Empresas aceleram recuperação de crédito no fim de 2025 para reforçar caixa

Alta dos juros e aumento da inadimplência levam credores a antecipar negociações e cobranças antes do fechamento do ano

Adnews

13.10.2025

Empresas aceleram recuperação de crédito no fim de 2025 para reforçar caixa

O último trimestre de 2025 vem sendo marcado por um movimento intenso de recuperação de crédito entre empresas brasileiras, após um ano de juros altos e crescimento econômico modesto. Credores B2B aceleram negociações e cobranças para reforçar o caixa antes do fechamento do exercício.

Segundo o Índice Global de Recuperação de Crédito B2B (IGR), mais de 82% das dívidas com até 10 dias de atraso são recuperadas, mas o percentual cai para pouco mais de 50% quando o atraso ultrapassa 20 dias. “O quarto trimestre concentra os maiores esforços de cobrança e renegociação, porque é quando as empresas tentam corrigir perdas e preparar o balanço para o ano seguinte”, afirma Silvano Boing, CEO da Global, uma das maiores recuperadoras de crédito B2B do país.

O cenário reflete o chamado “ciclo de retenção de liquidez”: em um ambiente de incerteza, empresas preservam caixa e adiam pagamentos, enquanto credores intensificam ações para reduzir perdas. “Esse é o período em que as empresas fazem o acerto de contas, revisam provisões e buscam recompor liquidez antes de entrar em 2026”, explica o executivo.

Crédito caro e caixa pressionado

A economia brasileira atravessou o ano sob juros acima de 14%, conforme o Banco Central. Apesar da inflação controlada, o custo do capital limitou investimentos e alongamento de dívidas. O PIB deve crescer cerca de 2,1% em 2025, ritmo insuficiente para aliviar o endividamento. A Serasa Experian registrou mais de 8 milhões de empresas negativadas em julho, um recorde histórico.

“Com a dificuldade de captar, muitas empresas estão financiando suas operações por meio da recuperação de valores vencidos”, afirma Boing. O movimento se intensifica no fim do ano, especialmente em comércio, indústria e serviços, setores que buscam fechar o balanço com menos inadimplência.

O impacto dos juros altos

O crédito empresarial encolheu 4,2% em termos reais até setembro, segundo o Banco Central — o maior recuo desde 2017. Com o financiamento mais caro, empresas de médio porte alongaram prazos com fornecedores, pressionando o fluxo de caixa. “A inadimplência cresceu não por descuido, mas por necessidade: muitos negócios tiveram de escolher entre pagar insumos ou honrar empréstimos”, diz Boing.

Os setores mais afetados foram construção civil e indústria de transformação, enquanto serviços mostraram maior resiliência. As dívidas empresariais somavam R$ 190 bilhões no meio do ano, com expectativa de estabilidade até dezembro, impulsionada por renegociações e pelo pagamento do 13º salário.

Recuperação rápida e digital

A velocidade de ação é decisiva na recuperação de crédito. Débitos regularizados nas duas primeiras semanas após o vencimento quase não geram perda; após 30 dias, a taxa de sucesso cai à metade. “A janela de maior eficiência é curta. Empresas que estruturam régua de cobrança digital e iniciam o contato logo após o vencimento têm resultado muito superior”, destaca Boing.

A digitalização tem sustentado esse avanço. Em 2024, a Global registrou 43,1 milhões de acionamentos multicanal — via WhatsApp, e-mail, telefone e inteligência artificial — e o volume se manteve em alta em 2025. O WhatsApp já responde por mais da metade dos acordos de pagamento.

Empresas também intensificaram o uso de dados e automação, segmentando devedores e personalizando abordagens conforme histórico e volume de compras. “Essa inteligência evita desperdício de esforço e permite priorizar valores com maior chance de retorno”, detalha o executivo.

Expectativas para 2026

Com a expectativa de juros menores, mas ainda altos, o próximo ano deve marcar uma recomposição gradual da liquidez. A combinação de inflação controlada e crédito restrito tende a favorecer quem manteve disciplina financeira. “A empresa que entra em 2026 sem resolver seus atrasos carrega um passivo silencioso que compromete a capacidade de crescer”, conclui Boing.

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