A epidemia de setas vermelhas que matou a gestalt
Como a luta por atenção transformou um recurso de design em muleta visual — e o que a psicologia da percepção tem a ensinar sobre isso
12.11.2025

Abra o YouTube e repare: uma epidemia de setas vermelhas invade as miniaturas dos vídeos que você mais gosta. Notei elas, pouco a pouco, invadindo todas as thumbnails dos vídeos dos meus criadores preferidos. Até que, como uma tribo indo-européia, invadiram todos eles e não saíram mais. Elas funciona como signifier explícito (no vocabulário de Don Norman), indicando onde prestar atenção. Mas, o que começou como um atalho ou um chamariz de direcionamento de atenção, virou regra de forma simplória e direta demais: resolve na superfície mas empobrece a experiência. Em vez de colar um adesivo de “olhe para cá”, por que não construir a direção do olhar com princípios de composição que o cérebro já prefere? Ou, nas palavras do próprio Norman, projetar bons “sinalizadores” em vez de sobrecarregar a interface com ícones claros e gritantes de “preste atenção aqui”.
A psicologia da percepção já mapeou esses caminhos: Gestalt organiza o caos por semelhança, proximidade, continuidade, fechamento e figura-fundo. Assim, técnicas conhecidas e bastante usadas como Linhas de fuga (continuidade), blocos coesos (proximidade) e contraste forte (figura-fundo) criam hierarquia e conduzem o olhar — sem precisar de setas literalmente desenhadas. E o próprio YouTube sugere fundamentos clássicos (como regra dos terços) para compor miniaturas mais limpas e legíveis. Mas, acredito que a luta pela atenção e por garantir que o seu conteúdo seja assistido no lugar dos infinitos concorrentes gerou essa necessidade de se gritar mais e mais alto na feira que virou a comunicação digital.
“Mas seta dá clique” você vai me responder. E sim, às vezes, sim — porque pistas direcionais influenciam a atenção, ainda mais de um público abrangente e pouco conhecedor de regras de design. E não precisamos debater demais a eficiência de se direcionar o olhar do seu público com inteligência. Estudos mostram que símbolos direcionais (como setas) e pistas sociais como o gaze cueing são muito fortes e eficientes em orientar para a área-alvo do olhar. Há meta-análises indicando efeitos comparáveis em muitos contextos, embora a automaticidade e as condições variem. De qualquer forma, não é novo assumirmos que direcionar o olhar é importante na economia da atenção.
Na prática, essa é uma das principais preocupações que temos ao produzir vídeos, animações e apresentações corporativas aqui na MonkeyBusiness. E, percebo que, desde 2009, esse tema de direcionamento de atenção e eficiência de comunicação só cresce. No entanto, usar elementos visuais como as famigeradas setas vermelhas que invadiram o Youtube não funciona para uma comunicação corporativa de qualidade. Precisamos ser mais inteligentes, criativos e nos apoiar na Gestalt para isso.
Assim, esssa direção explícita e agressiva das setas vermelhas gigantes em cima de toda imagem não é tudo. Em um ambiente de disputa brutal por atenção, saliência (cor, tamanho, contraste, orientação) pesa tanto quanto a seta que aponta. Estudos clássicos de Gestalt aplicada e modelos de visão mostram que nosso olhar dá saltos para “ilhas” de saliência — e isso pode ser desenhado com contraste, recorte de figura-fundo e poucos elementos grandes (não muitas coisinhas pequenas). Em thumbnails, ainda existem outras estratégia como a inclusão de rostos e emoções que seguem como imãs atencionais — e aparecem até nas diretrizes do próprio YouTube e em estudos/relatos de performance. Enfim, gerar atenção é importante, e não precisa ser feita obrigatoriamente com setas. No fim, a pergunta não é “seta sim ou não?”, mas “qual é a melhor pista para o seu público e para aquela história que você quer contar na ferramenta?”. Assim, acredito que essa eidemia de setas conota um certo desespero pela atenção e pelo clique. Uma tentativa talvez de já comunicar, em uma imagem estática, o que seria visto em um vídeo – com muito mais tempo e ferramentas de comunicação para se mostrar aquela informação de forma completa. Ou seja, as setas são a solução comum para o problema de direcionamento de olhar que a Gestalt já nos deu as ferramentas certas para corrigir há muito tempo.
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