saber interpretar aquilo que os números não conseguem explicar completamente.
Sou uma defensora de decisões orientadas por dados. Trabalhando com marketing em uma empresa global de tecnologia, seria impossível imaginar uma estratégia consistente sem métricas, indicadores e acompanhamento de resultados.
Mas existe uma diferença importante entre tomar decisões orientadas por dados e tomar decisões limitadas aos dados.
Nem tudo que gera valor produz um resultado imediatamente mensurável.
Confiança, reputação, percepção de marca e qualidade de relacionamento são exemplos de fatores que influenciam decisões de compra, mas que nem sempre aparecem de forma clara em um dashboard.
No B2B, isso é ainda mais evidente. Uma conversa com um líder de negócios pode não gerar uma oportunidade naquele trimestre, mas pode ser determinante para uma decisão estratégica meses depois.
Se olharmos apenas para o retorno imediato, corremos o risco de deixar de investir em iniciativas que constroem valor no longo prazo.
Para mim, os dados precisam ampliar nossa capacidade de decisão, não substituir nosso julgamento.
O problema não é medir demais. É começar a acreditar que só tem valor aquilo que conseguimos medir.
9. UMA DECISÃO CONTRA OS DADOS
Ainda falando de métricas, qual foi a decisão mais importante que você tomou na carreira contrariando os dados? O que ela revela sobre o comportamento humano?
Uma das decisões mais interessantes que tomei foi convidar um cliente para apresentar o principal case de sucesso em um grande evento, mesmo quando os indicadores disponíveis não apontavam aquela conta como a escolha mais óbvia.
Naquele momento, ainda havia oportunidades importantes de explorar o potencial da tecnologia e demonstrar seu valor para o negócio. Em vez de escolher um cliente que já tivesse uma história consolidada para contar, pensei: por que não utilizar o próprio evento como um incentivo para construir essa história?
A proposta foi convidar o cliente para desenvolvermos juntos um caso de uso específico, com resultados concretos que pudessem ser apresentados no palco. Era uma abordagem diferente da convencional, porque estávamos propondo construir o case antes de ter uma história pronta para apresentar.
Naquele momento, pensei: o máximo que ele pode dizer é não.
Mas o cliente aceitou o desafio.
A partir daí, tivemos um objetivo compartilhado. O caso de uso foi implementado, os resultados começaram a aparecer e o cliente finalmente conseguiu perceber o valor da solução. A oportunidade de apresentar essa experiência em um grande evento também trouxe visibilidade para a empresa no mercado e reconhecimento interno para os profissionais envolvidos no projeto.
O que começou como uma aposta pouco convencional se transformou em uma experiência positiva para todos os envolvidos e contribuiu para uma retenção bem-sucedida.
Essa história me ensinou algo importante sobre a relação entre dados e comportamento humano. Os indicadores mostravam corretamente que existia um problema. O que eles não conseguiam antecipar era como uma mudança de abordagem poderia transformar aquela relação.
E isso se conecta diretamente à minha visão sobre marketing B2B. Por trás de cada contrato, existem pessoas que querem resolver problemas, demonstrar resultados, conquistar reconhecimento e fazer a diferença dentro de suas organizações.
Às vezes, o que falta para transformar uma relação de negócios não é mais uma apresentação comercial, mas criar uma oportunidade para que as pessoas envolvidas também tenham sucesso.
Os dados nos ajudam a entender o cenário. Mas compreender as motivações humanas pode revelar caminhos que os números, por si sós, não conseguem mostrar.
10. QUEM SABE OPERAR OU QUEM SABE PENSAR?
Desde 2022, a IA reconfigurou a maneira como empresas e profissionais executam e pensam suas tarefas. Em um mercado em que a produtividade se tornou requisito básico para novos talentos, qual deve ser a abordagem das empresas na capacitação de profissionais? Hoje, estamos formando equipes que sabem interpretar o que os dados e a tecnologia nos dizem?
Acredito que estamos vivendo uma mudança importante na definição do que significa ser um profissional qualificado.
Durante muito tempo, o domínio de ferramentas, processos e habilidades técnicas foi um diferencial competitivo. Essas competências continuam relevantes, mas a inteligência artificial está transformando a forma como trabalhamos e o valor que geramos.
Hoje, tarefas que antes exigiam horas podem ser realizadas em minutos. Isso representa um enorme ganho de produtividade, mas traz uma pergunta importante: o que estamos fazendo com o tempo que a tecnologia está liberando?
Se utilizarmos a IA apenas para produzir mais apresentações, relatórios e conteúdos, estaremos aproveitando uma parcela muito pequena do seu potencial.
O verdadeiro avanço acontece quando usamos essa capacidade para aprofundar análises, explorar novas possibilidades e tomar decisões melhores.
