O Brasil não precisa importar criatividade. Precisa reconhecer a que produz
Na décima edição do Latin American Design Awards, a presença brasileira nos convida a pensar sobre identidade, mercado e o lugar que queremos ocupar na cultura visual contemporânea
12.10.2026

Existe uma contradição na maneira como o Brasil se relaciona com a própria criatividade. Somos um país que transforma diversidade em linguagem, escassez em solução e mistura em identidade. Produzimos imagens, sons, movimentos e ideias capazes de atravessar fronteiras. Ainda assim, muitas vezes precisamos que o olhar estrangeiro reconheça o valor daquilo que fazemos para que nós mesmos passemos a enxergá-lo com a importância que merece.
A décima edição do Latin American Design Awards (LAD Awards), realizada em 2026, é uma oportunidade perfeita para refletir sobre essa relação. Mais do que uma premiação dedicada ao design latino-americano, o evento funciona como uma vitrine de talentos, pensamentos e perspectivas que disputam espaço em uma indústria criativa cada vez mais globalizada. E o Brasil está nessa conversa.
Mas a questão que realmente importa não é apenas quantos projetos brasileiros chegaram à seleção, quais estúdios foram reconhecidos ou quantos troféus poderemos levar para casa. A pergunta é outra: o que fazemos com a potência criativa que temos?
Além da reprodução: a identidade em movimento
O design brasileiro não nasceu da tentativa de reproduzir o mundo. Sua história é atravessada por movimentos que procuraram interpretar o país a partir de suas próprias referências, de suas tensões sociais, de sua arquitetura, de sua música, de sua arte popular e de sua capacidade de absorver influências sem necessariamente se submeter a elas.
Da construção de uma linguagem moderna à força gr áfica da cultura urbana, da inventividade presente nas periferias à sofisticação dos grandes estúdios, existe uma produção brasileira plural, inquieta e permanentemente em transformação.
O problema é que ainda tratamos essa diversidade como característica estética, quando ela também deveria ser compreendida como ativo econômico, vantagem competitiva e fonte de inovação.
Em um mercado no qual ferramentas de inteligência artificial tornam a execução cada vez mais acessível, a diferença não estará apenas na capacidade de produzir imagens bonitas ou identidades visualmente consistentes. Estará na capacidade de construir significado.
A inteligência das ruas e a economia do significado
Compreender contextos, reconhecer aquilo que uma sociedade sente, deseja, teme e ainda não conseguiu expressar: é nesse território que a cultura brasileira tem muito a oferecer.
Nossa criatividade não está somente nos grandes centros de produção publicitária, nos escritórios de design ou nas marcas internacionalmente conhecidas. Ela também está nos códigos visuais das ruas, nas estéticas que surgem nos bailes, nas feiras, nos mercados populares, nas comunidades, nas manifestações artísticas e nas inúmeras formas pelas quais as pessoas reinventam a própria realidade.
Existe inteligência nesses lugares. Existe método, mesmo quando ele não recebe esse nome. Existe design, mesmo quando não é reconhecido pelos circuitos tradicionais. O desafio é transformar essa riqueza em conhecimento, linguagem, propriedade intelectual e oportunidades concretas, sem esvaziar sua origem ou convertê-la apenas em tendência de mercado.
Da validação externa à estrutura nacional
A presença brasileira no LAD Awards ganha relevância justamente quando observamos essa amplitude. O reconhecimento internacional permite que projetos circulem, que profissionais se conectem e que outras culturas conheçam soluções desenvolvidas a partir de perspectivas diferentes.
Mas seria limitado enxergar o prêmio apenas como uma chancela externa de qualidade. Precisamos ir além da validação. O Brasil tem condições de participar da construção das referências globais do design, não apenas de consumir as que chegam de fora. Para isso, precisamos:
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Fortalecer nosso mercado interno.
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Investir em formação e educação especializada.
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Aproximar universidades e empresas.
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Criar mais oportunidades para novos profissionais.
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Estabelecer conexões consistentes com outros países latino-americanos.
Também precisamos superar a ideia de que a internacionalização significa necessariamente parecer internacional. Nossa contribuição pode estar justamente naquilo que não se reproduz com facilidade: o repertório cultural, a capacidade de trabalhar com diferenças, a inventividade e a leitura particular que fazemos do mundo.
Talvez o maior desafio do design brasileiro não seja conquistar espaço nas premiações internacionais. Seja compreender que esse espaço também pode ser construído a partir daqui. Porque reconhecimento é importante, mas não substitui estrutura. Visibilidade abre portas, mas não garante continuidade. E talento, por mais extraordinário que seja, não deveria depender de oportunidades ocasionais para encontrar mercado.
Dez anos de LAD Awards representam uma conquista para o design latino-americano e uma oportunidade para observarmos a dimensão da criatividade produzida em nossa região. Para o Brasil, fica uma reflexão que ultrapassa a cerimônia: precisamos aprender a tratar nossa produção criativa com a mesma seriedade com que tratamos nossos setores estratégicos.
Design não é acabamento. Não é decoração. Não é a última etapa de uma ideia que já nasceu pronta. É pensamento, cultura, estratégia e capacidade de transformar a realidade. O Brasil não precisa importar criatividade. Precisa reconhecer a que produz, criar condições para que ela se desdobre e compreender que sua diversidade não é um detalhe da nossa identidade. É parte fundamental daquilo que podemos oferecer ao mundo.
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