IA deixa de ser diferencial isolado e muda critérios do Venture Capital
Bossa Gest aponta que startups chegam aos investidores com mais receita, clientes pagantes e eficiência mensurável, enquanto fundos elevam exigência sobre diferenciais competitivos
15.10.2026

A inteligência artificial deixou de aparecer apenas como uma tese específica de investimento e passou a fazer parte da base de grande parte das startups analisadas por fundos de Venture Capital.
Segundo a Bossa Gest, braço de gestão regulado pela CVM da Bossa Invest, a principal mudança percebida atualmente está menos na quantidade de empresas que utilizam IA e mais no nível de maturidade com que esses negócios chegam ao mercado em busca de capital.
Se há cerca de um ano predominavam protótipos e provas de conceito, agora surgem com mais frequência startups que já apresentam receita, clientes pagantes e ganhos de eficiência mensuráveis associados ao uso da tecnologia.
“A inteligência artificial deixou de ser uma tese específica e passou a ser uma premissa. Hoje é difícil encontrar, entre as empresas que analisamos, uma que não tenha IA em algum ponto do produto ou da operação”, afirma Paulo Tomazela, CIO da Bossa Gest.
Segundo o executivo, essa mudança obriga investidores a olhar menos para a simples presença de IA e mais para a qualidade do negócio construído ao redor dela.
Venture Capital concentra capital em empresas de IA
A transformação acontece em um momento de forte movimentação global no mercado de Venture Capital.
No primeiro semestre de 2026, os investimentos globais somaram US$ 560,4 bilhões, segundo dados da KPMG citados pela Bossa Gest.
Apenas no segundo trimestre, três empresas de inteligência artificial concentraram US$ 84,4 bilhões em aportes, o equivalente a 37,1% de todo o capital investido mundialmente no per íodo.
O cálculo considera rodadas da Anthropic, Project Prometheus e DeepSeek, diante de um mercado global de US$ 227,4 bilhões no trimestre.
Esse cenário mostra que a disputa pelos grandes modelos de IA já exige volumes de capital difíceis de replicar em outros mercados.
Para Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest, a oportunidade brasileira tende a estar em outro ponto da cadeia.
“A corrida dos grandes modelos é de outra escala de capital. A oportunidade brasileira está nas aplicações, em usar essa tecnologia para resolver problemas concretos da nossa economia, que são enormes”, afirma.
Investidor quer saber se a IA é parte do negócio ou apenas ferramenta
Com o avanço da tecnologia, fundos passaram a analisar não apenas se a empresa utiliza IA, mas o quanto ela é essencial para a proposta de valor.
Tomazela resume essa avaliação com uma pergunta:
“Se tirarmos a IA, o negócio continua existindo?”
Quando a resposta é sim, a inteligência artificial pode representar uma ferramenta de produtividade. Quando a resposta é não, a tecnologia está mais integrada ao núcleo do produto.
Segundo o executivo, startups com IA como parte central da proposta de valor costumam apresentar três características: dados proprietários que melhoram o produto ao longo do uso, integração profunda aos fluxos de trabalho do cliente e entregas mensuráveis, como redução de custos, aumento de receita ou melhoria na tomada de decisão.
“Sem esses três elementos, a startup corre o risco de ser apenas uma camada sobre modelos de terceiros”, afirma.
Eficiência passa a pesar mais nas teses de investimento
A IA também altera a estrutura operacional das startups.
Segundo Patrus, empresas conseguem atingir níveis maiores de produtividade com equipes menores e menor necessidade de capital.
“Estamos vivendo um momento de eficiência. A IA permite que startups cheguem mais longe com times menores e menos capital, e isso muda a conta do Venture Capital”, afirma.
A Bossa Gest observa oportunidades especialmente em setores como saúde, finanças, agronegócio, indústria e software corporativo.
Nesses segmentos, a análise considera fatores como capacidade técnica, tamanho do mercado, diferencial competitivo, potencial de escala e possibilidade de expansão internacional.
Brasil busca ampliar infraestrutura de capital para IA
O avanço das teses relacionadas à inteligência artificial também aparece na estrutura do mercado brasileiro de investimentos.
BNDES e Finep criaram um Fundo de Investimento em Participações voltado a empresas nacionais de inteligência artificial e base tecnológica.
A Bossa Gest participou do processo seletivo para gestão do FIP IA e ficou em segundo lugar.
Para a empresa, a movimentação mostra uma aproximação maior entre startups, investidores institucionais e mercado de capitais.
Esse amadurecimento também muda o papel esperado dos gestores.
“Capital deixou de ser o principal diferencial. O gestor da próxima fase precisa agregar valor além do cheque”, afirma Patrus.
Segundo ele, isso inclui conectar startups a grandes empresas, ajudar na estruturação da gestão, preparar negócios para internacionalização e manter disciplina na alocação de capital.
A capacidade de distinguir tendências duradouras de movimentos passageiros também deve ganhar importância.
“A IA vai gerar grandes empresas no Brasil, e o nosso papel é ajudar a construí-las com fundamentos sólidos”, conclui.
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