O BRASIL QUE O MUNDO ESTÁ MAIS DISPOSTO A OUVIR
Em um cenário saturado de estímulos, a criatividade brasileira se destaca não pelo exotismo, mas pela capacidade de gerar narrativas autênticas, com identidade e leitura de mundo que dispensam filtros externos
24.03.2026

Por Alex Mendes Existe uma mudança em curso na forma como o Brasil passa a ser percebido nas conversas globais sobre criatividade, entretenimento e cultura. Não se trata apenas de visibilidade, nem só de reconhecimento pontual. O que parece ganhar espaço, de fato, são narrativas brasileiras que chegam com mais autoria, mais contexto e menos mediação. Durante muito tempo, o país foi apresentado ao mundo a partir de filtros externos que, ainda que muitas vezes bem-intencionados, raramente davam conta da sua complexidade. O Brasil aparecia reduzido a algumas imagens recorrentes, a certos signos já conhecidos, a uma ideia mais fácil de consumir do que propriamente fiel ao que somos. Aos poucos, esse movimento perde força. O interesse agora recai sobre histórias que não tentam simplificar demais o país, nem organizá-lo para caber em uma leitura rápida. E talvez esteja justamente aí a sua potência. O que atravessa fronteiras hoje nem sempre é o que se explica melhor. Muitas vezes, é o que carrega uma verdade mais nítida. Narrativas com identidade, textura e contexto tendem a viajar mais longe do que discursos montados apenas para soar universais. Há uma diferença importante entre ser global e ser genérico. Nem sempre o que foi suavizado para alcançar todo mundo consegue, de fato, tocar alguém. Esse ponto diz muito sobre o momento atual da indústria criativa. Em um ambiente saturado de estímulos, formatos e discursos, atenção sozinha já não sustenta relevância. O que sustenta relevância é reconhecimento. É quando alguém percebe que existe ali não apenas técnica, mas leitura de mundo. Não apenas execução, mas intenção. Não apenas mensagem, mas repertório. Talvez por isso o Brasil venha ocupando um lugar tão particular nesse cenário. Há uma inteligência criativa brasileira que nasce do encontro entre repertório, improviso, sensibilidade cultural e velocidade de leitura. É uma combinação difícil de reproduzir porque não depende apenas de talento individual. Depende de convivência com a diversidade, de intimidade com contraste, de familiaridade com nuances. O Brasil é um país onde referências convivem em alta voltagem. E isso, quando bem interpretado, produz ideias menos óbvias. Na prática, essa leitura importa porque comunicação culturalmente relevante não nasce de adaptação superficial. Nasce de escuta. Escuta de linguagem, de comportamento, de território, de tempo. Nasce da capacidade de entender o que determinada história pode significar naquele contexto específico. Não basta localizar uma mensagem. É preciso compreender como ela ganha sentido. Esse é um exercício constante para quem trabalha com marcas e narrativas em um país tão plural quanto o nosso. No caso da Disney, isso passa por uma operação criativa integrada e próxima da realidade local, com escuta ativa e atenção ao contexto. Mais do que adaptar campanhas, o desafio está em construir pontos de contato que façam sentido dentro da cultura, respeitando códigos, repertórios e formas reais de identificação. Um exemplo disso apareceu no trabalho desenvolvido com ESPN e Disney+ em torno do Dia Mundial de Combate ao Sedentarismo. Em 2025, a proposta rompeu com o formato tradicional do SportsCenter ao colocar os apresentadores correndo durante a atração. Em 2026, a ideia avançou para uma edição ao ar livre, com os talentos pedalando em bicicletas adaptadas enquanto uma estrutura móvel acompanhava o trajeto ao vivo em São Paulo. O mais interessante, nesse caso, não está apenas na escolha do formato, mas no raciocínio que sustenta a proposta. Em vez de tratar o tema como um recado paralelo, a construção incorporou o assunto à linguagem do próprio conteúdo. O esporte deixou de ser apenas tema e passou a funcionar também como recurso narrativo. A mensagem ganhou coerência porque não foi anexada à história: ela passou a fazer parte dela. Esse tipo de abordagem ajuda a lembrar que conexão cultural não se constrói no detalhe cosmético. Ela depende de legitimidade. E legitimidade, em comunicação, não vem do esforço para parecer próximo. Vem de entendimento real. Quando uma ideia reconhece um traço verdadeiro da cultura com a qual quer dialogar, ela interrompe menos e conversa mais. No Brasil, essa talvez seja uma das chaves mais valiosas para pensar criatividade hoje. Não pela necessidade de exaltar o país em termos grandiosos, mas porque há, de fato, uma qualidade de leitura que merece atenção. O Brasil produz linguagem, comportamento, repertório e reinvenção o tempo todo. Quando esse material é tratado com inteligência, ele não serve apenas como referência local. Ele ajuda a expandir a própria noção do que pode ser uma narrativa relevante. Na esteira do World Storytelling Day, a reflexão que fica é simples: storytelling nunca foi apenas sobre contar bem uma história. É sobre entender o que vale ser contado, com que voz, em que tom e a partir de qual escuta. No fim, as histórias que permanecem não são necessariamente as mais barulhentas nem as mais ornamentadas. São aquelas que conseguem reconhecer alguma verdade e dar a ela forma, ritmo e sentido. E isso, no fim das contas, ainda é o que faz alguém querer ouvir.
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