ESG saiu das planilhas, mas ainda não entrou de vez nas políticas públicas

Com tecnologia, dados e propósito público, as GovTechs despontam como ponte entre ESG e políticas públicas, ajudando governos a transformar diretrizes sustentáveis em impacto real para a sociedade

Adnews

22.12.2025

ESG saiu das planilhas, mas ainda não entrou de vez nas políticas públicas

Por Dra. Grazi Carvalho - CEO da LICI GOVTECH

O ESG já se consolidou como uma pauta central no setor privado, mas ainda avança lentamente dentro da gestão pública. Enquanto grandes empresas buscam alinhar seus negócios a critérios ambientais, sociais e de governança, governos municipais e estaduais enfrentam dificuldades em transformar princípios em prática, especialmente pela falta de dados estruturados e integração entre planejamento e execução.

É importante destacar que o ESG é uma política corporativa adotada pelo setor privado, enquanto os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) representam a política global da ONU voltada ao setor público, servindo como guia para prefeituras e governos implementarem ações sustentáveis e inclusivas.

Nesse cenário, as GovTechs, startups que desenvolvem soluções tecnológicas para o setor público, surgem como agentes essenciais para fazer o ESG sair do discurso e entrar de vez nas políticas públicas.

O movimento de amadurecimento das GovTechs em relação ao ESG já é evidente. Há alguns anos o tema era visto apenas como uma tendência corporativa. Hoje, ele faz parte da essência dessas startups que trabalham com inovação pública. O diferencial dessas empresas está justamente em integrar os pilares ambiental, social e de governança ao próprio modelo de negócio. Quando uma GovTech promove transparência, eficiência e participação social por meio da tecnologia está aplicando na prática o ESG dentro e fora do setor público.

Enquanto em diversos segmentos o ESG ainda aparece como ferramenta de marketing, nas GovTechs o conceito é mais concreto. Essas companhias nascem com propósito público, e esse propósito, por natureza, é ambiental, social e de governança. Quando uma startup desenvolve tecnologia para aumentar a transparência da gestão, otimizar recursos naturais ou facilitar o acesso da população a serviços públicos, ela está executando o ESG em sua forma mais genuína: a de gerar valor coletivo.

O posicionamento de marca continua importante, mas como consequência da prática, e não como ponto de partida. O ESG está no DNA dessas empresas, e não apenas no discurso institucional. No entanto, um dos maiores desafios do ESG, tanto em empresas quanto em governos, é medir o impacto real das ações. No caso das GovTechs, a mensuração vai além dos indicadores financeiros: ela se dá pela capacidade de gerar eficiência, transparência e sustentabilidade na administração pública.

Esse tipo de companhia atua como uma ponte entre inovação tecnológica e políticas públicas. No campo ambiental, ajudam municípios a planejar e monitorar indicadores de sustentabilidade, eficiência energética e uso racional de recursos. No aspecto social, fortalecem a inclusão digital e melhoram o acesso a serviços públicos. E no pilar de governança, modernizam processos administrativos, estimulam o controle social e garantem conformidade com leis e marcos regulatórios, como a Lei 14.133/2021.

Apesar do avanço desse tipo de startups, o ESG ainda enfrenta barreiras estruturais para se consolidar no setor público. A principal delas é a falta de maturidade institucional em muitos municípios brasileiros. A cultura de dados ainda é incipiente e a resistência à inovação é alta, além disso, há pouca integração entre planejamento, execução e monitoramento. Embora existam métricas robustas, como os próprios ODS, que são os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, uma agenda global estabelecida pela ONU em 2015 com 17 objetivos para acabar com a pobreza, proteger o planeta e garantir paz e prosperidade para todos até 2030, o problema está na coleta e padronização das informações. Sem dados confiáveis e acessíveis, é difícil demonstrar impacto e atrair investimentos de importância socioambiental. É justamente nesse ponto que as GovTechs se tornam estratégicas: elas viabilizam a consolidação de dados e criam mecanismos de gestão baseados em evidências.

O caminho do ESG nas GovTechs é de amadurecimento e não de esvaziamento. Essas empresas nasceram para resolver problemas públicos de forma ética, sustentável e inovadora. Representam o ponto de convergência entre o propósito do setor público e a eficiência do setor privado. Enquanto aplicam os princípios do ESG na sua própria gestão, as GovTechs ajudam os governos a implementar políticas alinhadas aos ODS, traduzindo as metas globais em resultados locais. Quando uma GovTech entrega soluções que aumentam a transparência, fortalecem a governança e melhoram a qualidade de vida nas cidades, ela está transformando o território em um ecossistema inteligente, ético e sustentável. O ESG já saiu das planilhas, mas para chegar de vez às políticas públicas, precisa de tecnologia, dados e vontade de transformar gestão em impacto real.

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