Especial “Mulheres em Destaque”: Daniela Mozer e a força do coletivo que redefine o protagonismo feminino na publicidade
Cofundadora do Misses At Work lidera comunidade que transforma apoio multilateral em inteligência estratégica para mulheres no mercado de comunicação
15.05.2026

Daniela Mozer é uma voz que ecoa a necessidade de mudança no mercado publicitário, mas ela prefere dizer que sua liderança é fruto de um movimento coletivo. Com uma visão crítica e propositiva, a executiva acredita que o suporte entre mulheres é o combustível para desconstruir padrões históricos de um setor moldado sob métricas e comportamentos masculinos. Para ela, o sucesso do Misses At Work não é uma conquista individual, mas o resultado de uma "irmandade que se materializou em plataforma".
A história do coletivo começou de forma quase instintiva em 2018. Ao observar o silêncio que recebia as solicitações de ajuda de mulheres em grupos corporativos mistos, enquanto as demandas masculinas eram prontamente atendidas, Daniela decidiu criar um espaço exclusivo. “Eu não criei o movimento! O movimento que me criou”, afirma. O que nasceu como um grupo de trocas pontuais transformou-se, durante a pandemia, em um oásis de apoio emocional e profissional para mulheres sobrecarregadas por layoffs e pela natureza de cuidadoras.
Em 2019, Daniela uniu forças com Kika Pontes, sua "sócia real oficial", para dar estrutura e missão clara ao que hoje é um ecossistema de serviços. O crescimento foi exponencial: o limite técnico dos grupos de mensagens gerou filas de espera com mais de 500 profissionais. “Jamais vislumbramos que teríamos esse oásis que é estar entre mulheres e em paz! Mas sobretudo criando uma plataforma que escala a nossa relação para as demais”, destaca a cofundadora.
Hoje, o Misses At Work atua na promoção do empoderamento e desenvolvimento profissional, combatendo a sobrecarga da mulher moderna que equilibra realização na carreira com responsabilidades familiares e padrões estéticos. Sob a gestão de Daniela e Kika, a comunidade transformou-se em um banco de dados vivo, gerando iniciativas como o Misses at Jobs e parcerias de conteúdo.
O resgate do feminino no mercado
Para Daniela, o papel da mulher na comunicação atravessa um momento de resgate. Ela observa que a entrada em massa do gênero no setor, a partir dos anos 1980, exigiu adaptações severas a um sistema "paternalista". “Eu tenho uma lista de pontos onde eu mesma me ‘masculinizei’ para sobreviver ou me impor. Nós estamos em resgate de nós mesmas, corajosamente assumindo o que gostamos e queremos fazer sem dar bola para o status quo”, analisa. Esse resgate já impacta a publicidade de massa, resultando em marcas que pensam melhor sobre seus produtos e na rejeição de campanhas sexistas. No entanto, os desafios persistem na forma de "pequenas violências" que limitam a ascensão de lideranças femininas e a igualdade salarial.
A aposta atual do coletivo é a Grande Pesquisa Misses, um censo detalhado sobre a realidade das mulheres na comunicação brasileira. O objetivo é usar dados para co-construir um ecossistema que compreenda desafios reais e oriente ações práticas. Daniela Mozer defende que a solução para as desigualdades é, teoricamente, simples: normalizar.
“Quem está conosco, mulheres, homens aliados e todos outros gêneros, sabem que não nos lamentamos, mas que agimos, o foco é puramente propositivo”, conclui Daniela. O Misses At Work segue provando que, no universo corporativo, nenhuma luta precisa ser solitária quando se tem uma rede de apoio multilateral ao lado.
Confira a Entrevista na íntegra com Daniela Mozer:
** O que fez você criar esse movimento?** ** Daniela**: Eu não criei o movimento! O movimento que me criou. Em meados de 2018 estávamos eu e muitas mulheres executivas do mercado num grupo misto - e ali era para as trocas de contatos, organogramas e temas diversos. Foi por obviedade: quando uma mulher pedia uma ajuda era um silêncio abissal, e quando era um homem as respostas vinham. Eram mulheres respondendo mulheres, e respondendo homens, e quase nunca o contrário.
