O consumidor não está cansado de propaganda. Está promessas

A obsessão do mercado por tecnologia, IA e performance é uma verdade absoluta, enquanto a confiança do consumidor se torna o ativo mais escasso do mundo

Ricardo Nunes

17.07.2026

O consumidor não está cansado de propaganda. Está promessas

Vivemos um dos momentos mais fascinantes da história dos negócios. Nunca tivemos acesso a tanta tecnologia, tantos dados, tantas plataformas e tantas ferramentas capazes de analisar comportamentos, prever tendências e automatizar processos. A inteligência artificial deixou de ser uma aposta para se tornar realidade dentro das empresas. O marketing está mais sofisticado, as métricas são mais precisas e as possibilidades de segmentação parecem infinitas. Ainda assim, existe uma pergunta que deveria preocupar qualquer empresário, executivo ou profissional de marketing: por que, em meio a tanta evolução tecnológica, conquistar a confiança do consumidor parece cada vez mais difícil? A resposta talvez esteja justamente onde poucos estão olhando.

O mercado passou os últimos anos investindo fortemente em formas mais inteligentes de falar com as pessoas, mas dedicou muito menos energia para entender o que elas realmente esperam das marcas. Em algum momento, confundimos comunicação com relacionamento. Confundimos alcance com relevância. Confundimos presença digital com proximidade. O consumidor atual não quer apenas receber mensagens mais personalizadas. Ele quer ter a certeza de que a empresa por trás daquela mensagem fará aquilo que prometeu. Parece algo simples, quase óbvio, mas é exatamente nesse ponto que muitas organizações continuam falhando.

Durante décadas, as empresas disputaram espaço nos veículos de comunicação. Depois passaram a disputar espaço nas redes sociais. Hoje disputam espaço nos algoritmos. A lógica continua a mesma: chamar atenção. O problema é que atenção deixou de ser o maior desafio. O verdadeiro desafio passou a ser merecê-la. A realidade é que as pessoas estão expostas a milhares de estímulos todos os dias: anúncios, vídeos, notificações, e-mails, influenciadores, conteúdos patrocinados e campanhas cada vez mais criativas. O excesso de informação criou um consumidor mais seletivo, mais desconfiado e muito menos paciente. Não porque ele esteja cansado de comunicação; ele está cansado de frustrações.

Quando uma empresa promete excelência e entrega descaso, ela destrói confiança. Quando promete agilidade e entrega demora, ela destrói confiança. Quando promete proximidade e responde com mensagens automáticas incapazes de resolver problemas reais, ela destrói confiança. E nenhuma campanha publicitária, por mais premiada que seja, consegue compensar isso por muito tempo. Ao longo da minha trajetória no varejo, aprendi uma lição que permanece atual independentemente da tecnologia disponível: o cliente pode esquecer um anúncio, pode esquecer uma promoção, pode esquecer um slogan, mas dificilmente esquece a experiência que teve com uma marca. Ele se lembra de como foi tratado, de como seu problema foi resolvido e de como se sentiu durante a jornada de compra. É isso que constrói reputação. É isso que gera recomendação. É isso que transforma clientes em defensores da marca. Por isso vejo com preocupação uma tendência crescente dentro de algumas empresas.

Enquanto departamentos inteiros discutem inteligência artificial, automação, dados e performance, questões básicas continuam sem solução. O consumidor ainda enfrenta dificuldades para encontrar atendimento humano quando precisa. Continua tendo problemas para resolver demandas simples. Continua esperando mais tempo do que deveria por respostas. Em muitos casos, a tecnologia foi implementada para aumentar a eficiência da empresa, mas não necessariamente para melhorar a vida do cliente. Existe uma diferença importante entre automatizar processos e automatizar relacionamentos. A primeira é uma necessidade competitiva; a segunda pode se tornar um erro estratégico. As pessoas valorizam conveniência, rapidez e praticidade, mas continuam esperando empatia, respeito e consideração quando algo não sai como planejado.

Talvez a maior provocação para os próximos anos seja justamente essa. Se todas as empresas terão acesso às mesmas ferramentas de inteligência artificial, aos mesmos sistemas de gestão, às mesmas plataformas de mídia e aos mesmos recursos tecnológicos, onde estará a verdadeira vantagem competitiva? A resposta não estará na tecnologia em si; estará na cultura organizacional. Estará na qualidade da liderança. Estará na capacidade de cumprir promessas. Estará na confiança construída diariamente em cada interação com o consumidor. Muitas empresas ainda tratam confiança como consequência. Na prática, ela precisa ser encarada como estratégia.

Porque confiança reduz custos de aquisição, aumenta retenção, fortalece reputação e cria um ativo que nenhum concorrente consegue copiar rapidamente. Produtos podem ser replicados. Tecnologias podem ser compradas. Processos podem ser adaptados. Confiança não. O mercado fala muito sobre transformação digital, mas talvez a grande transformação dos próximos anos seja outra. Será a transformação da maneira como as empresas se relacionam com seus clientes. As marcas que vencerão não serão necessariamente aquelas que tiverem mais dados, mais seguidores ou mais investimento em mídia; serão aquelas capazes de gerar credibilidade em um ambiente onde a desconfiança cresce diariamente.

No final das contas, o consumidor não está cansado de propaganda. Ele continua aberto a ouvir boas histórias, conhecer novidades e descobrir novas marcas. O que ele não aceita mais são promessas vazias. Em um mundo onde todos podem falar, destacam-se aqueles que entregam. E em um mercado cada vez mais competitivo, a diferença entre ser lembrado e ser escolhido estará menos naquilo que a empresa comunica e muito mais naquilo que ela efetivamente entrega e cumpre.

logo

INBOX

Aprenda algo novo todos os dias.
Assine gratuitamente as newsletters da Adnews.

Digite o seu melhor email
SBT registra quarto mês de crescimento consecutivo e encurta distância para a vice-liderança em São Paulo | Flapper e Finca Propia anunciam parceria para oferecer experiências exclusivas entre mobilidade aérea premium e patrimônio internacional | Brasil soma 61 Leões em Cannes 2026