Quando todo mundo cria com a mesma inteligência

Estudos mostram que, embora a inteligência artificial melhore ideias individuais, ela comprime a diversidade coletiva; no Brasil, a combinação de múltiplos repertórios culturais e vivências torna-se a maior vantagem competitiva do mercado publicitário

Samuel Normando

14.08.2026

Quando todo mundo cria com a mesma inteligência

Por Samuel Normando, diretor-executivo de Criação na Talent.

Existe uma contradição interessante acontecendo com a criatividade.

Nunca tivemos tantas ferramentas capazes de nos ajudar no processo criativo e, talvez justamente por isso, nunca tenha sido tão importante preservar aquilo que nos faz pensar diferente.

Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Wharton, em 2025, encontrou um resultado curioso: pessoas que usaram inteligência artificial para desenvolver ideias conseguiram produzir resultados melhores individualmente. Mas, quando as ideias foram analisadas em conjunto, elas eram menos diversas.

Em um dos experimentos, apenas 6% das ideias produzidas com IA foram consideradas únicas, contra 100% das ideias produzidas pelo grupo que trabalhou sem a ferramenta.

Individualmente, melhor. Coletivamente, mais parecido.

Pesquisas mais recentes, publicadas em 2026, reforçam essa tese. Um estudo com participantes de diferentes contextos mostrou que usar IA para gerar ideias pode comprimir a diversidade coletiva. Mas quando a tecnologia é usada para desenvolver ou refinar uma ideia que já nasceu de uma pessoa — de uma faísca humana —, essa diversidade é preservada.

Talvez exista aí uma reflexão importante para a criatividade. O valor de um grupo não está apenas na capacidade de produzir boas ideias. Está na capacidade de produzir ideias diferentes. Porque cada pessoa carrega um repertório que não está necessariamente em uma base de dados: uma experiência da infância; uma conversa que ficou na memória; um sotaque; uma música, meme ou referência que ninguém mais naquela sala conhece.

É justamente da combinação entre repertórios, experiências e pontos de vista diferentes que muitas vezes surge algo que uma pessoa ou uma ferramenta não conseguiria imaginar sozinho.

No Brasil, isso ganha uma dimensão ainda maior. Existem quase infinitos "Brasis" dentro do Brasil. E cada um deles carrega códigos, comportamentos, contradições e histórias que podem transformar a maneira como uma ideia é construída.

Para as marcas, talvez esse seja um dos maiores valores da diversidade dentro de uma equipe criativa: não apenas representar diferentes pessoas, mas colocar diferentes repertórios em contato e ampliar os olhares que alimentam a criação, inclusive diante das mesmas ferramentas de IA.

A inteligência artificial consegue acessar uma quantidade extraordinária de conhecimento, mas a maneira como cada pessoa combina aquilo que sabe com aquilo que viveu continua sendo única.

O grande valor em jogo não está necessariamente em conseguir produzir uma ideia que a máquina também conseguiria produzir. Está em identificar conexões, caminhos e possibilidades que não aparecem de forma óbvia para todos.

No fim do dia, em um mundo onde todos podem cocriar com a mesma inteligência, pensar diferente pode se tornar uma das nossas maiores vantagens criativas.

logo

INBOX

Aprenda algo novo todos os dias.
Assine gratuitamente as newsletters da Adnews.

Digite o seu melhor email