Nike perde registro da marca Total 90 e pode enfrentar disputa judicial nos EUA

Expiração do nome abre brecha para empresa da Louisiana, que acusa gigante esportiva de uso indevido

Adnews

28.11.2025

Nike perde registro da marca Total 90 e pode enfrentar disputa judicial nos EUA

A Nike pode enfrentar um novo capítulo jurídico após perder o registro da marca Total 90 (T90), usada em chuteiras icônicas vestidas por nomes como Wayne Rooney, Fernando Torres e Roberto Carlos. Documentos obtidos pelo site Footy Headlines indicam que a empresa deixou expirar o registro após um período de inatividade — o que permitiu que a Total90 LLC, sediada na Louisiana (EUA), reivindicasse legalmente a marca e processasse a gigante esportiva por uso indevido.

A Total90 marcou uma época no futebol e se tornou um dos produtos mais reconhecidos da Nike nas décadas de 2000 e 2010. A reativação recente da linha, com relançamentos do T90 Laser e edições lifestyle, agora é central no processo movido pela empresa da Louisiana, que acusa a Nike de violar direitos que já não lhe pertencem.

Para Gustavo Biglia, sócio do Ambiel Bonilha Advogados e especialista em Direito Societário, o episódio evidencia um risco comum — mesmo entre corporações globais. “Quando uma empresa do porte da Nike deixa um registro essencial caducar, abre-se um flanco perigoso: terceiros podem se apropriar de um ativo que deveria estar devidamente resguardado. Trata-se de uma falha clássica de governança de marcas”, afirma. “A companhia acaba na situação desconfortável de ter que justificar o direito de usar o próprio nome que ela mesma projetou globalmente.”

A advogada Giovanna Vasconcellos, especialista em Propriedade Intelectual no mesmo escritório, reforça que o problema nasce da negligência na gestão do portfólio marcário. “Quando uma companhia desse porte permite que um sinal distintivo expire sem renovação, cria um verdadeiro vácuo jurídico. É praticamente ‘entregar de bandeja’ a terceiros a chance de explorar um ativo que deveria estar integralmente resguardado”, explica. “Situações assim obrigam a empresa a gastar tempo e recursos tentando reaver algo que, em boa governança, jamais deveria ter escorregado pelas mãos.”

O cenário é ainda mais delicado porque a Nike já vinha preparando novos relançamentos da T90 para o ciclo da Copa do Mundo de 2026, inclusive uma colaboração com a marca Palace, que utiliza a sigla “P90” inspirada na linha. Uma decisão judicial desfavorável pode comprometer esses projetos, além de afetar um portfólio que depende fortemente da nostalgia e do apelo histórico do produto.

Segundo Giovanna, o impacto vai além da questão financeira: “Casos como esse têm repercussões reputacionais importantes. A perda de controle sobre um símbolo cultural e esportivo como a Total 90 enfraquece a percepção de solidez na gestão de ativos intangíveis. É um cenário que lembra a disputa entre a Cisco e a Apple pelo nome ‘iPhone’.”

Casos emblemáticos reforçam o alerta

A disputa da Total 90 se junta a outros episódios conhecidos na Propriedade Intelectual.

O Burger King, ao tentar entrar na Austrália, descobriu que o nome já estava registrado por um terceiro. Sem alternativa, adotou a marca Hungry Jack’s — uma exceção que permanece até hoje e exigiu tempo e investimento para adaptação.

A Tesla viveu situação parecida na China: precisou litigar e pagar quantias expressivas para recuperar um registro que considerava “naturalmente seu”. Já a Sony, ao deixar registros do Walkman expirarem na Rússia, viu terceiros correrem para registrar nomes semelhantes, iniciando uma longa disputa judicial.

Esses casos mostram, segundo Giovanna, que mesmo sistemas internacionais como o Protocolo de Madri — administrado pela OMPI — não dispensam as exigências de cada país. “Foram justamente regras nacionais que determinaram os desfechos no caso do Burger King na Austrália, da Tesla na China e da Sony na Rússia. A proteção internacional e a gestão local caminham juntas e se complementam na construção de um portfólio sólido”, afirma.

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