Creator Economy avança no Brasil, movimenta bilhões e amplia demanda por blindagem jurídica
Com mais de 3,8 milhões de criadores de conteúdo ativos e crescimento acelerado da monetização digital, mercado passa a enfrentar desafios relacionados a contratos, tributação, reputação e inteligência artificial
26.06.2026

A expansão da Creator Economy (economia dos criadores de conteúdo) no Brasil começa a produzir efeitos consistentes para além do mercado publicitário tradicional e já movimenta escritórios especializados em direito digital, proteção de imagem e gestão de crise reputacional. Impulsionado pela consolidação da publicidade digital e pela transformação dos influenciadores em ativos comerciais estratégicos para as marcas, o setor movimentou R$ 20 bilhões no Brasil em 2024, o que representou uma alta de 43% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da Reglab.
O estudo aponta ainda que o País possui cerca de 3,8 milhões de criadores de conteúdo, o equivalente a aproximadamente 16% dos influenciadores do mundo. Esse avanço consolidou o Brasil entre os principais mercados globais de influência digital. Dados complementares da HypeAuditor indicam que o País reúne atualmente cerca de 4,4 milhões de creators ativos especificamente no Instagram, ficando atrás apenas dos Estados Unidos nessa métrica de volume de perfis.
Amadurecimento de Mercado e Riscos Corporativos
O crescimento acelerado do setor, no entanto, ocorreu em um ambiente ainda pouco estruturado do ponto de vista jurídico. De acordo com Renata Simon, sócia de M&A e Societário e membro do Comitê Executivo do VBSO Advogados, boa parte desse mercado cresceu rápido demais e sem o acompanhamento jurídico proporcional à relevância dos negócios fechados.
A avaliação da especialista é de que a Creator Economy entrou em uma fase de amadurecimento, na qual a audiência digital deixou de representar apenas métrica de vaidade ou relevância na internet e passou a ser tratada como um ativo econômico real. Na prática, isso significa que os influenciadores passaram a concentrar riscos operacionais tradicionalmente associados a empresas estruturadas, tais como:
Exposição reputacional permanente: Impacto imediato na imagem pública por declarações ou posicionamentos.
Responsabilidade civil sobre publicidade: Cobrança por órgãos reguladores quanto à entrega e veracidade do que é anunciado.
Tratamento de dados pessoais: Necessidade de adequação aos critérios da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) em sorteios, canais de transmissão e cadastros.
Disputas de propriedade intelectual: Uso não autorizado de músicas, trechos de vídeos, artes ou marcas registradas.
Entre os temas que mais têm chegado aos escritórios de advocacia especializados estão o uso indevido de imagem, a ausência de cláusulas de proteção e exclusividade contratual, a veiculação de publicidade sem identificação clara de patrocínio (publipost) e problemas de conformidade com a LGPD.
Gestão de Crise e o Impacto da Inteligência Artificial
A preocupação com a segurança jurídica ganhou força nos últimos meses diante do aumento de crises envolvendo influenciadores e marcas nas redes sociais. Diante desse cenário, as empresas contratantes passaram a revisar seus contratos padrão, exigindo cláusulas reputacionais e de conduta moral mais rígidas, além de ampliar o monitoramento preventivo sobre a exposição digital de seus parceiros comerciais.
A velocidade das plataformas digitais reduziu significativamente o tempo de reação em situações de crise. Uma polêmica nasce e se espalha na internet em questão de poucas horas e, dependendo do tamanho e do alcance do criador de conteúdo, o impacto negativo pode atingir contratos vigentes, paralisar campanhas publicitárias inteiras e derrubar o valor de mercado de marcas associadas quase de imediato.
Outro ponto crítico que passa a entrar no radar de proteção do mercado envolve o avanço da Inteligência Artificial (IA) e a manipulação de conteúdos audiovisuais. O surgimento de deepfakes (tecnologia de síntese de imagens ou sons humanos usando IA), perfis clonados e o uso indevido de identidade digital para fraudes ampliaram as frentes de preocupação de criadores e empresas com a blindagem jurídica da própria imagem. Apesar da expansão do setor, a assessoria jurídica conclui que ainda existe uma lacuna importante de suporte especializado para negócios nativos da economia digital.
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