Falta de planejamento financeiro ainda é o principal obstáculo para startups brasileiras
Estudo mostra que apenas 17% das startups no país possuem planejamento financeiro estruturado antes de buscar investimento; ausência dessa etapa está ligada à alta taxa de mortalidade do setor.
30.10.2025

Mesmo com o amadurecimento do ecossistema de inovação, o planejamento financeiro segue como um dos principais gargalos das startups brasileiras. Um levantamento do Distrito e da Associação Brasileira de Startups (Abstartups) mostra que apenas 17% das empresas emergentes realizam algum tipo de planejamento financeiro estruturado antes de buscar rodadas de captação. A ausência dessa etapa tem relação direta com a alta taxa de mortalidade do setor — cerca de 65% das startups encerram suas atividades antes de completar cinco anos, segundo o IBGE.
Para Marilucia Silva Pertile, cofundadora da Start Growth e mentora de startups, a falta de preparo financeiro é uma das causas mais recorrentes de insucesso nas rodadas de investimento.
“Muitos empreendedores focam no produto e na tecnologia, mas deixam de planejar o básico: como sustentar a operação e gerar caixa previsível após o aporte. Sem isso, o capital captado se transforma em combustível para uma corrida sem direção”, afirma.
Falhas de gestão e uso ineficiente do capital
Um relatório da CB Insights, que analisou mais de 110 startups que falharam globalmente, indica que 38% dos negócios quebram por falta de capital ou má gestão financeira — a segunda causa mais comum de fracasso, atrás apenas da ausência de demanda de mercado.
Segundo Pertile, o problema se repete no Brasil, onde a maioria das startups ainda carece de processos internos para controlar custos, definir runway (tempo de sobrevivência do caixa) e mensurar indicadores como CAC e LTV.
“O empreendedor capta, mas não define gatilhos de crescimento. Gasta com contratações, ferramentas ou marketing sem validação. Quando percebe, o caixa acabou e o negócio ainda não provou tração”, observa.
Ela alerta que o erro mais comum é confundir capital de risco com fôlego ilimitado.
“O dinheiro do investidor deve servir para testar e acelerar hipóteses que já deram certo, não para cobrir a falta de gestão. Planejar o uso dos recursos é parte essencial da maturidade empreendedora.”
O custo de ignorar o planejamento
Um estudo da Endeavor e da Ernst & Young (EY) aponta que apenas 23% das startups brasileiras possuem controles financeiros mensais estruturados. O índice é ainda mais baixo entre empresas em fase inicial, que costumam administrar o caixa de forma informal ou reativa.
De acordo com pesquisa do Distrito, 73% dos empreendedores afirmam não saber com precisão por quanto tempo sua empresa sobreviveria sem novo aporte. Essa falta de clareza compromete a previsibilidade do negócio e afasta investidores, que buscam segurança sobre o retorno do capital investido.
Uma nova mentalidade para 2026
Para Pertile, a mudança necessária é cultural.
“O mercado está mais exigente. Investidores querem ver governança, previsibilidade e clareza sobre o destino de cada real. Até 2026, as startups que não tratarem suas finanças com o mesmo rigor que tratam o produto terão dificuldade de acessar capital”, afirma.
Ela defende que o planejamento financeiro seja incorporado desde o primeiro ciclo operacional, ainda antes da busca por investimento.
“A startup precisa chegar à mesa do investidor com números claros sobre custo de aquisição, margem bruta, projeção de receita e tempo de runway. É isso que dá confiança e diferencia uma boa ideia de um bom negócio”, conclui.
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