O olhar feminino sobre a inteligência artificial

Executivas, pesquisadoras e celebridades como Juliette e Deborah Secco debatem a urgência de equipes plurais na programação de algoritmos para mitigar vieses e refletir a diversidade da sociedade

Adnews

15.06.2026

O olhar feminino sobre a inteligência artificial

Por Michele Barcena

No Web Summit Rio 2026, lideranças femininas defenderam mais diversidade na criação da inteligência artificial e mostraram como diferentes perspectivas podem influenciar o futuro da tecnologia

Enquanto a inteligência artificial ocupava os principais palcos do Web Summit Rio 2026, uma questão atravessava diferentes debates: quem está construindo as tecnologias que irão moldar o futuro?

A pergunta ganhou relevância à medida que executivas, empreendedoras, pesquisadoras, investidoras e criadoras de conteúdo ocuparam os palcos para discutir não apenas os avanços da IA, mas também a importância da diversidade na criação de ferramentas que já influenciam decisões, comportamentos e relações de consumo em escala global.

Em um setor historicamente dominado por homens, a presença feminina deixou de ser apenas uma pauta de representatividade para se tornar parte da discussão sobre criatividade, negócios e desenvolvimento tecnológico. Ao longo do evento, mulheres de diferentes áreas compartilharam experiências, apresentaram projetos e discutiram desafios relacionados à construção de negócios, ao acesso a investimentos e à ampliação da diversidade em ambientes tradicionalmente masculinos.

Os números acompanham a mudança

A presença feminina no universo da inovação também pode ser observada nos indicadores do setor. Dados do Observatório de Startups do Sebrae mostram que as mulheres estavam à frente de 31% das startups brasileiras em 2025. Entre as mil empresas selecionadas para o Prêmio Sebrae Startups 2025, 44% contavam com mulheres entre as fundadoras.

Embora desafios relacionados ao acesso a investimentos e à ocupação de cargos de liderança ainda persistam, os números apontam para uma transformação gradual em um ambiente que, durante décadas, foi predominantemente masculino.

Quem constrói a inteligência artificial?

A discussão sobre inteligência artificial, principal tema da edição de 2026, também passou pelo olhar feminino. Em diferentes painéis, especialistas destacaram a importância da diversidade na criação de tecnologias que influenciam decisões, comportamentos e relações de consumo em escala global.

A presença feminina nos debates foi além da adoção de ferramentas e aplicações. As discussões abordaram a participação das mulheres no desenvolvimento das tecnologias que estão moldando o futuro, desde a programação e a pesquisa até a liderança de equipes e empresas de tecnologia.

A preocupação passa pela representatividade das pessoas responsáveis pela criação de algoritmos, plataformas e sistemas inteligentes. Em um cenário em que a inteligência artificial influencia cada vez mais aspectos da vida cotidiana, especialistas defenderam que equipes plurais contribuem para reduzir vieses, ampliar perspectivas e desenvolver soluções mais alinhadas à diversidade da sociedade.

Economia criativa e novas formas de comunicação

A influência das mulheres também esteve presente nos debates sobre marketing, comunicação, creator economy e empreendedorismo. Executivas, criadoras de conteúdo e especialistas compartilharam experiências sobre construção de comunidades, engajamento e produção de conteúdo em um ambiente cada vez mais impactado pela tecnologia.

A participação de Juliette Freire e Deborah Secco exemplificou como mulheres de diferentes setores vêm contribuindo para ampliar o debate sobre tecnologia e sociedade. Em seus painéis, ambas chamaram atenção para temas como autenticidade, responsabilidade na comunicação e construção de comunidades em um ambiente cada vez mais influenciado por algoritmos e inteligência artificial.

"A responsabilidade de quem cria conteúdo nunca foi tão grande", afirmou Juliette durante um dos debates do evento, ao refletir sobre o papel dos influenciadores em um cenário marcado pela velocidade da informação e pela crescente presença da inteligência artificial.

A relação entre criatividade, inteligência artificial e compreensão humana também esteve presente na participação de Mari Pinudo, Country Manager da Adobe no Brasil. Ao abordar os impactos dos grandes modelos de linguagem na comunicação e nos processos criativos, a executiva defendeu que a tecnologia amplia capacidades, mas não substitui a sensibilidade humana necessária para interpretar contextos, construir narrativas e gerar conexões relevantes.

Para Mari, a inteligência artificial está transformando profundamente a maneira como marcas e consumidores se relacionam. "Até pouco tempo atrás, a campanha era um evento. Você identificava o público que queria atingir e disparava uma comunicação para todos receberem aquela mensagem em um determinado momento. Agora não é mais um evento. Virou uma conversa contínua", afirmou.

Segundo a executiva, o desafio deixou de ser apenas comunicar e passou a envolver a capacidade de compreender, em tempo real, os sinais gerados por essa interação permanente com os consumidores.

"O desafio é capturar os elementos dessa conversa, transformar essa informação em inteligência e entender como ela gera resultado para o negócio. Isso exige um entendimento muito grande de com quem você quer falar e como quer falar", explicou.

A observação dialoga com uma das discussões centrais do Web Summit Rio deste ano. À medida que a inteligência artificial assume um papel cada vez mais relevante na mediação das relações entre empresas e pessoas, cresce também a importância da diversidade entre aqueles que desenvolvem, treinam e aplicam essas tecnologias. Afinal, compreender contextos, comportamentos e necessidades humanas depende de múltiplos olhares e experiências.

Mari também destacou que o consumidor atual se tornou mais exigente diante da velocidade das interações digitais. "Estamos cada vez mais impacientes. Queremos conversar e ter respostas que façam sentido dentro do contexto e da relevância daquele momento", disse.

A fala reforçou outro ponto recorrente ao longo do evento: a tecnologia, por mais sofisticada que seja, continua dependendo da capacidade humana de compreender pessoas, culturas e realidades diversas.

A mensagem foi recorrente ao longo do evento: inovação tecnológica e diversidade caminham melhor quando avançam juntas.

Os debates mostraram que a contribuição das mulheres para a inovação vai além do desenvolvimento de novas tecnologias. Ela também está presente na forma como produtos, experiências, comunidades e estratégias são pensados, construídos e conectados às necessidades das pessoas.

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