Mercado financeiro inaugura nova fase com primeira emissão de LRS distribuída ao mercado
Operação de R$ 126 milhões une Avla, Galapagos, Tivio e a fintech Marvin para securitizar risco de seguro de crédito; pioneirismo cria ponte inédita entre o mercado de capitais e o setor de seguros no Brasil
22.05.2026

O mercado financeiro nacional consolidou um marco regulatório e operacional com a estruturação da primeira Letra de Risco de Seguro (LRS) com distribuição pública ao mercado. A captação, que movimentou R$ 126 milhões, foi direcionada a investidores profissionais e desenhada sob medida para cobrir operações de seguro de crédito de uma grande empresa do varejo.
A transação foi viabilizada por meio de um consórcio estratégico composto pela seguradora Avla, pela plataforma de investimentos Galapagos Capital, pela gestora de ativos alternativos Tivio Capital e pela fintech de infraestrutura financeira Marvin. O desenho jurídico e o enquadramento regulatório contaram com a assessoria dos escritórios Mattos Filho, Pinheiro Neto Advogados e Madrona Advogados.
Como Funciona a LRS no Novo Marco Legal
Embora seja a quarta emissão de LRS registrada no país, esta é a primeira aberta à captação ampla com distribuição de mercado, conectando de forma direta o balanço de seguradoras ao bolso de investidores institucionais. Criada sob a égide do Marco Legal da Securitização (Lei nº 14.430/2022), a LRS funciona de maneira análoga aos Insurance-Linked Securities (ILS) amplamente difundidos em Wall Street.
Na prática, o instrumento funciona como um título estruturado:
Lastro: O capital aportado pelos investidores serve como garantia líquida e colateralizada para cobrir sinistros de apólices de seguro.
Cenário sem Sinistro: Caso o evento de risco não ocorra no prazo contratual, o investidor resgata o montante principal acrescido de uma taxa de remuneração pré-acordada.
Cenário com Sinistro: Havendo a inadimplência ou quebra de crédito da varejista protegida, os recursos do fundo são direcionados para honrar as indenizações da apólice, operando sob regras rígidas de salvaguardas contratuais para mitigar perdas totais dos cotistas.
“A LRS permite acessar o capital do mercado financeiro de forma direta para financiar riscos de seguros, criando uma alternativa tanto para investidores quanto para o setor. O modelo representa uma mudança importante na lógica tradicional ao estabelecer uma ponte direta entre quem assume risco e quem busca oportunidades de investimento”, avalia Felippe Astrachan, CEO da Avla Brasil.
Amadurecimento do Setor e o Modelo Norte-Americano
A consolidação dessa estrutura reflete um avanço na curva de aprendizado das áreas de compliance, riscos e engenharia financeira no Brasil. Segundo Roberto Takatsu, sócio da área de seguros da Galapagos Capital, as emissões anteriores foram desenvolvidas sem referências prévias no ecossistema local. O arcabouço estrutural estabelecido nesta rodada deve acelerar as próximas emissões do mercado de securitização.
O potencial de expansão do segmento é balizado por mercados maduros. Nos Estados Unidos, o estoque de ILS gira em torno de US$ 60 bilhões, tendo registrado US$ 24,7 bilhões em novas emissões apenas no consolidado de 2025, impulsionado pela demanda de grandes fundos de pensão e family offices.
Descorrelação e Infraestrutura de Garantias
A operação marcou o posicionamento institucional da Tivio Capital — braço de gestão de ativos alternativos do Grupo Bradesco — que atuou como investidora âncora e co-estruturadora da tese de investimento, visando sofisticar o portfólio de produtos do banco de atacado.
“Para nossos clientes, a LRS representa acesso a uma fonte de retorno descorrelacionada de renda fixa e renda variável, com uma relação de risco e retorno favorável — algo que antes era restrito a seguradoras e resseguradoras”, pontua Matheus Alencastro, responsável pela operação na Tivio Capital.
A ancoragem tecnológica e a custódia do colateral financeiro que viabilizou o arranjo jurídico foram coordenadas pela fintech Marvin. Atuando como agente de garantias, a empresa estruturou as amarras operacionais que blindam os recursos alocados. De acordo com Bernardo Vale, CEO da Marvin, o pipeline de novos projetos prevê o lançamento de uma série inédita de emissões semelhantes ainda no decorrer deste ano.
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