Central de Outdoor demonstra cautela sobre 'distritos digitais' no centro de São Paulo

Para a entidade a revitalização do eixo Ipiranga-São João exige critérios técnicos que evitem a flexibilização desordenada da Lei Cidade Limpa

Adnews

25.02.2026

Central de Outdoor demonstra cautela sobre 'distritos digitais' no centro de São Paulo
Painéis serão instalados no cruzamento da Avenida Ipiranga com São João/Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A proposta da Prefeitura de São Paulo de criar distritos de mídia digital na região central — projeto que vem sendo chamado de "Times Square paulistana" — gerou reações no mercado de publicidade exterior. Em nota oficial, a Central de Outdoor defendeu que o debate em torno da modernização visual da capital não deve ser limitado a uma escolha simples entre inovação e poluição visual, mas sim pautado por uma estratégia urbana estruturada.

O posicionamento ocorre após o Conpresp (Conselho de Patrimônio Municipal) dar sinal verde, na última segunda-feira (23), ao projeto Eixo São João - Boulevard São Paulo. A iniciativa prevê a instalação de telões eletrônicos de grandes proporções no cruzamento das avenidas Ipiranga e São João, inspirado no modelo turístico e luminoso de Nova York.

Detalhes do Projeto e Regulação

Com previsão de início para março e conclusão em até quatro meses, a obra será financiada inteiramente pela iniciativa privada, sem custos para os cofres públicos. Segundo a gestão municipal, o foco dos painéis será estritamente cultural e institucional, sem a comercialização de anúncios publicitários — uma tentativa de alinhar a proposta à Lei Cidade Limpa, que desde 2007 restringe a propaganda nas ruas para ordenar a paisagem paulistana.

Apesar da aprovação do conselho de patrimônio, o Boulevard São Paulo ainda precisa do aval da CPPU (Comissão de Proteção à Paisagem Urbana), órgão responsável por garantir que as intervenções não firam as diretrizes ambientais e visuais da cidade.

Equilíbrio entre Evolução e Responsabilidade

Para a liderança da Central de Outdoor, a importação de modelos internacionais precisa de uma análise profunda sobre o impacto social e econômico. O presidente da entidade, Halisson Pontarola, destacou que a evolução da comunicação urbana deve ser um instrumento de regeneração dos centros degradados, mas sem abrir mão do planejamento.

A discussão coloca em xeque o futuro da identidade visual de São Paulo em 2026: de um lado, o desejo da gestão pública de fomentar o turismo e o comércio no Centro; do outro, a preocupação do setor e de urbanistas em preservar o legado de uma das legislações de ordenamento urbano mais respeitadas do mundo.

Leia na íntegra:

POSICIONAMENTO - Central de Outdoor sobre Distritos de Mídia

*por Halisson Pontarola, Presidente da Central de Outdoor

O debate sobre Distritos de Mídia digital, informalmente batizados e americanizados como “Times Square”, não pode ser reduzido a uma dicotomia simplista entre “modernização” e “impacto visual desordenado”. Trata-se, na realidade, de discutir modelo urbano, governança, curadoria qualificada e responsabilidade pública.

Essa discussão precisa ser conduzida com embasamento técnico e visão de longo prazo. Não se trata de replicar modelos estrangeiros de forma aleatória, tampouco de flexibilizar regras sem critérios claros. Trata-se de compreender como a comunicação urbana pode evoluir de maneira responsável, estruturada e integrada ao planejamento da cidade, contribuindo efetivamente para a regeneração econômica e social dos centros urbanos.

A Central de Outdoor, maior associação de mídia exterior do Brasil, defende que a discussão sobre leis regulatórias e, principalmente, sobre os distritos de mídia digital precisa ser conduzida com maturidade e base técnica.

Quando falamos em distritos de mídia, falamos de territórios delimitados, com regras específicas, governança clara, curadoria urbana e contrapartidas objetivas ao poder público e à população. Esse é o ponto central.

O conceito de mídia regenerativa parte de um princípio simples: a publicidade não deve apenas ocupar espaço, e sim devolver valor ao espaço.