Nesse contexto, acredito que as empresas precisam evoluir também na forma como desenvolvem seus talentos. A capacitação não pode se limitar ao treinamento técnico. É preciso criar ambientes que estimulem a curiosidade, o pensamento crítico, a experimentação e a capacidade de conectar diferentes perspectivas.
Isso passa também por uma mudança na forma como avaliamos o desempenho. A produtividade continua sendo importante, mas precisamos valorizar igualmente a qualidade das perguntas, a capacidade de interpretar informações e o impacto das decisões.
O desafio das empresas não é apenas capacitar pessoas para trabalhar com inteligência artificial. É garantir que elas continuem desenvolvendo a inteligência humana.
- O PERIGO DA VELOCIDADE
Se, por um lado, a IA aumenta a produtividade, por outro ela também acelerou o ritmo da análise e da tomada de decisão. Para você, qual deve ser o equilíbrio entre velocidade e raciocínio humano? É possível confiar 100% na avaliação de plataformas de inteligência artificial?
Acredito que a inteligência artificial está nos trazendo uma oportunidade extraordinária de tomar decisões mais bem informadas, com acesso a análises e informações que antes exigiam muito mais tempo e recursos. Mas existe uma diferença importante entre acelerar uma análise e melhorar a qualidade de uma decisão.
A IA consegue identificar padrões, processar grandes volumes de dados e apresentar recomendações em segundos. O que ela não consegue garantir, por si só, é que todas as variáveis relevantes para uma decisão estejam representadas naquela análise.
No marketing, por exemplo, podemos utilizar a tecnologia para identificar tendências de comportamento, antecipar necessidades e otimizar investimentos. Mas interpretar o contexto de um mercado, compreender as particularidades de um cliente ou avaliar o impacto de uma decisão sobre um relacionamento exige uma visão mais ampla.
Por isso, não acredito em confiança irrestrita, mas em uma utilização responsável da tecnologia. Isso envolve compreender a origem e a qualidade dos dados, questionar recomendações e estabelecer níveis adequados de supervisão humana, especialmente em decisões de maior impacto.
Também acredito que precisamos desenvolver uma competência cada vez mais importante: saber quando acelerar e quando aprofundar uma análise. Nem toda decisão exige o mesmo nível de reflexão, mas todas exigem clareza sobre seus objetivos e consequências.
A inteligência artificial amplia nossa capacidade de análise. O julgamento humano continua sendo fundamental para transformar essa capacidade em boas decisões.
- RECICLAR IDEIAS TAMBÉM É INOVAR?
Existe uma obsessão do mercado pela próxima novidade, mas muitos conceitos importantes nascem de algo que já existia a partir de uma nova leitura. Por que temos tanta dificuldade de revisitar ideias? Existe alguma premissa do marketing que, na sua visão, precisamos revisitar com urgência?
Acredito que a inovação está muito mais relacionada à capacidade de resolver problemas de maneiras diferentes do que necessariamente à criação de algo completamente novo.
No marketing, temos um exemplo bastante interessante. Há décadas falamos sobre colocar o cliente no centro das decisões. É um conceito amplamente conhecido, mas que ganhou uma nova dimensão com a evolução dos dados, da tecnologia e da inteligência artificial.
Hoje, temos condições de compreender melhor o comportamento dos consumidores, conectar informações de diferentes canais e oferecer experiências mais relevantes e personalizadas em escala.
Mas existe uma questão importante: muitas empresas ainda organizam suas estratégias a partir de estruturas internas, produtos, canais e campanhas, enquanto o cliente enxerga uma única marca e espera uma experiência consistente ao longo de toda a jornada.
Para mim, essa é uma das premissas que precisamos revisitar. Colocar o cliente no centro não significa apenas conhecer suas preferências ou personalizar uma comunicação. Significa organizar decisões, processos e tecnologias a partir da experiência que queremos construir para ele.
Isso exige uma integração muito maior entre marketing, vendas, tecnologia e outras áreas do negócio, além de uma visão compartilhada sobre o valor que estamos entregando.
Talvez uma das maiores oportunidades de inovação esteja justamente em utilizar as capacidades que temos hoje para concretizar ideias que defendemos há muito tempo.
Inovar também é revisitar uma boa ideia com novos conhecimentos, novas tecnologias e uma capacidade maior de transformá-la em realidade.
- O QUE VEM EM 2027?
Qual mudança você acredita que ainda está sendo subestimada pelo mercado e pode ganhar muita força em 2027? Por quê?
Acredito que uma das transformações mais importantes para o marketing em 2027 será a consolidação da jornada de compra dentro das plataformas de inteligência artificial.
