Mulheres são só 19,2% da força de TI no Brasil e paridade só deve chegar após 2100, aponta estudo
Relatório do Observatório Softex mostra avanço lento na presença feminina na tecnologia e alerta: seriam necessárias 53,5 mil novas profissionais por ano para atingir igualdade até 2030
02.12.2025

A participação das mulheres na tecnologia segue avançando de forma lenta no Brasil. A quarta edição do estudo W-Tech 2025, produzido pelo Observatório Softex, revela que elas representam apenas 19,2% das especialistas em TI no país — cerca de 89,7 mil profissionais entre quase 470 mil trabalhadores ativos no setor.
O levantamento, baseado em dados oficiais, analisa a presença feminina na indústria de tecnologia, perfil profissional, desafios estruturais, oportunidades de mercado e projeções de longo prazo. Embora as mulheres representem 51,5% da população brasileira e 44,7% dos vínculos formais de trabalho, continuam sub-representadas em áreas técnicas e estratégicas de TI.
A desigualdade começa na formação: só 17,8% dos concluintes de cursos de TI são mulheres, avanço de apenas 1,3 ponto percentual em dez anos. Mesmo com maior escolaridade — 63,7% têm ensino superior completo, frente a 51,1% dos homens — a diferença salarial persiste. Elas ganham, em média, R$ 1.618 a menos por mês, uma defasagem de 19,3%. Nas funções técnicas, o cenário é ainda mais desigual: programadoras recebem 25% a menos e tecnólogas, 29%.
Nos cargos de liderança, a distância aumenta: mulheres ocupam 26,2% das gerências e apenas 13,1% das diretorias, índice menor que o observado em 2015. Recortes regionais e raciais ampliam o abismo: em estados como Roraima, Amapá e Maranhão, menos de 10% das especialistas são mulheres. No total, 59,6% das profissionais são brancas, enquanto pretas e pardas somam 28,4%; apenas 5,5% das especialistas são mulheres pretas.
Segundo o Observatório Softex, para atingir a paridade de gênero no setor de TI até 2030 seria necessário incorporar 53,5 mil novas mulheres por ano. Mantido o ritmo atual, a igualdade só seria alcançada por volta de 2110.
Áreas em crescimento: IA, cibersegurança e economia verde digital
Apesar dos desafios, há sinais concretos de avanço. As mulheres já representam 29,8% das concluintes em cursos de Inteligência Artificial, número acima da média global de 22%. Na cibersegurança, são 17% da força de trabalho; na economia verde digital, 28%. Os dados mostram que, com estímulo e visibilidade, a presença feminina cresce de forma consistente.
A correção das desigualdades, reforça o estudo, é estratégica para a produtividade e a inovação, além de alinhada às metas globais como o ODS 5, de igualdade de gênero, e o indicador 8.5.1, que prevê remuneração igual por trabalho de igual valor até 2030.
Sete recomendações para avançar
A pesquisa propõe sete diretrizes integradas para transformar o cenário:
Diagnosticar pontos de entrada, evasão e progressão das mulheres no setor.
Pactuar metas públicas com compromissos e relatórios semestrais.
Monitorar resultados com dados abertos e indicadores padronizados.
Implementar políticas de diversidade em compras públicas e inovação.
Oferecer incentivos fiscais atrelados à redução de desigualdades.
Apoiar parentalidade e retorno ao trabalho, especialmente entre 35 e 40 anos.
Responsabilizar empresas e instituições pelo cumprimento das metas, com revisões anuais e participação social.
Com políticas articuladas de educação, trabalho e inovação, o Observatório Softex estima que a incorporação de 15,6 mil mulheres por ano permitiria alcançar paridade em 2110.
“A diversidade é a força que impulsiona o futuro do nosso setor. Não basta falar em inovação sem falar em inclusão. Precisamos de políticas permanentes, métricas claras e comprometimento real para garantir que as mulheres estejam no centro da transformação digital brasileira”, afirma Rayanny Nunes, Coordenadora de Inteligência e Design de Soluções da Softex.
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