Em um modelo bem estruturado, os distritos de mídia podem gerar benefícios concretos ao ecossistema urbano:

Revitalização de áreas degradadas

A concentração de ativos digitais em regiões previamente definidas aumenta a circulação de pessoas, amplia a sensação de segurança e estimula a ocupação noturna, contribuindo para a recuperação de centros urbanos que perderam vitalidade econômica.

Estímulo ao comércio local

O aumento do fluxo impacta diretamente bares, restaurantes, varejo, hotelaria e serviços. A mídia funciona como catalisadora de movimento e permanência.

Geração de empregos diretos e indiretos

Projetos dessa natureza envolvem engenharia, tecnologia, manutenção, criação de conteúdo, produção cultural, eventos e serviços urbanos. O OOH é o terceiro meio para o qual se destinam as verbas publicitárias. O relatório Cenp-Meios ratifica que o OOH manteve o terceiro lugar, com participação de 11,8%, equivalente a mais de R$ 3 bilhões faturados. Já pelo levantamento da Tendências, os players de mídia OOH faturam, aproximadamente, R$ 5,5 bilhões.

A penetração do OOH, portanto, chega a 89% do território nacional. Assim, por isso mesmo, o meio tem capacidade de desdobramentos na economia: R$ 1 milhão em investimento no OOH gera R$ 835 milhões para o PIB, aponta o relatório da Tendências.

Atração de turismo e eventos

Os distritos de mídia tornam-se pontos de referência simbólica, fortalecendo a imagem da cidade e ampliando seu potencial turístico e de entretenimento.

Valorização imobiliária estruturada

A requalificação do entorno impacta positivamente imóveis e ativos comerciais, desde que acompanhada de planejamento urbano e equilíbrio regulatório.

Arrecadação indireta e desoneração do poder público

Como são custeados pela iniciativa privada e vinculados a termos de cooperação transparente, incluindo doação de mídia ao poder público, esses projetos entregam infraestrutura, iluminação, conservação e intervenções urbanas sem onerar o orçamento municipal.

Produção de conteúdo cultural e institucional

A obrigatoriedade de veiculação de conteúdos públicos, culturais e comunitários amplia o papel social da mídia. Integração entre tecnologia e urbanismo

Cidades que desejam competir globalmente precisam integrar inovação, comunicação e desenvolvimento urbano de forma coordenada.

É fundamental destacar que a modernização regulatória constitui etapa primordial para que as cidades brasileiras possam se adaptar às novas tecnologias e aos novos modelos de comunicação urbana, preservando princípios de ordenamento, equilíbrio estético e responsabilidade social, ao mesmo tempo em que viabiliza ganhos econômicos, inovação e benefícios estruturais para a cidade.

O risco não está no suposto potencial de poluição visual, mas sim na ausência de planejamento, diretrizes claras e governança adequada. O verdadeiro risco está em perder a oportunidade de tangibilizar, de forma estruturada e mensurável, todos os ganhos urbanos, econômicos e sociais que o conceito de mídia regenerativa pode proporcionar à cidade.

Modelos planejados, com governança adequada, transparência e participação institucional dos setores interessados podem gerar equilíbrio entre estética urbana e dinamismo econômico olhando holisticamente para o conjunto de leis que ordenam também outros formatos de mídia fora dos distritos. A alternativa não é proibir, mas ordenar com inteligência.

Quando bem regulamentadas, as leis que tratam do tema da mídia OOH (Out of Home) e dos distritos de mídia não competem com a cidade, elas passam a integrar uma estratégia maior de desenvolvimento econômico, cultural e turístico.

O debate precisa sair da superficialidade estética e avançar para uma análise sistêmica de impacto urbano. O debate não pode permanecer limitado à narrativa e rotulagem simplista de ‘poluição visual’; é necessário avançar para uma abordagem sistêmica, fundamentada em planejamento, governança, impacto econômico e responsabilidade pública, avaliando os efeitos estruturais sobre o olhar do desenvolvimento urbano moderno que funciona no mundo todo.

As cidades que prosperam são aquelas que compreendem que comunicação, tecnologia e urbanismo não competem entre si, mas se complementam.

Halisson Pontarola Presidente da Central de Outdoor

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