Preto nada básico - Design negro que inspira o mundo
Livro de Rafael Bessa e iniciativas como o Fashinnovation reforçam a potência do design negro brasileiro, unindo teoria crítica e práticas que ressignificam padrões globais.
29.09.2025

Nos últimos anos, a pauta da representatividade no design ganhou força e atravessou fronteiras. Um marco recente nesse debate será o livro Design global, crítico, negro e prático, de Rafael Bessa, previsto para lançamento em março de 2026. A obra apresenta uma abordagem crítica do design, fundamentada em perspectivas negras e práticas emancipatórias.
Mais do que um conjunto de reflexões, o livro nasce com a proposta de ser também um repositório visual de referências. Durante o processo de escrita e edição, Rafael percebeu que incluir um caderno colorido com exemplos da produção gráfica de pessoas negras no Brasil poderia ampliar o diálogo entre teoria e prática. Esses exemplos terão curadoria do próprio autor e servirão para estabelecer uma ponte direta com as reflexões da obra. E é justamente por isso que a participação da comunidade é fundamental p...
Como criativo negro, formado em design e comunicação, encontrei nesse debate ecos diretos da minha própria trajetória. Ao longo da minha carreira como diretor de arte e diretor de criação, e hoje à frente da direção criativa do Fashinnovation em Nova York, e fundador da Mugo no Rio de Janeiro, pude experimentar na prática como o design pode ser não apenas estética, mas um gesto político de inclusão.
Um exemplo marcante disso foi a campanha global do Fashinnovation, intitulada “Listen, Talk & Watch”. Lançada como uma nova narrativa de marca, ela tinha um propósito simples, mas potente: traduzir a essência do diálogo e da diversidade para além do discurso, trazendo representatividade real para o centro da cena. Para isso, o casting contou exclusivamente com modelos de origem periférica do Rio de Janeiro, selecionados em parceria com o curador Jacré Facilitador, conhecido por lançar talentos das favela...
O resultado foi mais do que uma campanha publicitária. Foi um movimento simbólico que deu visibilidade a corpos, narrativas e estéticas historicamente marginalizadas, levando-as para um palco global. Ao invés de apenas “incluir”, tratou-se de ressignificar o padrão do que é visto como referência criativa e aspiracional.
Esse encontro entre teoria e prática mostra a força de um design negro, brasileiro e plural que começa a ecoar no mundo. Se Rafael Bessa abre um caminho crítico e intelectual para pensarmos o design a partir da negritude, experiências como a do Fashinnovation demonstram que essa visão já se traduz em ações concretas capazes de inspirar toda a indústria criativa global. Em um mundo em que a estética ainda é muitas vezes ditada por centros de poder hegemônicos, a representatividade preta no design não é só sobre diversidade: é sobre inovar, quebrar paradigmas e abrir novos horizontes criativos. E o Brasil, com sua história de miscigenação e improviso, tem muito a ensinar e exportar nesse sentido.
O futuro do design, ao que tudo indica, será tão diverso quanto as vozes que conseguirmos ouvir. E é justamente aí que a potência negra tem se mostrado não como exceção, mas como vanguarda.
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