Vilanismo e a arte de virar vilão: masculinidades negras no centro da cena criativa

Movimentos como o coletivo Vilanismo e o Clube de Criação de São Paulo mostram que a presença negra no mercado criativo vai além da representatividade: é liderança estética, estratégia de marca e potência cultural que redefine o centro da criação brasileira

Vilanismo e a arte de virar vilão: masculinidades negras no centro da cena criativa

No mercado criativo brasileiro, falar de representatividade muitas vezes parece ainda reduzir o negro a estatística ou a “tema de diversidade”. Mas ao acompanhar o coletivo Vilanismo, formado por artistas negros na periferia de São Paulo, e as recentes mobilizações do Clube de Criação de São Paulo direcionadas à ascensão de publicitários negros, percebemos que não se trata apenas de presença, trata‑se de autoridade estética e estratégica. O Vilanismo, fundado em 2021, posiciona‑se não como espectador, mas como autor de narrativas e identidades visuais que confrontam o mainstream, afirmando que a potência criativa nasce do território, do cotidiano e da resistência.

No âmbito do Vilanismo, a 36ª Bienal de São Paulo abriga a instalação “Os meninos não sei que juras fraternas fizeram”, na qual obras, performances, conversas e coletivização de saberes da negritude se entrelaçam para desafiar conceitos de corpo, território, poder e estética. No Clube de Criação, a mudança não está apenas no discurso “vamos diversificar”, mas no convite tácito: quem sempre foi a periferia agora também define o que é valor criativo. Isso significa para agências, marcas e estúdios que o “mercado de inclusão” não é nicho, é o novo centro.

Como profissional preto, diretor de arte, diretor de criação e diretor criativo global atuando nas interseções entre moda, inovação e cultura, vejo esse movimento como a frente de um reposicionamento estratégico para o Brasil na cena criativa global. A produção estética periférica, a narrativa visual negra, não são apenas “tema social”, são valor de negócio, novas estéticas, novos públicos, novas conexões de marca‑mundo. A lição para a indústria criativa é clara: não basta “incluir” ou “representar”, é preciso abrir espaço para que a criação negra lidere o pensamento e o fazer criativo contemporâneo. Portanto, ao pensar futuro, marcas, agências e estúdios deveriam se perguntar: quem define hoje o que é belo, inovador, relevante? Se a resposta vier de modelos antigos, corremos o risco de perder o próximo ciclo de significado. É na vanguarda dos que mudaram a regra do jogo que o Brasil pode protagonizar internacionalmente, porque a criatividade negra não está mais pedindo para entrar, ela arrombou a porta!

Vinícius Monteiro é publicitário, diretor criativo do Fashinnovation NYC e colunista do Adnews.

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