Essa mudança já está acontecendo. Hoje, consumidores utilizam ferramentas como o ChatGPT para pesquisar produtos, comparar marcas, receber recomendações e, em algumas experiências, até realizar compras.
E os dados mostram por que isso merece atenção. Segundo um estudo da Adobe desse ano, consumidores que chegaram a sites de varejo a partir de plataformas de IA apresentaram uma taxa de conversão 42% superior à de outros canais digitais.
Isso indica que estamos diante de uma mudança no comportamento de compra. Parte da pesquisa e da comparação já acontece dentro dos LLMs, e o consumidor pode chegar muito mais preparado para tomar uma decisão.
Para as marcas, surge uma nova prioridade estratégica: compreender como são interpretadas e recomendadas pela inteligência artificial. Não basta aparecer nas respostas. É preciso entender em quais contextos a marca é recomendada, como se posiciona diante dos concorrentes e quais informações influenciam essas recomendações.
Na Adobe, por exemplo, já temos o Adobe Brand Visibility, que permite analisar essa presença nas plataformas de IA e identificar oportunidades de otimização. É um exemplo de como a tecnologia está evoluindo para atender a uma necessidade concreta dos profissionais de marketing.
Acredito que 2027 será o ano em que essa capacidade começará a se consolidar como parte da gestão estratégica das marcas.
Se antes o desafio era entender como os consumidores enxergavam nossas marcas, agora precisamos compreender também como a inteligência artificial as interpreta e influencia as decisões de compra.
BATE-BOLA | CAMILA MIRANDA
Criatividade é…
A capacidade de enxergar novas possibilidades para resolver problemas.
IA é...
Uma tecnologia que amplia nossas capacidades e nos desafia a pensar de novas maneiras.
Marketing é…
Conectar pessoas, tecnologia e estratégia para gerar valor e crescimento.
B2B é…
Construir relações de confiança e experiências que ajudam pessoas a tomar decisões de negócio.
Liderança é…
Desenvolver pessoas, tomar decisões e criar condições para que os resultados aconteçam.
Uma mulher que te inspira?
Dona Léa, minha mãe. Porque ela não teve a oportunidade de escolher o próprio futuro, mas fez questão de que eu pudesse escolher o meu.
Um profissional que você admira?
Lisiane Lemos. Em 2017, assisti a um TEDx Talk dela que teve um impacto muito importante na minha trajetória. Naquele momento, ouvi-la falar me fez acreditar que ocupar determinados espaços também era possível para mim.
Um sonho que você ainda não realizou?
Desenvolver um projeto social que amplie o acesso de jovens a oportunidades de educação, desenvolvimento e carreira. Quero utilizar o conhecimento, a experiência e as conexões que construí para abrir caminhos que, no início da minha trajetória, eu nem sabia que existiam.
Um sonho que você já realizou e demorou para reconhecer como conquista?
Ter conseguido transformar a minha realidade e a da minha família. Durante muito tempo, estive tão focada no próximo objetivo que não dimensionava o que já havia conquistado. Foi só há cerca de dois anos que me permiti olhar para minha trajetória e reconhecer o tamanho dessa transformação. Eu conquistei independência financeira, mudei as condições de vida da minha família e ampliei as possibilidades para as próximas gerações. Quando penso de onde viemos e onde conseguimos chegar, entendo que essa é uma das minhas maiores realizações. Não se trata de um cargo ou de uma posição profissional, mas de ter conseguido mudar uma história que começou muito antes de mim.
Um erro que você cometeu e o que ele te ensinou?
Acreditar que precisava dar conta de tudo sozinha. Aprendi que construir boas relações e saber pedir apoio também fazem parte do desenvolvimento profissional.
Uma situação em que você aprendeu a dizer "não"?
Quando compreendi que exercer liderança também significa tomar decisões que nem sempre são populares. Durante muito tempo, me preocupei em ser respeitada e, ao mesmo tempo, querida. Aprendi que dizer "não", quando necessário, faz parte da responsabilidade de estabelecer prioridades, sustentar decisões e agir com coerência. Liderar não é buscar aprovação o tempo todo.
Algo que você ainda quer aprender?
Quero aprofundar meus conhecimentos sobre governança corporativa e conselhos de administração, e entender como posso contribuir para que grandes empresas e lideranças ampliem o acesso de profissionais negros aos espaços de decisão. Tenho interesse em transformar minha experiência em liderança em uma contribuição mais ampla, ajudando organizações a desenvolver talentos, abrir oportunidades e construir caminhos para que mais pessoas possam ocupar posições como a minha.
Uma palavra para 2027?
Critério. Porque, em um mundo com cada vez mais possibilidades abertas pela tecnologia, o diferencial não será apenas o que somos capazes de fazer, mas saber avaliar o que realmente vale a pena fazer.
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