IA avança no RH, mas adaptação às regras locais ainda limita integração nas empresas

Dados de mercado mostram crescimento do uso da tecnologia, enquanto demandas de RH e DP revelam desafios ligados a jornada, assinaturas, eSocial e governança

Adnews

23.10.2026

IA avança no RH, mas adaptação às regras locais ainda limita integração nas empresas

A inteligência artificial avança nas empresas brasileiras, mas transformar esse uso em processos realmente integrados à operação ainda exige adaptação às particularidades de cada mercado.

No RH e no Departamento Pessoal, esse desafio passa por regras trabalhistas, jornada, documentação, proteção de dados e permissões internas.

Segundo a pesquisa TIC Empresas 2025, 17% das empresas brasileiras utilizaram inteligência artificial em 2025, ante 13% no ano anterior. Entre as grandes empresas, a participação chegou a 50%.

Ao mesmo tempo, um levantamento da PwC mostra que a tecnologia já faz parte da rotina de muitos profissionais. No Global Hopes and Fears 2025, 71% dos trabalhadores brasileiros entrevistados disseram ter utilizado IA no trabalho nos 12 meses anteriores, enquanto 10% afirmaram usar agentes de IA diariamente.

O contraste ajuda a mostrar que adoção individual e integração empresarial não avançam necessariamente na mesma velocidade.

IA precisa entender o contexto brasileiro

No RH, a discussão passa cada vez mais pela chamada tropicalização da tecnologia.

Isso significa adaptar sistemas às regras e processos específicos do país.

No Brasil, isso inclui questões como legislação trabalhista, obrigações do eSocial, controle de jornada, fuso horário e proteção de dados.

Uma ferramenta pode ser tecnicamente avançada e ainda assim falhar se não estiver preparada para lidar com essas particularidades.

Demandas mostram onde a digitalização encontra atrito

Um levantamento interno da Factorial analisou demandas registradas em sua base brasileira no terceiro semestre de 2026.

Entre os temas identificados, 495 empresas apresentaram demandas relacionadas a documentos e assinaturas eletrônicas, especialmente comprovação e consulta do histórico de assinaturas.

Outras 158 empresas registraram questões ligadas ao controle correto de pausas em jornadas que atravessam a meia-noite.

Também foram identificadas 68 empresas com demandas relacionadas à indicação clara do fuso horário nos registros de entrada e saída.

Os números ajudam a mostrar como a digitalização do Departamento Pessoal depende de detalhes operacionais que podem parecer pequenos, mas têm impacto direto no funcionamento das plataformas.

Automação sozinha não resolve

A adoção de inteligência artificial no RH não se resume à presença de assistentes capazes de responder perguntas.

Para gerar valor, a tecnologia precisa estar conectada aos dados, políticas e processos reais da empresa.

Isso significa respeitar permissões, regras internas e limites definidos pela organização.

“A inteligência artificial precisa considerar o contexto em que a empresa opera”, afirma Renan Conde, CEO Brasil da Factorial.

Segundo ele, a tecnologia pode assumir parte do trabalho operacional e dar mais agilidade às equipes, mas deve funcionar com regras claras e supervisão adequada.

Governançaganha peso

À medida que sistemas de IA passam a interagir com informações corporativas, governança e segurança se tornam parte central da discussão.

No Brasil, a LGPD estabelece regras para tratamento de dados pessoais.

Já na União Europeia, o AI Act cria obrigações específicas para determinados sistemas e usos de inteligência artificial, de acordo com sua classificação e contexto de aplicação.

Para as empresas, isso significa que implementar IA também exige definir permissões, responsabilidades e mecanismos de acompanhamento.

RH entra em uma nova etapa de digitalização

A discussão, portanto, deixa de ser apenas sobre produtividade.

O desafio passa a ser combinar automação, segurança, contexto local e responsabilidade humana.

“O potencial da inteligência artificial não está apenas em fazer mais em menos tempo. Está em ajudar as equipes a trabalhar com informações mais acessíveis e menos repetitivas, sem perder de vista o contexto e a capacidade de decisão”, afirma Conde.

Nesse cenário, a próxima etapa da IA no RH parece menos ligada ao número de ferramentas disponíveis e mais à capacidade de integrá-las de forma confiável aos processos que já fazem parte da operação.

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