Não rolava uma troca equilibrada, e vamos lá, zero surpresas. Depois de alguns episódios, inclusive de NUDES de mulheres compartilhados por lá, eu só criei um grupo e chamei as mulheres. Dali em diante éramos um grupo sem menor compromisso com nenhuma missão, mas a pandemia nos tornou uma comunidade de apoio multilateral, afinal as mulheres foram ultra penalizadas naquela fase, desde layoffs até a nossa natureza de cuidadoras perdendo pais, mães, maridos, e muita violência rolou naqueles anos, sério!
A Kika Pontes, hoje minha sócia real oficial, simplesmente abraçou igualitariamente os desafios antes disso, em 2019 quando nos conhecemos no painel Mulheres Digitais do SP Tech Week, e criamos juntas uma estrutura com missão clara! A gente tinha limite de 256 mulheres, e não íamos criar outros grupos de whatsapp, chegamos a ter mais de 500 mulheres numa fila de espera. Pensa num banco de dados, onde a gente consegue mapear os temas mais abordados dentro da comunidade? Assim veio o Misses at Jobs, criado pela Kelly Fray conosco, os demais serviços Misses, os eventos, o portal, e agora o Misses at News. Ambas, Kika e eu, jamais vislumbramos que teríamos esse oásis que é estar entre mulheres e em paz! Mas sobretudo criando uma plataforma que escala a nossa relação para as demais - o Misses é reflexo de uma amizade e cumplicidade entre mim e Kika, e que extrapola a irmandade, se materializando em outras relações.
Como você analisa o papel da mulher no mercado de comunicação?
Daniela: É uma pergunta que sonho que não será mais feita daqui algumas décadas. A mulher é maioria no mercado de comunicação, e no Mundo, mas nossa entrada em massa no mercado é recente, vem dos anos 80 para cá a revelia do setor. Nós adentramos onde já haviam padrões masculinos, além de uma estrutura sólida de metas, métricas, regras e comportamentos, o que chamamos “paternalismo” é todo um sistema que ainda não aprendeu a balancear os skills de homens e mulheres, e claro que isso penaliza um dos lados, não só no trabalho, mas na sociedade. Eu tenho uma lista de pontos onde eu mesma me “masculinizei” para sobreviver ou me impor, e cada uma de nós lida de forma distinta.
Acho que quem manteve hegemonia em qualquer coisa naturalmente tem dificuldade em lidar formas diferentes de enxergar a vida e fazer as coisas. Olhando para hoje eu vejo o papel que as mulheres já exercem à milênios numa encruzilhada: baby-boomers e X, como eu, em contato com Milleniuns, Zs, escolhendo! E abandonando legados femininos exclusivos como maternidade, submissão e moldes. Nós estamos em resgate de nós mesmas, corajosamente assumindo o que gostamos e queremos fazer sem dar bola para o status quo, e em transferência isso acaba afetando a comunicação de massa. Hoje conseguimos que campanhas sexistas não resultem, que Marcas pensem melhor sobre produtos e serviços lançados, e como serão expostos aos consumidos e por quem, além de uma nova economia onde nós somos o foco central.
Quais são os desafios? O que ainda precisa mudar?
Daniela: Vamos pontualmente para o atual momento, onde há uma escalada de ataques violentos ao feminino. Está claríssimo os desafios e o que precisa mudar - no nosso setor existem essas “pequenas” violências que limitam mulheres não só à assumirem lideranças, mas simplesmente assumirem suas carreiras, aplicarem seus talentos de forma natural, ter uma qualidade de vida compatível, ser recompensada e respeitada como qualquer profissional em sua posição à despeito de gênero. Parece uma equação simples: normalizar. Mas não é. No ano passado lançamos em beta a Grande Pesquisa Misses, com o objetivo mapear trajetórias, desafios e aspirações das mulheres e pessoas identitárias femininas na comunicação, marketing, publicidade e mídia no Brasil, para imergir na rotina e na realidade das mulheres no setor publicitário; o censo visa coletar informações importantes e abrangentes para co-construir um ecossistema com melhor compreensão dos desafios femininos, e a partir disso, muitas das iniciativas que miramos serão orientadas pelo dados coletados, para que efetivamente a gente se mantenha na missão da comunidade Misses at Work - quem está conosco, mulheres, homens aliados e todos outros gêneros, sabem que não nos lamentamos, mas que agimos, o foco é puramente propositivo.
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