Se a inteligência artificial pode criar qualquer coisa, o que realmente merece existir?
Uma conversa com Ricardo Figueira sobre criatividade, estratégia, propósito e as escolhas que continuam dependendo de nós.
22.09.2026

Conversar com Ricardo Figueira, fundador da Figtree e com uma sólida bagagem de nove anos em Londres aprendendo com grandes referências da estratégia como Guy Murphy e David Hackworthy, é um exercício sobre a essência da profissão. Durante a gravação para o Strategist Revival, exploramos temas como trajetória, criatividade, inteligência artificial e propósito. No entanto, uma reflexão permaneceu ecoando após o término da entrevista: o que estamos criando realmente merece existir?
Vivemos um momento em que a inteligência artificial amplia, quase diariamente, os limites da nossa capacidade produtiva. Textos, imagens, filmes, campanhas, conceitos e cenários de negócios inteiros ganham vida em uma velocidade que, há poucos anos, pareceria impensável. Contudo, poder criar com facilidade não transforma automaticamente uma ideia em algo relevante.
A tecnologia como ferramenta de simulação e questionamento
Durante o bate-papo, Figueira destacou usos da IA que vão muito além de buscar respostas prontas. A tecnologia atua como uma poderosa aliada para simular cenários, confrontar perspectivas e explorar caminhos alternativos para um problema.
Para quem atua com estratégia, essa distinção é fundamental. O trabalho estratégico nunca se limitou a encontrar respostas; antes disso, exige compreender o problema a fundo, questionar premissas e descobrir qual pergunta realmente importa. Como bem aponta a máxima do setor, uma resposta rápida para a pergunta errada continua sendo um erro. Quanto mais respostas a tecnologia oferece, maior se torna o valor de quem sabe perguntar, interpretar, conectar e escolher.
Nesse cenário de abundância criativa, surgem dilemas práticos incontornáveis:
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Se podemos gerar cem caminhos para uma campanha, por que seguir um deles?
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Se conseguimos produzir milhares de imagens, quais realmente possuem significado?
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Se uma marca pode ocupar todos os espaços, em quais ela realmente deveria estar?
O verdadeiro significado de propósito
Essas indagações conduzem diretamente ao conceito de propósito. Longe de ser apenas uma frase bonita estampada na parede de uma empresa, o propósito — na visão compartilhada por Figueira — reside na relação entre a energia que dedicamos a algo, o valor gerado e o sentido que encontramos nisso.
O propósito se materializa nas escolhas cotidianas:
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No problema genuíno que uma empresa decide resolver;
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Na maneira como trata as pessoas;
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Na qualidade e na utilidade do produto que coloca no mundo;
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Na forma como equilibra resultados financeiros com seu impacto real na sociedade e no planeta.
A responsabilidade das nossas escolhas
A inteligência artificial abre um leque sem precedentes de possibilidades, mas a responsabilidade de decidir quais caminhos fazem sentido continua sendo estritamente humana.
Talvez a pergunta central do nosso tempo não seja se a IA vai substituir estrategistas e criativos, mas sim se continuaremos dispostos a assumir a responsabilidade pelas escolhas que fazemos com o auxílio dela. Afinal, poder criar qualquer coisa não significa que tudo deva ser criado. Antes de perguntar o que a tecnologia pode fazer, vale a pena resgatar o questionamento fundamental: por que queremos fazer, para quem estamos fazendo e se aquilo realmente merece existir.
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