Jornada nas Estrelas, IAs e audácias da pilombeta

Entre a nostalgia dos anos 80 e a tecnologia de 2026, Átila Francucci discute os limites da IA e defende que a verdadeira inovação nasce da capacidade de ousar, algo que algoritmos baseados no "já criado" não conseguem replicar

Jornada nas Estrelas, IAs e audácias da pilombeta
Átila Francucci, sócio fundador da NCC_1701.

“O espaço, a fronteira final. Essas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”.

Assim começava Jornada nas Estrelas, a série criada por Gene Roddenberry, que marcou minha adolescência. Eu sintonizava diariamente a falecida TV Manchete canal 9, que, nos anos 80, decidiu retransmitir os episódios (quase que) pontualmente às 17h, na ordem cronológica em que tinham entrado no ar pela primeira vez, na década de 60. Gravei todos eles em VHS, mas, como a antena da minha Philips 14 polegadas sintonizava muito mal a Manchete, em todos os episódios – que eu via e revia – tinha sempre dois Kirks, dois Spocks, duas Enterprises (imagem com fantasma, naquele tempo, era algo tão normal quanto colocar Bombril na antena para tentar amenizar o problema).

Evidentemente que há 40 anos não havia Internet, de tal forma que toda e qualquer fonte de informação extra sobre Jornada passava exclusivamente pela transmissão oral dos entendidos, que, por sua vez, tinham que ser encontrados. Não me lembro bem como, mas um dia encontrei um lugar cheio deles: era um biboquinha perto de um mall nas imediações do Palestra Itália, meio que uma livraria de Sci-Fi e lugar de encontro para praticantes de um então incipiente jogo chamado RPG. Nome da biboca: Forbidden Planet. Lá encontrei livros, pôsteres e revistas sobre Jornada nas Estrelas (tudo em inglês). Os preços eram proibitivos, mesmo assim consegui comprar uma espécie de enciclopédia com todos os detalhes, inclusive bastidores, dos 79 episódios produzidos. Se até então o que me fascinava na série eram tão somente as incríveis histórias de cada episódio (meu preferido: A cidade à beira da eternidade, temporada 1; imperdível, pessoal), à medida que me aprofundava no assunto comecei a entender que Jornada era muito, mas muito mais que uma simples série de ficção científica.

Eles, de fato, foram onde nenhuma outra produção em tela tinha ido até então. Mais do que fronteiras galácticas, romperam os limites da cultura ocidental, antecipando uma espécie de futuro moral possível na grande maioria dos seus episódios. Uma pequena amostra dessa vanguarda ética/estética: o primeiro beijo inter-racial da história da TV/cinema entre Kirk e Uhura; uma ponte de comando “não patriarcal”, com pessoas diversas, incluindo um idoso, uma mulher negra, um russo (eram tempos de Guerra Fria!), um japonês (o ataque a Pearl Harbor e as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki ainda eram lembrança vívida) e até um alienígena sem sentimentos e com cara de diabo; a diretriz de “não interferência na cultura de cada planeta” que batia de frente com a realidade da Guerra do Vietnã; pouquíssimos socos e tiros (isso mudaria, a partir da segunda temporada, por determinação da CBS que queria mais “sangue” em nome da audiência), além das “profecias tecnológicas” (celulares, tablets, aparelhos médicos portáteis).

Não tenho dúvidas de que esse entendimento mais abrangente sobre o que, de fato, significava Jornada nas Estrelas teve, mesmo que inconscientemente, grande influência na minha decisão de, anos depois, me tornar publicitário, já que esse “suco” – criatividade, ousadia, bom humor, histórias inovadoras, quebra de paradigmas, música marcante, bordões, linguagem proprietária –, fazia parte da receita da propaganda brasileira. Quase tudo o que era criado e veiculado pelas icônicas DPZ, W/Brasil e DM9 era mais que criativo, era audacioso.

Hoje, quando se discute à exaustão o uso da IA na propaganda, não como ferramenta a serviço da ideia ou da execução publicitária, mas como a ideia e a execução em si mesmas, me pergunto: se todo o conteúdo usado pelas “IAs da vida” são materiais já pensados, já discutidos, já criados, qual a possibilidade de elas “audaciosamente irem onde nenhum homem jamais esteve”? A rapidíssima evolução das IAs possibilita que muitas delas (ou a combinação de muitas delas) desenhem novas naves estelares ou logotipos, elaborem novos planetas ou estratégias de comunicação, criem civilizações ou um spot de 30 segundos, desenhem uniformes belíssimos para a tripulação ou o KV da próxima campanha, mas tudo isso remixando o “já criado e produzido”. É certo que isso não é pouca coisa, mas, mais certo ainda, é dizer que isso não tem nada de audacioso. Se uma IA faz do limão uma limonada diferentona, só a audácia pode considerar petulantemente fazer do limão um suco de melancia.

Não quero dizer com isso que audácia seja pura porra-louquice ou algum tipo de devaneio pueril. Pelo contrário, o ser audacioso, em conhecendo bem o limite existente, estuda a fundo o passo a ser dado. Porque, além de criatividade é preciso muita disciplina e abnegação para romper a barreira estabelecida, nem que seja só um pouquinho.

Ayrton Senna, ao retardar em milésimos de segundo a freada antes da curva, era audacioso. Tanto quanto Nise da Silveira, que teve a audácia de substituir os métodos terapêuticos agressivos dos institutos de internação psiquiátrica por ateliês de pintura e modelagem para os internados. O americano Dick Fosbury, na Olimpíada de 68, surpreendeu o mundo, realizando o salto em altura pulando, de forma inédita e audaciosa, de costas, ganhando não apenas o ouro olímpico, mas mudando para sempre os parâmetros milenares desse esporte. Washington Olivetto, na década de 70, ao escolher para protagonizar as mil e uma utilidades de Bom Bril um homem frágil, de voz fina, nada galã e dissonante do público-alvo do produto, audaciosamente chegou onde nenhum publicitário brasileiro jamais esteve: nas páginas do Guiness Book.

IAs podem ser (e são) muito úteis, rápidas, assertivas, facilitadoras, mas, definitivamente, não são audaciosas. Elas chegam até a fronteira final, mas daí não passam. Disso, somente os Roddenberries, Sennas, Nilses, Fosburys e Olivettos são capazes.

Quem, de alguma maneira, conviveu intensamente com pessoas audaciosas, sejam elas físicas ou jurídicas, dificilmente consegue escapar dessa maneira de pensar e agir profissionalmente. Recorro uma vez mais ao universo de Jornada nas Estrelas: William Shatner, o eterno Capitão Kirk, acaba de lançar, aos 94 anos, seu primeiro álbum de... heavy metal. Segundo a revista Rolling Stone, Shatner, que lançou seu primeiro disco em 1968, tem um histórico de álbuns experimentais e não escondeu o entusiasmo, afirmando que "com a idade, a gente aumenta o volume". Audácia da pilombeta, como diria Didi Mocó.

Átila Francucci, sócio fundador da NCC_1701, não por acaso, batizada com a matrícula da Enterprise.

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