Quando ser esposa troféu voltou a ser tendência?
Outro dia, enquanto jogava um desses joguinhos casuais, um Candy Crush da vida, apareceu um anúncio de moda, nada incomum
15.07.2026

O que me chamou a atenção foi a mensagem, que eu já não teria mais idade para me vestir como uma adolescente.
Achei curioso, mas o que realmente me fez parar para pensar foram as imagens.
As mulheres retratadas representavam uma ideia antiga do envelhecimento, como se, ao chegar aos 50 anos, fosse esperado abandonar o estilo, a personalidade e a individualidade em nome de uma versão discreta e quase invisível de si mesma.
Eu acabei de fazer 50 anos. E posso garantir que essa não representa as mulheres de 50+ que eu conheço. As mulheres da minha geração trabalham, empreendem, viajam, começam novos projetos, mudam de carreira, praticam esportes, experimentam novas tendências, namoram e continuam reinventando quem são. Mas isso não acaba por aí. Alguns dias depois, outro anúncio também chamou minha atenção, desta vez, um grande varejista internacional ensinava mulheres a se vestirem como uma esposa troféu. Confesso que reli o anúncio para ter certeza de que tinha entendido corretamente.
Em que momento esse conceito voltou a parecer moderno?
A expressão reduz o valor da mulher à capacidade de atender às expectativas masculinas e de representar um símbolo de status para o marido, como se sua identidade, suas conquistas e sua individualidade fossem secundárias.
E os exemplos não pararam por aí, nos anúncios exibidos em games e nas populares mininovelas asiáticas, comecei a perceber um roteiro recorrente onde mulheres são abandonadas porque são gordas, desmazeladas, são humilhadas depois da maternidade, traídas por versões “mais jovens” ou colocadas em situações de submissão para depois iniciar uma jornada de vingança.
Passei a me perguntar se eu estava apenas prestando mais atenção ou se havia, de fato, uma mudança acontecendo na publicidade digital.
Essas narrativas nasceram de decisões criativas? Ou são consequência de modelos de inteligência artificial reproduzindo padrões aprendidos em bases de dados carregadas de estereótipos?
Talvez os algoritmos simplesmente descobriram que esse tipo de conteúdo gera mais atenção, mais cliques e melhores resultados, talvez seja uma combinação de tudo isso.
Mas existe uma questão maior, a publicidade nunca foi apenas um reflexo da sociedade, ela também influencia comportamento, molda referências e ajuda a definir aquilo que passa a ser percebido como desejável ou aceitável.
Foi justamente por isso que esse conjunto de anúncios começou a me incomodar, não por serem isolados, mas porque começaram a formar um padrão, e padrões importam!
Quando milhões de pessoas são expostas, todos os dias, às mesmas representações femininas, aos mesmos conflitos e aos mesmos estereótipos, vale a pena perguntar se estamos apenas vendendo produtos ou também ajudando a ressuscitar ideias que pareciam superadas.
Talvez eu esteja enxergando uma tendência onde antes havia apenas campanhas desconectadas, ou talvez exista, sim, um movimento silencioso de retorno a narrativas mais conservadoras, impulsionado por algoritmos, inteligência artificial ou simplesmente pela busca incessante por performance.
Não tenho essa resposta.
Mas acredito que essa é uma conversa que a publicidade precisa voltar a ter
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